A mudança nos hábitos de consumo e a busca por produtos com maior teor de proteínas estão transformando o mercado de lácteos e elevando o valor de um antigo subproduto da indústria de queijos: o soro de leite. O ingrediente, antes pouco valorizado, tornou-se matéria-prima estratégica para a produção de whey protein, em um mercado marcado por forte crescimento da demanda e oferta ainda limitada.
O movimento já provoca uma corrida por investimentos. Empresas do setor estão ampliando plantas existentes, construindo novas fábricas e integrando a produção de queijo à fabricação de ingredientes proteicos de maior valor agregado.
Embora seja um importante consumidor de whey, o Brasil ainda depende fortemente das importações. Cerca de 70% do WPC80 (Whey Protein Concentrado com 80% de proteína) e do WPI (Whey Protein Isolado, com pelo menos 90% de proteína) utilizados no país vêm do exterior. A expectativa de empresas e especialistas do setor, porém, é que essa dependência diminua à medida que novos projetos entrem em operação.
A pressão sobre a oferta já se reflete nos preços internacionais. Levantamento da consultoria StoneX mostra que o WPC80 quase triplicou de preço nos Estados Unidos. A tonelada, que custava cerca de US$ 10 mil no início de 2025, chegou a US$ 28 mil em agosto deste ano.
No mesmo período, o WPI avançou 47%, alcançando US$ 32 mil por tonelada. O WPC34, de menor concentração proteica, teve alta de 40%. “Foi uma combinação entre uma demanda que se acelerou e uma oferta que não conseguiu acompanhar esse aumento”, afirma Juliana Torres Santiago, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Segundo a consultoria, o WPC80 importado dos Estados Unidos chega ao Brasil por aproximadamente R$ 160 mil a tonelada, considerando impostos e custos de importação.
Do subproduto ao ingrediente estratégico
A valorização do whey está diretamente relacionada ao aumento da procura por alimentos e bebidas com maior concentração de proteínas. O movimento ganhou força durante e depois da pandemia, com a busca por produtos associados a uma alimentação considerada mais saudável, e passou a receber novo impulso com a popularização dos medicamentos injetáveis utilizados no controle do apetite.
A proteína deixou de estar restrita ao mercado de suplementos esportivos. Hoje, ingredientes proteicos são utilizados em barras, bebidas lácteas, snacks, chocolates, pães e até em categorias como vinhos e cervejas.
O avanço da demanda, contudo, encontrou uma indústria que não consegue ampliar a oferta na mesma velocidade. A construção e a expansão de unidades de processamento exigem investimentos elevados e levam tempo para entrar em operação. O resultado foi uma valorização em toda a cadeia do soro. “Há um descompasso entre o crescimento da demanda por proteína concentrada de soro e o crescimento da disponibilidade de soro como subproduto da produção de queijo”, afirma Marcel de Barros, CEO da Tirolez. “Esse descompasso gera uma pressão de demanda, que leva a toda essa alta. É um fenômeno mundial”, acrescenta.
O Brasil produz mais de 35 bilhões de litros de leite por ano, segundo o IBGE, mas ainda tem capacidade limitada para transformar o soro resultante da fabricação de queijos em ingredientes proteicos de maior valor agregado. É justamente nesse ponto que está uma das principais oportunidades de expansão da indústria.
Tirolez amplia presença no soro
A Tirolez já atua no mercado de soro de leite. A empresa comercializava o subproduto para companhias que faziam o processamento e a transformação do ingrediente para utilização na alimentação humana.
Agora, a companhia avalia ampliar a importância desse negócio dentro do grupo por meio de “parcerias estratégicas de longo prazo”. Atualmente, fornece matéria-prima para empresas que utilizam whey na formulação de produtos.
A empresa também avançou diretamente na capacidade de processamento. Recentemente, adquiriu a planta do grupo Barbosa & Marques, em recuperação judicial, em Governador Valadares (MG).
A unidade tem capacidade para processar e secar 480 mil litros de soro por dia e, segundo Barros, já opera em capacidade máxima. A Tirolez arrenda a fábrica desde 1º de julho, enquanto a aquisição definitiva depende da conclusão do processo de recuperação judicial.

Sooro Renner prepara nova fábrica de R$ 1 bilhão
Entre as empresas brasileiras especializadas na produção de proteínas de alta concentração está a Sooro Renner, que possui unidades em Marechal Cândido Rondon (PR) e Estação (RS).
