Mesa de Mercado · CEPEA
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Boi GordoR$ 338,65
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Alívio geopolítico reduz pressão nos mercados, mas cenário exige cautela para cadeias da proteína animal

Expectativas para decisões de juros no Brasil e nos Estados Unidos seguem no radar, enquanto custos de energia, fretes e insumos continuam influenciando a competitividade do setor agropecuário.

FOTO; REPRODUÇÃO
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A semana começou com um movimento de alívio nos mercados globais após avanços diplomáticos envolvendo Washington e Teerã. O ambiente mais favorável aos ativos de risco contribuiu para a queda das curvas de juros em diversos vencimentos no Brasil e para a valorização da Bolsa de Valores, ainda que em ritmo moderado ao longo do pregão.

Segundo Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, o mercado inicia uma das semanas mais aguardadas do calendário econômico, marcada pelas reuniões de política monetária do Banco Central do Brasil (BCB) e do Federal Reserve (Fed), nos Estados Unidos.

Apesar da melhora do humor global e do fechamento da curva de juros doméstica, a expectativa predominante continua sendo de um corte de 0,25 ponto percentual na taxa Selic. A projeção representa uma mudança em relação ao cenário observado semanas atrás, quando parte dos investidores passou a considerar a possibilidade de manutenção dos juros diante da revisão das expectativas inflacionárias.

“A redução recente dos prêmios associados ao petróleo ainda não é suficiente para alterar a percepção de risco inflacionário no curto prazo. Os efeitos de choques geopolíticos sobre preços e inflação costumam ocorrer de forma gradual e persistente”, avalia Centeno.

Inflação e energia permanecem no foco

Mesmo com o alívio recente nas commodities energéticas, os impactos acumulados sobre os custos da economia ainda permanecem presentes. A inflação de maio veio acima das expectativas, pressionada principalmente por grupos relacionados à energia e à alimentação, fatores que afetam diretamente toda a cadeia produtiva do agronegócio.

Para o setor de proteína animal, a evolução dos preços de combustíveis, fertilizantes, transporte e energia elétrica continua sendo um componente decisivo para a formação de custos. Embora tenha havido uma desaceleração em alguns segmentos de serviços, os efeitos dos reajustes anteriores ainda devem influenciar os índices de preços nos próximos meses.

Nos Estados Unidos, a expectativa do mercado é de manutenção da taxa básica de juros pelo Federal Reserve. O banco central norte-americano segue adotando uma postura cautelosa diante de uma inflação ainda resistente e de uma atividade econômica que permanece relativamente forte.

Foto: reprodução
A prolongada tensão entre Estados Unidos e Irã transformou-se em um dos principais vetores de precificação dos mercados internacionais.

Geopolítica assume papel central na economia global

Para Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, a economia global vive uma mudança estrutural em 2026, na qual os fatores geopolíticos passaram a ter peso semelhante ou até superior aos indicadores tradicionais de ciclo econômico.

Segundo o especialista, a prolongada tensão entre Estados Unidos e Irã transformou-se em um dos principais vetores de precificação dos mercados internacionais. O conflito, que já ultrapassa 100 dias sem solução definitiva, ampliou as incertezas sobre a oferta global de energia e sobre as principais rotas de comércio marítimo.

Desde o início das tensões, o petróleo Brent acumulou valorização superior a 42%, refletindo não apenas os riscos no Estreito de Hormuz, mas também danos registrados em instalações petroquímicas no Oriente Médio.

Esse movimento tem provocado um choque de oferta com impactos amplos sobre cadeias produtivas globais. Além dos combustíveis, o aumento dos custos se espalha por fretes marítimos, seguros de carga, energia industrial e insumos utilizados em diversos segmentos da economia.

Impactos para o agronegócio e a proteína animal

A cadeia de proteína animal está entre os setores mais sensíveis a esse cenário. O encarecimento da logística internacional afeta o transporte de grãos, fertilizantes e produtos acabados, enquanto a elevação dos custos energéticos pressiona frigoríficos, indústrias processadoras e operações de armazenagem.

Além disso, fertilizantes, polímeros, embalagens e diversos insumos industriais utilizados pela agroindústria possuem forte correlação com os preços do petróleo e do gás natural.

Na avaliação de Simioni, os efeitos desse choque já ultrapassam a discussão tradicional sobre inflação temporária e passam a influenciar expectativas de longo prazo, custos de financiamento e decisões de investimento.

Bancos centrais enfrentam dilema global

O cenário tem colocado autoridades monetárias em uma posição cada vez mais desafiadora. Bancos centrais como os da Coreia do Sul e do Japão já sinalizam a possibilidade de elevação de juros no segundo semestre de 2026 diante da aceleração dos índices inflacionários.

Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) também acompanha de perto os impactos do aumento dos custos energéticos, especialmente em uma região fortemente dependente de importações de petróleo e gás.

O Banco da Inglaterra (BoE), por sua vez, enfrenta um ambiente ainda mais complexo, combinando inflação persistente, baixo crescimento econômico e incertezas políticas internas.

Dois cenários para o Brasil

No caso brasileiro, a próxima decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) poderá sinalizar qual leitura o Banco Central faz sobre a duração do choque inflacionário global.

No primeiro cenário, caso a autoridade monetária considere que os efeitos serão temporários, com duração de aproximadamente dois trimestres, a tendência seria manter os juros estáveis ao longo do segundo semestre. Ainda assim, a inflação permaneceria acima da meta nos próximos anos, enquanto o crescimento econômico perderia força.

Já em um cenário de choque mais prolongado, superior a três trimestres, o Banco Central poderia ser obrigado a interromper o ciclo de flexibilização e até retomar altas de juros para evitar uma deterioração mais significativa das expectativas inflacionárias.

“Nesse novo ambiente de dominância geopolítica, os riscos associados a uma leitura excessivamente otimista da inflação se tornaram maiores. A definição da estratégia monetária exigirá um equilíbrio delicado entre controle de preços, crescimento econômico e estabilidade financeira”, destaca Simioni.

Para as cadeias da proteína animal, o desfecho dessas decisões terá influência direta sobre crédito, investimentos, consumo interno e competitividade das exportações, em um momento em que custos logísticos e energéticos seguem entre os principais desafios para o setor.

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