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Sustentabilidade leiteira exige olhar além do metano, aponta pesquisador

Em entrevista exclusiva à Feed&Food, Gabriel Menegazzi destaca a eficiência no uso dos nutrientes e o manejo das pastagens para conciliar produtividade, rentabilidade e menor impacto ambiental.

A quantidade de metano emitida por uma vaca não é suficiente para determinar se uma propriedade leiteira é ambientalmente sustentável. A avaliação também precisa considerar o aproveitamento das pastagens, a produtividade por hectare e a eficiência na utilização de nutrientes como nitrogênio e fósforo. Em entrevista exclusiva à Feed&Food, o zootecnista Gabriel Menegazzi, professor e pesquisador da Universidad de la República, no Uruguai, explicou que analisar esses indicadores de maneira integrada é fundamental para conciliar desempenho produtivo, rentabilidade e menor impacto ambiental.

A discussão ocorreu durante o 15º Simpósio Brasil Sul de Bovinocultura de Leite (SBSBL), realizado entre os dias 6 e 8 de outubro, em Chapecó (SC). Segundo Menegazzi, a sustentabilidade dos sistemas produtivos não pode ser medida por um único parâmetro. “A emissão de metano é somente um dos fatores relevantes”, afirmou o pesquisador, ao defender uma abordagem que considere também o aproveitamento dos recursos, as emissões provenientes dos solos e os impactos associados à alimentação dos animais.

Sustentabilidade exige análise de todo o sistema

Além do metano entérico, produzido durante a fermentação ruminal, Menegazzi destacou a importância de acompanhar a eficiência na utilização do nitrogênio e do fósforo. Esses nutrientes entram nas propriedades por diferentes caminhos, incluindo fertilizantes e alimentos adquiridos de outras fazendas. Parte é aproveitada pelos animais, enquanto outra parcela retorna ao ambiente por meio dos dejetos. Em sistemas de pastejo, essa dinâmica merece atenção especial porque a suplementação pode representar a entrada de nutrientes produzidos em outras regiões ou até mesmo em outros países.

O pesquisador explicou que o uso de concentrados precisa ser considerado dentro desse balanço. Quando uma vaca consome alimentos produzidos fora da propriedade, parte dos nutrientes importados permanece no sistema produtivo após a digestão. Dependendo do manejo, o acúmulo pode ampliar os riscos de perdas de nitrogênio e fósforo para o ambiente. Por isso, a avaliação deve incluir também as emissões de óxido nitroso provenientes dos solos e das pastagens, além das possíveis alterações nos estoques de carbono orgânico do solo. Esses indicadores permitem identificar impactos que não seriam percebidos em uma análise limitada ao metano emitido pelos animais.

Eficiência começa no aproveitamento das pastagens

Na avaliação de Menegazzi, um dos principais indicadores para determinar a competitividade de sistemas leiteiros a pasto é a quantidade de forragem efetivamente consumida pelos animais ao longo do ano. “A colheita de forragem via pastejo por ano é um bom indicador”, explicou. Segundo ele, produtores e técnicos frequentemente concentram a atenção no aproveitamento imediato do pasto, quando também deveriam acompanhar quantos quilos de forragem são consumidos por hectare anualmente.

Essa análise deve relacionar a produção total de forragem à quantidade efetivamente aproveitada pelo rebanho. Uma propriedade pode produzir grande volume de pasto e, ainda assim, apresentar baixa eficiência caso uma parcela significativa desse alimento não seja consumida. A comparação entre produção e consumo anual por hectare permite identificar desperdícios e avaliar o desempenho do sistema. Para completar o diagnóstico, o pesquisador recomenda considerar indicadores econômicos, como custo por litro de leite, produção por vaca e produtividade por hectare.

A suplementação também interfere diretamente nessa relação. Menegazzi explicou que o primeiro passo é identificar o potencial de produção de forragem da propriedade e estimar quanto os animais conseguem consumir diretamente no pasto. Somente depois deve ser definida a quantidade de concentrados ou volumosos conservados necessária para atender às exigências nutricionais do rebanho. “Então, a lógica precisa ser sempre considerar primeiro o consumo de pasto e, por segundo, o consumo de suplementação”, afirmou.

