O Brasil reúne escala, tecnologia, sanidade, disponibilidade de matérias-primas e capacidade industrial para ocupar posição de destaque no mercado global de proteína animal. Para José Antonio Ribas Júnior, presidente do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados em Santa Catarina (Sindicarne), porém, essa competitividade vem sendo pressionada por custos internos que reduzem parte das vantagens conquistadas pelo setor.
Em artigo sobre o chamado Custo Brasil, Ribas Júnior argumenta que a eficiência obtida dentro das granjas e das indústrias é parcialmente comprometida por fatores como carga tributária, juros elevados, infraestrutura deficiente, burocracia, insegurança jurídica e custos logísticos.
A avaliação é especialmente relevante para as cadeias de aves e suínos, que dependem de uma extensa estrutura produtiva, envolvendo genética, produção de grãos, fabricação de ração, criação animal, processamento industrial, transporte e exportação, ele aponta.
Reforma tributária exige atenção
A tributação é apontada como um dos principais componentes do Custo Brasil. Segundo o presidente do Sindicarne, a sucessão de etapas existentes nas cadeias de proteína animal amplia a exposição das empresas ao sistema tributário. Ribas Júnior vê na reforma tributária uma oportunidade de simplificação, mas ressalta que a transição exigirá acompanhamento para evitar que exceções, regimes específicos e novas regulamentações reproduzam a complexidade que a mudança pretende reduzir.
Outro ponto levantado é a necessidade de evitar que a agregação de valor na indústria resulte simplesmente em aumento da carga tributária.
Na avaliação do dirigente, um país que busca ampliar a industrialização, gerar empregos qualificados e exportar alimentos de maior valor agregado precisa criar condições para estimular a transformação da matéria-prima dentro do próprio território.
Custos trabalhistas entram na equação
A questão trabalhista também aparece entre os fatores que afetam a competitividade da indústria de proteína animal.
O texto destaca a reoneração gradual da folha de pagamentos e seus impactos sobre atividades intensivas em mão de obra. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam dificuldades para preencher postos de trabalho.
Nesse cenário, mudanças adicionais em jornadas e escalas, segundo Ribas Júnior, precisam considerar aspectos como produtividade, disponibilidade de trabalhadores e impacto sobre os custos de produção.
A preocupação é que aumentos permanentes de custos sejam absorvidos pelas margens das empresas, reduzam investimentos ou sejam repassados ao longo da cadeia até chegar aos preços dos alimentos.
Déficit de milho eleva custo da produção no Sul
A logística é apontada por Ribas Júnior como um dos principais gargalos da cadeia de proteína animal, especialmente no Sul do País, onde está concentrada parcela relevante da produção brasileira de aves e suínos. A região, apesar da forte presença da indústria, convive com um déficit estrutural de milho para alimentação animal. Segundo ele, essa insuficiência pode chegar a aproximadamente 7 milhões de toneladas, mesmo em anos considerados favoráveis.
O resultado é uma dependência maior do transporte de grandes volumes de grãos por longas distâncias. O custo logístico associado a esse déficit é estimado pelo dirigente em mais de R$ 10 bilhões.
A situação se agrava diante da dependência do modal rodoviário, dos congestionamentos, das limitações de infraestrutura portuária e dos custos para levar a produção até os mercados internacionais.

Produção regional de grãos pode reduzir vulnerabilidade
Enquanto investimentos estruturantes em ferrovias e infraestrutura avançam, o artigo defende a adoção de alternativas capazes de reduzir a vulnerabilidade da cadeia no curto prazo. Entre as possibilidades está o aproveitamento de áreas agrícolas disponíveis durante o inverno no Sul para ampliar a produção de trigo, triticale e outros cereais destinados à alimentação animal.
Ribas também defende a ampliação do seguro rural, para aumentar a previsibilidade da produção, e maior facilidade para a entrada de grãos de países vizinhos, especialmente Argentina e Paraguai.
Essas medidas, segundo Ribas Júnior, não substituem investimentos em infraestrutura, mas podem contribuir para reduzir gargalos de abastecimento.
Crédito caro limita investimentos
O acesso ao capital é outro ponto destacado. A modernização de granjas e plantas industriais exige investimentos em automação, eficiência energética, biosseguridade e sustentabilidade.
Quando o custo do crédito aumenta, projetos necessários para elevar a produtividade podem deixar de ser financeiramente viáveis. Na avaliação apresentada pelo presidente do Sindicarne, isso pode postergar investimentos, reduzir ganhos de eficiência e ampliar a distância em relação aos concorrentes internacionais.
A solução, segundo o artigo, não estaria na criação de subsídios permanentes, mas na construção de um ambiente capaz de estimular o financiamento privado, com equilíbrio fiscal, segurança jurídica, redução da burocracia e condições de crédito compatíveis com investimentos de longo prazo.
Sanidade é ativo estratégico
A sanidade animal é tratada como um dos principais ativos da cadeia brasileira de proteína animal.
Doenças como influenza aviária e peste suína, além de enfermidades relacionadas à população de animais asselvajados, exigem sistemas permanentes de vigilância e prevenção.
Para Ribas Júnior, a sanidade não deve ser encarada apenas como uma despesa operacional, mas como uma espécie de infraestrutura econômica. A capacidade de manter o status sanitário é fundamental para preservar mercados internacionais e sustentar a atividade exportadora.
Digitalização será próxima fronteira
O avanço de tecnologias como inteligência artificial, ciência de dados, automação e ferramentas de análise preditiva também deverá influenciar a produtividade da agroindústria.
O artigo, entretanto, ressalta que a transformação digital depende de conectividade no meio rural, acesso a tecnologias e desenvolvimento de soluções capazes de atender às necessidades da produção brasileira.
A dependência excessiva de equipamentos, sistemas e conhecimento importados pode representar uma nova camada de custos para a cadeia.
Competitividade depende de reduzir custos internos
Na avaliação do presidente do Sindicarne, o Brasil possui vantagens naturais e produtivas importantes, mas elas não são suficientes para garantir competitividade no mercado global.
A disputa internacional envolve não apenas capacidade de produção, mas também condições de infraestrutura, previsibilidade regulatória, disponibilidade de capital e ambiente de negócios.
A questão central, segundo Ribas Júnior, é transformar as vantagens comparativas do Brasil — como disponibilidade de matérias-primas, escala produtiva e capacidade industrial — em vantagens competitivas sustentáveis.
Para a cadeia de proteína animal, o desafio está em reduzir os custos que surgem fora da granja e da indústria e que acabam comprometendo parte da eficiência alcançada dentro delas.
A discussão, portanto, vai além da necessidade de produzir mais. Envolve a capacidade do País de criar condições para que a produção seja transformada em alimentos de maior valor agregado, gere empregos, atraia investimentos e mantenha espaço nos mercados internacionais.



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