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Artigo: O rompimento da ligação materno-filial – a desmamada do bezerro

Fatores nutricionais, comportamentais e ambientais influenciam o sucesso da separação e o desempenho na fase de recria
Por Marcelo Macaus
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Por Carolina Decimo1, Eduarda Rech2, Giovana Zucco3, Marcela Kuczynski da Rocha4 e Julio Barcellos5*

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O desmame é uma prática amplamente utilizada nos sistemas de cria e consiste na separação materno-filial. É nessa fase que ocorre grande parte do desenvolvimento do rúmen dos bezerros, uma vez que se caracteriza por ser um período de transição alimentar, no qual o leite materno é substituído por alimentos sólidos, como forragem e suplementação. O desmame, quando bem-sucedido, promove a obtenção de bons resultados na recria e contribui diretamente para o sucesso das propriedades, já que potencializa a produtividade tanto das vacas quanto dos bezerros. Entretanto, quando realizado de forma inadequada, pode comprometer o desenvolvimento dos animais, uma vez que o desequilíbrio hormonal provocado pelo estresse prejudica a alimentação e, consequentemente, a eficiência da produção.

Nesse contexto, as alterações comportamentais desencadeadas pelo aumento dos níveis de estresse após a separação induzem maior liberação de cortisol pelo córtex adrenal. Esse descontrole hormonal intensifica o comportamento crítico dos animais e compromete os índices zootécnicos, reduzindo o ganho de peso e a conversão alimentar. Diante disso, a implementação de medidas para reduzir o estresse dos animais dentro da fazenda é de extrema importância, pois é nesse período que as vacas se recuperam para voltarem ao ciclo reprodutivo e que a eficiência produtiva da fase adulta dos bezerros é determinada.

No planejamento nutricional, é fundamental adotar estratégias que favoreçam a adaptação alimentar dos bezerros antes da separação definitiva da mãe. Uma das ferramentas mais utilizadas com esse objetivo é o creep-feeding, que tem se destacado por reduzir os efeitos da mamada em rebanhos de cria. A técnica consiste na oferta de alimento específico para os bezerros por meio de cochos privativos, inacessíveis às vacas. Em algumas situações, também são utilizados cochos destinados às matrizes, permitindo suplementações direcionadas. O principal objetivo é promover ganho de peso, acelerar o desenvolvimento ruminal e garantir bezerros mais pesados no desmame. Além disso, em sistemas mais intensivos ou em períodos do ano com maior desafio climático – como estiagens prolongadas ou invernos rigorosos –, o planejamento nutricional torna-se ainda mais relevante. Nesses casos, a suplementação estratégica, com fontes proteicas, energéticas e minerais compatíveis com a fase e a qualidade da forragem disponível, é essencial para garantir o desempenho dos bezerros e a pronta recuperação das matrizes.

A condição corporal dos bezerros no momento do desmame é um indicativo da eficiência do sistema de cria. Animais com bom escore enfrentam melhor o estresse da separação e se adaptam mais facilmente à nova dieta. O mesmo vale para as vacas: aquelas com escore corporal adequado tendem a retomar mais rapidamente a atividade reprodutiva. Já vacas com baixa condição corporal apresentam menor taxa de prenhez, aumentando o intervalo entre partos e reduzindo a eficiência reprodutiva do rebanho.

Outro ponto importante da preparação para o desmame é a adaptação ao cocho e ao consumo de água. Bezerros não habituados a essas estruturas durante a amamentação podem apresentar queda de ingestão alimentar após a separação, impactando diretamente no desempenho. Por isso, é recomendável que, desde as primeiras semanas, os animais sejam familiarizados com o ambiente alimentar que encontrarão após o desmame, como altura dos cochos, tipos de alimentos e acesso facilitado à água limpa.

Além do preparo nutricional e da adaptação comportamental, o ambiente destinado ao desmame deve ser bem estruturado (Foto: Divulgação)

Como complemento às estratégias nutricionais e de manejo, estudos recentes também avaliaram o uso de uma “substância apaziguadora materna bovina” (mBas), com potencial para reduzir os efeitos fisiológicos do estresse. Bezerros tratados com essa substância apresentaram menores níveis de cortisol, menor incidência de doenças respiratórias e melhor desempenho no pós-desmame.

Além do preparo nutricional e da adaptação comportamental, o ambiente destinado ao desmame deve ser bem estruturado. É importante que ele ofereça sombra (natural ou artificial), água limpa em quantidade suficiente, cochos limpos e pastagens de fácil acesso, com valor nutricional adequado às exigências dos animais.

O desmame pode ser classificado conforme a idade do animal, sendo considerado hiperprecoce quando realizado entre 35 e 40 dias de vida; precoce, entre 60 e 75 dias; antecipado, entre 90 e 120 dias; e convencional, quando ocorre entre 180 e 240 dias. No Brasil, o desmame convencional é a prática mais utilizada, uma vez que, nesse estágio, os bezerros apresentam desenvolvimento ruminal suficiente para digerir as fibras da dieta, especialmente em sistemas de pastagens.

Por outro lado, as estratégias de desmame hiperprecoce e precoce são indicadas em condições específicas, como em sistemas de confinamento, na busca por maior eficiência reprodutiva das matrizes ou em situações de limitação na disponibilidade de forragem. Nesse contexto, a introdução de alimentação suplementar, com maior valor nutricional, pode suprir a quantidade reduzida de leite materno, favorecendo o desempenho dos mesmos.

Além da definição do momento adequado para o desmame, a adoção de manejos que minimizem o estresse é essencial para o sucesso da fase. Práticas como a introdução do creep-feeding, a realização do desmame lado a lado – técnica que permite o contato visual e olfativo entre vaca e bezerro, sem permitir a amamentação –, bem como o planejamento para evitar a ocorrência simultânea de diferentes fatores estressantes, são medidas eficazes na mitigação do estresse e na manutenção do desempenho produtivo dos bezerros.

*
1-        Med.Vet., PPG-Zootecnia, NESPro/UFRGS.
2-        Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Vet., NESPro/UFRGS.
3-        Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Zoot., NESPro/UFRGS.
4-        Med.Vet., Pos-Doc- INCT-Agricultura de Baixa Emissão de Carbono – NESPro/UFRGS.
5-        Med.Vet., Professor, Coordenador NESPro/UFRGS.

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