Caroline Mendes, de Chapecó (SP)
Durante sua palestra “Prevenção das doenças reprodutivas: nosso calendário sanitário está adequado aos desafios do campo?”, o médico veterinário e pesquisador Dr. Álvaro Menin destacou que pensar em sanidade reprodutiva é, antes de tudo, pensar em estratégia. “O calendário sanitário nada mais é do que uma ferramenta de promoção de saúde”, afirmou, ao defender que cada fazenda deve estruturar seus programas de prevenção com base nas suas condições reais de manejo, ambiência e capacidade de investimento.

Menin ressaltou que as doenças reprodutivas representam apenas um ‘tijolo’ dentro da estrutura sanitária do rebanho, mas que têm impacto direto na produtividade e na rentabilidade da atividade leiteira. Entre os prejuízos mais comuns estão abortos, descarte precoce de vacas e altos custos energéticos e nutricionais relacionados a quadros infecciosos. “O descarte deveria ser uma ferramenta de melhoria genética e sanitária, mas muitas vezes se torna uma obrigação”, alertou.
Ao apresentar dados de estudos recentes realizados no Brasil e no exterior, o professor mostrou que um aborto pode representar perdas superiores a R$ 15 mil por animal, considerando queda na produção de leite, descarte e custos de recuperação. “Esses números ainda são conservadores frente à realidade de algumas propriedades”, disse.
O pesquisador também apresentou resultados de 1.873 casos de fetos abortados analisados em 2024 e 2025, com diagnósticos microbiológicos e histológicos completos. As principais causas infecciosas identificadas foram amnionite, leptospirose, BVD e IBR, além de quadros não infecciosos e causas indeterminadas. Menin destacou a importância de empregar múltiplas ferramentas diagnósticas, como PCR e histopatologia, para aumentar a precisão dos resultados.
Outro ponto abordado foi a necessidade de repensar as rotas de transmissão das doenças. O pesquisador lembrou que, nos sistemas modernos, a transmissão vertical (mãe-feto) tem ganhado maior relevância frente à horizontal. “Uma vaca positiva tem três vezes mais chances de abortar do que uma negativa, e 80% dos seus descendentes tendem a ser reagentes. Isso mostra o quanto é urgente trabalhar o controle desde as novilhas”, reforçou.
Entre as ações mais efetivas para o controle das doenças reprodutivas, Menin defendeu triagens periódicas, monitoramento ativo, descarte estratégico de vacas positivas e atenção especial às receptoras em programas reprodutivos. “Não basta ter doadoras livres de agentes infecciosos; as receptoras também precisam estar sanitariamente preparadas”, alertou.
Encerrando sua apresentação, o pesquisador reforçou que a prevenção começa com informação e planejamento. “Não existe calendário sanitário ideal, existe calendário adequado à realidade do campo. O que precisamos é transformar rotina em estratégia e dado em decisão”, concluiu.
LEIA TAMBÉM:
Pesquisa avalia bem-estar de bezerras com enriquecimento ambiental
A revolução do Beef on Dairy e os desafios para o Brasil
Saúde intestinal desde o berço garante produtividade ao longo da vida




