Com recorde de mais de 1.600 participantes e discussões sobre novas estratégias nutricionais para a pecuária leiteira, o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL) encerrou sua programação na quinta-feira (8), no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC). Promovido pelo Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), o encontro dedicou seu último painel científico à Nutrição de Alta Performance e reafirmou a realização do Formuleite – Edição Sul na programação de 2027.
Segundo o balanço da organização, mais de 1.600 pessoas circularam pelos auditórios e espaços de exposição durante os três dias, superando o público de 2025. A programação reuniu 15 palestras, quatro painéis técnicos, o 5º Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte, a 10ª Milk Fair e 92 trabalhos científicos aprovados. Os debates percorreram temas como sistemas de produção, sanidade, reprodução, qualidade do leite, gestão zootécnica e nutrição, aproximando pesquisadores, profissionais, empresas e produtores.
Probióticos exigem atenção à eficácia e à viabilidade
A programação de quinta-feira começou com o zootecnista Bruno Ieda Cappellozza, que abordou os mecanismos de ação dos probióticos e seus possíveis benefícios para a saúde e o desempenho dos bovinos leiteiros. O especialista explicou que determinados microrganismos podem favorecer o aproveitamento dos nutrientes, a saúde gastrointestinal e o equilíbrio da microbiota, tanto em bezerras quanto em vacas adultas. Entretanto, ressaltou que os resultados dependem das características de cada produto: “As bactérias e as cepas não são todas iguais e apresentam características e mecanismos de ação distintos”.
Durante a mesa-redonda, Bruno aprofundou a discussão sobre a viabilidade dos microrganismos utilizados nos suplementos. Segundo ele, não basta que o produto contenha a quantidade adequada de bactérias no momento da fabricação. É necessário garantir que permaneçam viáveis durante o armazenamento e até o fornecimento aos animais. O pesquisador destacou a importância de avaliações que comprovem essa estabilidade ao longo do prazo de validade. Também explicou que, em determinados programas voltados à saúde intestinal de bezerras, a suplementação pode começar após a colostragem, conforme as características do produto e a orientação técnica.

Fontes lipídicas ganham importância na produção de sólidos
Na sequência, o zootecnista Jonas de Souza discutiu os efeitos das fontes lipídicas sobre a produção, a composição do leite e a saúde dos animais. Segundo o especialista, o avanço genético dos rebanhos e a crescente valorização dos sólidos têm ampliado o interesse pela utilização estratégica de gorduras na alimentação. Entretanto, a escolha não deve considerar apenas o fornecimento de energia, mas também as características dos ácidos graxos e seus efeitos sobre o metabolismo.
Entre os compostos abordados estiveram os ácidos palmítico, esteárico, oleico, linoleico e linolênico, que apresentam funções distintas na nutrição animal. Jonas explicou que algumas fontes podem favorecer a produção de gordura do leite, enquanto outras estão relacionadas ao consumo alimentar, à digestibilidade e ao metabolismo das vacas. Durante a mesa-redonda, alertou que a suplementação precisa considerar a composição original da dieta e as transformações sofridas pelos ácidos graxos no rúmen. Também destacou que a queda no teor de gordura do leite pode envolver múltiplos fatores, como alterações na fermentação ruminal, composição dos alimentos e condições de manejo.
Para o pesquisador, as propriedades devem priorizar suplementos com resultados comprovados e avaliar o retorno econômico de acordo com seus objetivos produtivos. Jonas também relacionou a busca por maior concentração de gordura e proteína à competitividade da cadeia leiteira brasileira. “Focar em sólidos é o que vai nos tornar competitivos no mercado externo também”, avaliou, ao comentar as oportunidades associadas à demanda por derivados lácteos.

Pesquisas brasileiras indicam novos caminhos para a alimentação
A última palestra científica foi apresentada pelo professor Francisco Palma Rennó, da Universidade de São Paulo (USP), que discutiu a utilização de carboidratos não fibrosos, especialmente o amido, e a qualidade das fibras na alimentação de vacas leiteiras. O pesquisador apresentou resultados de estudos desenvolvidos no Brasil que indicam respostas nutricionais diferentes das observadas em condições norte-americanas, reforçando a necessidade de adaptar as estratégias alimentares às características das forragens nacionais.
Segundo Rennó, pesquisas apresentadas durante o simpósio apontaram respostas ao teor de amido de duas a duas vezes e meia superiores às referências norte-americanas consideradas pelo pesquisador. O professor relacionou essa diferença às características da fibra brasileira, destacando que parte dos estudos ainda não foi publicada. Os resultados foram apresentados como evidências de condições experimentais específicas, não como uma resposta garantida para todos os rebanhos.
Em entrevista exclusiva à Feed&Food, o professor explicou que melhorar a qualidade das fibras permite formular dietas com combinações mais adequadas de ingredientes e níveis de amido, trazendo possíveis benefícios à saúde ruminal, à reprodução e ao desempenho produtivo. “Na realidade, o que é bastante relevante é melhorar a qualidade da fibra”, destacou Rennó, ao defender que os ajustes nutricionais sejam acompanhados por avaliações técnicas das condições de cada propriedade.

