A transição para o período seco no Brasil traz consigo dias mais curtos e a escassez de chuvas, fatores que alteram drasticamente a fisiologia das pastagens e, consequentemente, a composição e a oferta de forragem. Entre as principais mudanças nas plantas estão o alongamento dos colmos e o florescimento desencadeados pela redução da luminosidade e pela estiagem. Assim, gramíneas tropicais envelhecidas apresentam teores de proteína bruta inferiores a 7% e elevada proporção de fibra de baixa degradabilidade, essa combinação limita a atividade da microbiota ruminal devido ao déficit proteico, comprometendo a digestão da fibra e reduzindo o consumo voluntário. O avanço da maturidade das plantas altera a proporção de folhas verdes, aumentando a relação haste-lâmina, o que reduz o tamanho do bocado e o tempo efetivo de pastejo, contribuindo para a decadência do desempenho animal. A queda no desempenho animal durante a seca não ocorre apenas pela menor qualidade da forragem, mas também, pelo manejo prévio da pastagem. Ou seja, quando o pasto não é manejado adequadamente ao longo do ano, pode chegar à seca com baixa qualidade. Vale ressaltar, que eventos de seca mais intensos e prolongados, como os registrados nos últimos anos (La Niña na região Sul e estiagem persistente no Centro-Oeste) tendem a ampliar a janela de déficit forrageiro.
Embora outros sistemas de produção sofram os efeitos da seca, a fase de recria é a mais sensível. No intervalo entre o desmame e a puberdade (geralmente até os 330-360 kg), o animal possui uma exigência nutricional elevada para o desenvolvimento muscular e ósseo. Nessa fase, o animal se aproxima do ponto de inflexão da curva de crescimento, período de maior potencial de ganho diário, o qual, é caracterizado pela intensa deposição de tecido muscular. Isso proporciona uma conversão alimentar até 30% superior à observada na fase de terminação, fato que justifica a adoção de um plano nutricional de maior custo nesse momento.
Quando a nutrição é limitada nesse período, parte do desenvolvimento ósseo e muscular pode não ser plenamente recuperado pelo crescimento compensatório posterior. Isso ocorre porque o ganho de peso subsequente tende a priorizar a deposição de tecido adiposo, em vez da recuperação integral dos tecidos que deveriam ter se desenvolvido nessa fase de crescimento. Como consequência, os animais podem apresentar menor peso ao abate ou atingir acabamento precoce em categorias abaixo do seu potencial produtivo. Em machos, essa restrição também pode resultar em menor peso corporal e menor cobertura de gordura ao abate, podendo reduzir em até 30% no peso de carcaça quando comparados a animais com ganhos contínuos. Cada dia sem um ganho médio diário (GMD) adequado representa mais tempo no ciclo de terminação e maior desequilíbrio da eficiência econômica do sistema, elevando os custos fixos e reduzindo a margem da arroba antes mesmo do abate.
Nas fêmeas em recria, o impacto vai além do peso corporal, uma vez que o início da puberdade depende do alcance de aproximadamente 60% a 65% do peso adulto. Assim, novilhas que perdem desempenho durante a seca tendem a atrasar o primeiro cio, comprometendo a eficiência reprodutiva do lote, o peso do terneiro ao nascer e o próprio índice de desfrute do rebanho.

Nesse contexto, a utilização de suplementos durante a estação seca passa a assumir um papel estratégico, fornecendo os nutrientes limitantes e amenizando os efeitos da baixa qualidade das forrageiras disponíveis. O animal necessita utilizar a energia consumida para o seu crescimento e deposição de gordura, fato que demanda um balanço equilibrado entre energia (70 a 80% de NDT) e proteína (15 a 18%). O sal proteico, ofertado em torno de 1,0 grama por kg de peso/vivo/dia, tem como principal objetivo aumentar a ingestão de proteína pelos bovinos, ao favorecer a atividade da microbiota ruminal e melhorar o aproveitamento de fibra disponível no pasto. Já os suplementos concentrados, que visam fornecer tanto proteína quanto energia, são fornecidos entre 2,5 a 5 gramas por kg de peso vivo/animal/dia. O ponto central é evitar que o lote permaneça por meses em manutenção, situação que aumenta a idade de saída da recria e transfere o problema para a terminação ou para a estação seguinte. Por isso, o suplemento deve ser escolhido para sustentar um GMD compatível com a meta do sistema, mantendo consumo regular e maior uniformidade entre os animais do lote. Para que a suplementação apresente resultados efetivos, é indispensável dimensionar corretamente o espaço de cocho conforme a categoria e o tipo de suplemento fornecido. Além disso, os cochos devem estar posicionados em locais de fácil acesso aos animais, preferencialmente em áreas secas e próximas aos bebedouros. Outra estratégia importante para enfrentar o período seco e ampliar a oferta de forragem é o diferimento de áreas de pastagem aliado à utilização de espécies mais resistentes, como as forrageiras do gênero Brachiaria. De modo geral, no início do estágio vegetativo, essas gramíneas apresentam elevados teores de proteína bruta (PB) e boa digestibilidade da matéria orgânica. Ainda, a adoção de sistemas consorciados com leguminosas pode contribuir para melhorar a qualidade nutricional da pastagem e aumentar a eficiência do sistema.
É evidente que a queda na qualidade e disponibilidade das pastagens aumenta os custos operacionais do sistema. A dependência de insumos externos, somada à necessidade de um controle criterioso da carga animal para evitar a degradação das áreas de pastejo, exerce pressão direta sobre as margens financeiras da atividade. Entretanto, o investimento em suplementação e infraestrutura deve ser compreendido como uma estratégia de proteção do sistema produtivo. Ao reduzir o chamado “efeito sanfona”, caracterizado pelo ganho de peso nas águas e pela perda durante a seca, o produtor preserva a rentabilidade da arroba produzida e contribui para a sustentabilidade econômica da pecuária no longo prazo.

A estação seca não está relacionada apenas a um fator climático. Ela representa,
principalmente, um desafio de planejamento do sistema de produção. Nesse contexto, o pasto
deve ser compreendido como um componente vivo, com exigências muitas vezes conflitantes
com as dos animais. Planejar a suplementação antes do período seco, ajustar a carga animal,
monitorar o ganho médio diário (GMD) e fazer um planejamento forrageiro são medidas de
gestão e não apenas despesas operacionais. Em um mercado cada vez mais desafiador, a
gestão se torna a principal ferramenta de proteção contra riscos que muitas vezes não
possuem cobertura ou garantia.
Escrito por: Mariana Leão da Cruz, Giovana Siqueira Giacomelli, Givanildo Batista e Júlio Otávio Jardim Barcellos
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