O zootecnista Gabriel Menegazzi, professor e pesquisador da Universidad de la República, no Uruguai, destaca a importância do manejo eficiente das pastagens e do uso adequado dos nutrientes para conciliar produtividade, rentabilidade e sustentabilidade na pecuária leiteira. Crédito: Feed&Food

Segundo o pesquisador, o fornecimento excessivo de suplementos pode provocar um efeito de substituição, no qual a vaca reduz o consumo de pastagem por já ter ingerido silagem ou concentrado. Em sistemas nos quais o pasto representa a alternativa alimentar de menor custo, essa substituição pode comprometer a eficiência econômica. O objetivo, portanto, não é eliminar a suplementação, mas utilizá-la de maneira estratégica, considerando a disponibilidade de forragem, a exigência nutricional dos animais e o retorno financeiro do investimento.

Manejo pode reduzir emissões por quilo de leite

A qualidade nutricional das pastagens também influencia o desempenho ambiental da atividade. Menegazzi explicou que forragens de melhor digestibilidade podem favorecer o consumo, o aproveitamento dos nutrientes e a produção de leite. Essas mudanças podem contribuir para reduzir a intensidade das emissões de metano, indicador que relaciona a quantidade de gás emitida ao volume produzido.

Essa distinção é importante porque as emissões podem ser avaliadas de diferentes maneiras. A quantidade liberada por animal mostra a emissão individual, enquanto a intensidade por quilo de leite relaciona o metano ao desempenho produtivo. Já o indicador por hectare considera as emissões associadas à utilização de determinada área. Assim, uma propriedade pode reduzir as emissões por unidade de leite e, ao mesmo tempo, apresentar aumento das emissões por hectare, especialmente quando a intensificação permite trabalhar com maior lotação animal.

Um estudo publicado em 2018 na revista científica Science of the Total Environment, conduzido por Guilhermo Francklin de Souza Congio e colaboradores, ajuda a compreender essa relação. Os pesquisadores compararam duas estratégias de manejo de capim-elefante em sistemas leiteiros tropicais, utilizando metas diferentes de interceptação luminosa antes do pastejo. No experimento, as alturas médias de entrada dos animais foram de aproximadamente 100 e 135 centímetros, conforme o tratamento avaliado.

A estratégia associada à entrada dos animais no pasto com aproximadamente 100 centímetros de altura, correspondente a 95% de interceptação luminosa, proporcionou melhores condições de aproveitamento da forragem. Em comparação ao tratamento com entrada a aproximadamente 135 centímetros, o estudo registrou redução de 21% nas emissões de metano por quilo de leite produzido e aumento de 51% na produção de leite por hectare. Entretanto, as emissões de metano por hectare cresceram 29%, enquanto a emissão diária por vaca não apresentou diferença significativa. Os resultados demonstram que o ganho de eficiência produtiva pode reduzir a intensidade das emissões sem necessariamente diminuir o volume total de metano liberado pelos animais ou pela área.

Os percentuais representam os resultados específicos daquele experimento e não devem ser interpretados como ganhos garantidos para outras propriedades. Além disso, o estudo avaliou o metano entérico, não a pegada ambiental completa da produção, que envolve outras fontes de emissão e impactos associados ao sistema. Da mesma forma, o aumento da produtividade por hectare não comprova, isoladamente, maior rentabilidade, uma vez que o resultado financeiro também depende dos custos de produção e do preço recebido pelo leite.

Rentabilidade e sustentabilidade podem avançar juntas

Para Menegazzi, melhorar o desempenho ambiental da pecuária leiteira não significa necessariamente abrir mão da produtividade. O desafio é identificar estratégias capazes de aumentar o aproveitamento da forragem, reduzir desperdícios e atender às necessidades nutricionais dos animais sem elevar os custos de maneira desproporcional. O acompanhamento conjunto da produção de leite, da eficiência alimentar, do balanço de nutrientes e da intensidade das emissões permite avaliar se as mudanças adotadas estão produzindo resultados consistentes.

A melhoria da qualidade das pastagens é um exemplo dessa possibilidade, mas exige acompanhamento das condições de cada propriedade. O pesquisador defendeu que os resultados econômicos e ambientais sejam considerados de forma integrada, evitando decisões baseadas exclusivamente na produção individual das vacas ou em um único indicador de emissões. “Então, sim, é possível fazer as duas coisas e elas definitivamente devem ir alinhadas”, afirmou Menegazzi, ao relacionar o aumento da produção à melhoria dos aspectos ambientais.

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