O Brasil inicia 2026 consolidado como o principal fornecedor de carne bovina do mercado global, após um ano marcado por recordes históricos de produção e exportação. Em um cenário internacional de oferta restrita e concentrada em poucos países, o protagonismo brasileiro se fortalece, ao mesmo tempo em que surgem indícios de uma possível virada no ciclo pecuário, fator que pode impactar a disponibilidade de animais e os preços ao longo dos próximos anos.
A análise é de Larissa Barboza Alvarez, analista de Mercado da StoneX, e integra o relatório “Perspectivas para Commodities 2026”, divulgado em janeiro pela empresa global de serviços financeiros. O estudo aponta que, apesar da demanda seguir aquecida tanto no mercado interno quanto no externo, a oferta de gado pode se tornar um dos principais pontos de atenção para o setor.
De acordo com a analista, o Brasil registrou em 2025 níveis inéditos de abate, impulsionados principalmente pelo elevado descarte de fêmeas. Embora esse movimento seja comum em períodos de margens favoráveis ao produtor, ele possui limites naturais, uma vez que as matrizes são fundamentais para a reposição do rebanho.
“Nos últimos meses, a redução no abate de fêmeas indica que os produtores podem estar iniciando um novo ciclo de retenção. Como o ciclo pecuário tem duração média entre 18 e 30 meses, qualquer ajuste feito agora tende a ter efeitos prolongados sobre a oferta futura”, explicou Larissa.
Caso a virada de ciclo se confirme no início de 2026, o mercado poderá enfrentar uma oferta mais ajustada justamente em um momento de demanda aquecida. Esse cenário cria condições para a valorização da carne bovina ao longo do ano, tornando cada animal terminado um ativo ainda mais estratégico dentro da cadeia produtiva.
Consumo interno segue sustentado
No mercado doméstico, o ambiente macroeconômico mais favorável, com crescimento econômico e níveis de desemprego historicamente baixos, sustenta perspectivas positivas para o consumo de carne bovina. A melhora na renda das famílias tende a estimular a demanda, especialmente em um país onde a proteína bovina tem papel central na alimentação.
No entanto, alguns fatores podem moderar esse avanço. Segundo a analista, o aumento da inadimplência, a cautela dos consumidores em ano eleitoral e possíveis eventos sanitários entram no radar do setor. “O choque de oferta causado pela gripe aviária em 2025 mostrou como crises pontuais podem alterar a competitividade entre proteínas e influenciar os preços da carne bovina”, destacou.
Brasil no centro do abastecimento global
No cenário internacional, a dependência do mercado global em relação ao Brasil se mantém elevada. A China segue como principal âncora da demanda externa, com necessidades de importação que superam a capacidade total de exportação brasileira. Além disso, mercados como Japão, Coreia do Sul, Egito, Emirados Árabes Unidos, Chile e Estados Unidos continuam apresentando demanda estável.
Em 2025, a resiliência da demanda internacional ficou evidente. A retração temporária das compras norte-americanas, após a imposição de tarifas, foi rapidamente compensada pelo aumento das importações chinesas, reforçando a posição do Brasil como fornecedor competitivo e capaz de responder rapidamente em volume.
“O Brasil chega a 2026 com protagonismo ampliado no comércio internacional e com o desafio de equilibrar uma demanda firme diante de uma possível redução na oferta. A forma como essas forças irão interagir será determinante para os preços, as margens e a dinâmica competitiva da pecuária nacional ao longo do próximo ciclo”, concluiu Larissa Barboza Alvarez.
Fonte: StoneX, adaptado pela equipe da Feed & Food.
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