A companhia produz atualmente cerca de 8 mil toneladas anuais de WPC80 e 2 mil toneladas de WPI, com atuação concentrada no mercado B2B, fornecendo ingredientes para outras indústrias.
Após a fusão com a Relat, do grupo Renner Hermann, em 2019, a empresa estabeleceu como estratégia dobrar a capacidade de produção de proteínas. O plano ganhou um novo capítulo em 2024, com a decisão de construir uma fábrica em Francisco Beltrão (PR).
O investimento supera R$ 1 bilhão. A previsão é que a unidade comece a produzir no segundo semestre de 2027 e praticamente dobre a capacidade atual da empresa para WPC80 e WPI.
A nova fábrica também deverá ampliar o portfólio para aplicações voltadas à nutrição infantil e ao público sênior. “O whey era considerado um produto só para ‘marombados’, as pessoas que viviam na musculação. Mas notamos que a pessoa que queria ter um estilo de vida mais saudável, seja correr, pedalar, fazer crossfit, também precisaria consumir mais proteína”, afirma Eduardo Serra, CEO da Sooro Renner.
A expansão ocorre em um momento de forte valorização da matéria-prima. A empresa compra soro de laticínios da região Sul e, segundo Serra, o custo desse insumo dobrou no último ano, pressionado pela oferta restrita e pelo aumento da demanda.
“Houve uma valorização de toda a cadeia. O meu fornecedor está recebendo mais, mas eu estou vendendo também mais caro”, afirma.
Lactalis aposta em produção integrada
Outra estratégia para garantir matéria-prima é integrar a produção de whey à fabricação de queijos. É o modelo adotado pela francesa Lactalis, que possui uma fábrica de WPC integrada à unidade de produção de queijos em Três de Maio (RS). O soro é transportado diretamente para a fabricação do whey por meio de uma tubulação, em circuito fechado.
Para a empresa, o mercado brasileiro ainda apresenta espaço relevante para expansão.
“O consumo per capita de proteína do leite nos Estados Unidos ou em outros mercados com economia mais madura ainda é bem maior que o do Brasil. Então acreditamos que aqui esse mercado vai continuar crescendo”, afirma Guilherme Portella, diretor de comunicação, assuntos regulatórios e corporativos da Lactalis Brasil.
Fábricas de queijo já nascem com plantas de whey
O avanço da demanda por proteínas também está mudando o desenho de novos projetos industriais. Segundo Valter Galan, sócio da consultoria MilkPoint, já existem unidades de produção de queijo sendo planejadas com plantas de processamento de soro acopladas.
O movimento reflete uma mudança na lógica de aproveitamento da matéria-prima: em vez de tratar o soro apenas como um subproduto da fabricação de queijo, as empresas passam a enxergá-lo como fonte de ingredientes de alto valor agregado.
O mercado de bebidas proteicas movimenta atualmente cerca de 80 milhões de litros por ano, segundo a MilkPoint. O volume ainda é pequeno diante das bebidas UHT tradicionais, que chegam a quase 500 milhões de litros, mas a categoria vem registrando crescimento acima de um dígito nos últimos anos.
E um dos projetos que incorpora essa integração desde a origem é o do Grupo Piracanjuba.
Piracanjuba investe R$ 500 milhões em complexo integrado
Um dos maiores grupos de laticínios do país, a Piracanjuba está investindo mais de R$ 500 milhões na construção de um complexo industrial em São Jorge d’Oeste (PR).
O projeto prevê produção integrada de queijo, manteiga, whey protein e lactose em pó. A expectativa é que a unidade tenha capacidade para produzir até 6 mil toneladas de whey protein por ano. A fábrica ainda está em construção.
O movimento da Piracanjuba, assim como os investimentos da Sooro Renner, da Tirolez e a produção integrada da Lactalis, mostra como a valorização das proteínas está alterando a economia do soro dentro da indústria de lácteos.
Para uma cadeia que já possui uma das maiores bases de produção de leite do mundo, o desafio agora não está apenas em produzir mais matéria-prima, mas em ampliar a capacidade de transformá-la em ingredientes de maior valor agregado.
Com a demanda por proteínas avançando em diferentes categorias de alimentos, a disputa pelo soro tende a ganhar importância estratégica — e pode acelerar uma nova fase de investimentos na indústria brasileira de lácteos.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.