Outra frente apresentada pelo pesquisador envolve o desenvolvimento de substâncias capazes de modificar a estrutura da lignina durante o crescimento das plantas. A lignina é um componente da parede celular vegetal que dificulta o aproveitamento da fibra pelos microrganismos ruminais. A proposta investigada busca aumentar a digestibilidade das forragens sem necessariamente reduzir a concentração de lignina ou comprometer o desenvolvimento das plantas. Os resultados foram apresentados como avanços experimentais, ainda dependentes de aprofundamento científico e avaliação econômica antes de sua aplicação comercial em larga escala.
Custos e dados nacionais orientam as decisões nutricionais
A relação entre alimentação e rentabilidade também recebeu destaque na entrevista exclusiva concedida à Feed&Food. Rennó estimou que os gastos alimentares representam aproximadamente 50% a 60% dos custos de produção em muitos sistemas leiteiros, percentual que pode variar conforme a propriedade. Diante desse peso econômico, defendeu a reavaliação periódica das dietas, especialmente quando há mudanças nos preços dos ingredientes. “Toda vez que muda o cenário de preços, muda o cenário técnico de como você vai incorporar os alimentos, os ingredientes das dietas”, explicou.
Durante a mesa-redonda, o professor também questionou a utilização de modelos nutricionais complexos alimentados exclusivamente com parâmetros obtidos em outros países. Segundo ele, ferramentas matemáticas mais sofisticadas não garantem resultados precisos quando faltam dados confiáveis sobre a composição e a digestibilidade dos alimentos brasileiros. Nesse contexto, destacou a importância de ampliar a caracterização das forragens nacionais, incluindo seus componentes fibrosos e não fibrosos, para melhorar a formulação das dietas.
Outro ponto discutido foi a utilização de uma segunda fonte de forragem. Rennó explicou que a inclusão de outro volumoso não representa, necessariamente, melhoria nutricional. A decisão deve considerar a qualidade da fibra, a necessidade das diferentes categorias animais, a disponibilidade de alimentos e os custos envolvidos. Para o professor, avaliar apenas o preço por tonelada é insuficiente: é preciso relacionar o custo da matéria seca à quantidade de nutrientes efetivamente aproveitados e ao valor da dieta por animal ao dia.
Integração da cadeia fortalece o alcance do simpósio
Além das apresentações científicas, a 10ª Milk Fair reuniu cerca de 45 patrocinadores e 27 expositores dos segmentos de saúde, nutrição e tecnologia. O espaço promoveu contatos comerciais, apresentações de soluções e intercâmbio de experiências entre empresas, produtores e profissionais. A feira complementou a programação técnica ao aproximar pesquisas e tecnologias das necessidades observadas nas propriedades rurais.
Em entrevista exclusiva à Feed&Food, a presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin, destacou que a transferência de conhecimento é parte central da trajetória da entidade, que completa 55 anos nesta sexta-feira (9). Segundo ela, o simpósio começou atendendo principalmente profissionais da região Oeste catarinense e ampliou gradualmente seu alcance, passando a receber pesquisadores, congressistas e empresas de diferentes países. A presidente também ressaltou a importância dos trabalhos científicos para aproximar a produção acadêmica das demandas do campo.
Aletéia afirmou que o crescimento do Fórum Brasil Sul de Bovinocultura de Corte demonstra a aproximação entre os diferentes segmentos da pecuária. Segundo sua estimativa, a programação de terça-feira (6), dedicada ao corte, reuniu quase mil pessoas no auditório. A presidente destacou especialmente as possibilidades de aproveitamento de animais de origem leiteira para a produção de carne, assunto discutido durante o encontro. “É impossível a gente separar um segmento do outro, porque todo mundo é um elo dessa cadeia produtiva”, afirmou.
Encerramento reforça legado e perspectivas para 2027
O encerramento marcou os 15 anos do SBSBL e as comemorações pelos 55 anos do Nucleovet. Para a presidente, a dimensão alcançada pelo evento demonstra a importância da educação continuada e da aproximação entre universidades, empresas, profissionais e produtores. “Nós queremos crescer em tamanho, em números e em importância dentro do setor leiteiro”, declarou Aletéia, durante entrevista à Feed&Food.
Entre as perspectivas para o próximo ano está a realização do Formuleite – Edição Sul, parceria anunciada na abertura do simpósio e reafirmada no encerramento. A iniciativa será integrada ao 16º SBSBL, previsto para os dias 5 a 7 de outubro de 2027, em Chapecó, com participação dos professores Marcos Neves Pereira e Trevor DeVries. A proposta inclui um dia de programação científica dedicado à nutrição de bovinos leiteiros, ampliando as oportunidades de atualização técnica dos participantes.
Em seu pronunciamento final, Aletéia agradeceu aos palestrantes, congressistas, pesquisadores, parceiros, patrocinadores, voluntários e profissionais envolvidos na organização. Ao lembrar a trajetória construída ao longo das 15 edições e projetar os próximos encontros, a presidente reforçou que a continuidade do trabalho científico e institucional permanece entre as prioridades do Nucleovet: “Porque para nós, encerramento nunca significa ponto final”.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.