Por Caroline Mendes | caroline@dc7comunica.com.br
O Brasil registrou, na última quinta-feira (15), o primeiro foco de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) em uma granja comercial. A ocorrência foi confirmada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em uma granja de matrizes de ovos férteis no município de Montenegro (RS), marcando a transição de um cenário até então restrito à fauna silvestre para um ambiente de produção industrial.
Com a detecção do vírus H5N1, considerado altamente patogênico e de alto risco para a produção avícola, foram imediatamente aplicadas as ações previstas no Plano Nacional de Contingência para IAAP, entre elas a interdição da propriedade, o abate sanitário dos animais, o bloqueio de movimentações e o rastreamento dos produtos oriundos da unidade.
Autoembargo e impacto comercial imediato
Como medida preventiva, o Mapa determinou o autoembargo das exportações de produtos avícolas originados do estado do Rio Grande do Sul. A decisão foi tomada para preservar a imagem sanitária do Brasil e evitar reações mais amplas de parceiros internacionais. No entanto, China e União Europeia, seguindo cláusulas contratuais, suspenderam as compras de carne de aves de todo o território brasileiro, enquanto o Japão, por já ter acordo de regionalização, limitou a suspensão ao município afetado.
Segundo o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), um terço da produção brasileira de carne de frango é destinada à exportação. Em 2024, a China respondeu por pouco mais de 10% das vendas externas, enquanto a União Europeia absorveu cerca de 4,5% e o Oriente Médio, em conjunto, respondeu por aproximadamente 30%.
A suspensão total ou parcial dos embarques poderá afetar significativamente os preços no mercado doméstico. O Cepea destaca que, até o momento da confirmação do foco, os preços do frango estavam firmes, sustentados pela boa liquidez no atacado e pelas exportações. Qualquer retração na demanda internacional pode gerar excesso de oferta no mercado interno, pressionando os preços ao produtor.
No caso específico dos ovos, o impacto é ainda mais direto: o Rio Grande do Sul representa cerca de um terço das exportações brasileiras do produto, o que pode resultar em desequilíbrios de curto prazo no setor.
Risco controlado, mas vigilância máxima
Apesar do alto potencial de disseminação da Influenza Aviária, as autoridades brasileiras e entidades representativas do setor mantêm uma postura de confiança na contenção do foco. O Mapa reiterou que o caso está sendo tratado com o máximo rigor e que todas as medidas foram acionadas dentro dos protocolos internacionais.
Em nota oficial, o ministério afirmou que “o consumo de carne de frango e ovos segue seguro, pois não há risco de transmissão da IAAP por meio da ingestão dos alimentos, especialmente se preparados de forma adequada”. A principal forma de transmissão para humanos é por contato direto com aves infectadas, vivas ou mortas.
Além da propriedade afetada, o Mapa monitora outros estabelecimentos num raio de até 10 km. No domingo (18), um novo caso suspeito foi identificado em uma granja dentro do raio de 3 km da propriedade original, e o material foi enviado para análise laboratorial.

Entidades reforçam protocolos de biosseguridade
A Associação Paulista de Avicultura (APA) divulgou um comunicado reforçando a urgência na revisão dos protocolos de biosseguridade por parte de todos os produtores, granjas e responsáveis técnicos.
“Uma eventual falha isolada pode comprometer a integridade de todo o setor. A colaboração de todos é vital para minimizar riscos e proteger a avicultura brasileira”, alerta a nota.
A APA também reconheceu o empenho das equipes oficiais e privadas na resposta imediata ao foco detectado, mas ressalta que ainda é cedo para mensurar os impactos da ocorrência sobre o mercado como um todo.
Na mesma linha, o Anffa Sindical, que representa os fiscais federais agropecuários, pediu o reforço das equipes de vigilância e a contratação emergencial de novos profissionais, além da modernização da infraestrutura de defesa sanitária. A entidade destacou a sobrecarga dos servidores e a importância estratégica da sanidade animal para a economia do país.
Sanidade animal e diplomacia no centro do debate
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, declarou que o governo está atuando com total transparência junto às autoridades internacionais e se comprometeu com a regionalização das medidas, buscando conter as repercussões comerciais. Ele destacou que o Brasil tem um sistema robusto de defesa agropecuária e que o evento, apesar de grave, está sob controle.
Segundo o Cepea, o cenário pode evoluir para uma flexibilização dos embargos, caso os países importadores considerem os esforços do Brasil e reconheçam a atuação localizada e eficaz na contenção do foco. Para isso, será necessário um trabalho de diplomacia sanitária ativa, coordenado entre governo e setor privado.
“Flexibilizar a suspensão total da carne de aves do Brasil pode interessar também à China e à União Europeia, dado o impacto que seus consumidores teriam com o não recebimento do produto”, aponta o Cepea.
Responsabilidade compartilhada
O caso evidencia a importância da responsabilidade compartilhada entre poder público, empresas e produtores rurais. A adoção rigorosa de medidas de biosseguridade, o rastreamento de insumos e o controle de trânsito de pessoas e veículos nas granjas são hoje mais do que boas práticas: são essenciais à continuidade do setor.
A rápida resposta ao foco de Montenegro, aliada à transparência e ao cumprimento dos protocolos internacionais, será decisiva para manter a credibilidade do Brasil como fornecedor confiável de proteína animal. Mais do que conter um vírus, trata-se de preservar um dos pilares da segurança alimentar global e da balança comercial brasileira.
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