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Sustentabilidade passa a pesar no acesso a mercados da proteína animal brasileira

Rastreabilidade, recuperação de pastagens e origem dos grãos ganham importância para crédito, exportação e gestão de risco na cadeia produtiva

A sustentabilidade deixou de ser uma pauta paralela na cadeia de proteína animal e passou a influenciar acesso a mercados, crédito e gestão de risco no agronegócio brasileiro. Em um cenário de maior cobrança por origem, transparência e conformidade socioambiental, produtores, cooperativas e agroindústrias precisam comprovar como produzem, de onde vêm seus insumos e quais práticas adotam para reduzir riscos ambientais.

A avaliação é de Rodrigo Spuri, diretor de Conservação da The Nature Conservancy (TNC) Brasil. Segundo ele, a mudança ocorre porque diferentes elos da cadeia, de compradores a instituições financeiras, passaram a exigir mais clareza sobre a origem dos produtos e sobre os impactos associados à produção. “A sustentabilidade deixou de ser uma agenda paralela ou apenas reputacional e passou a influenciar diretamente acesso a mercado, acesso a crédito, gestão de risco e resiliência produtiva”, afirma. “Na cadeia de proteína animal, isso aparece com muita força porque compradores, instituições financeiras, reguladores e consumidores querem cada vez mais saber de onde vem o produto, se há risco de desmatamento ou conversão, se a propriedade está regularizada e se a cadeia consegue comprovar seus compromissos”, complementa.

Produção pode avançar sem abertura de novas áreas

Um dos caminhos apontados para conciliar aumento da produção e conservação ambiental é a intensificação sustentável da pecuária. A estratégia passa pela recuperação de pastagens degradadas, melhoria do manejo, assistência técnica, planejamento da propriedade, uso mais eficiente do solo e acesso a crédito adequado. “A intensificação sustentável permite produzir mais e melhor em áreas que já estão abertas, especialmente por meio da recuperação de pastagens degradadas, melhoria do manejo, assistência técnica, planejamento da propriedade, maior eficiência no uso do solo e acesso a crédito adequado”, explica Spuri.

De acordo com o especialista, o Brasil tem uma oportunidade relevante nesse campo. “Segundo o Ministério da Agricultura, o Brasil possui mais de 40 milhões de hectares de pastagens degradadas. Em vez de aumentar produção pela abertura de novas áreas, a lógica é elevar produtividade, renda e regularidade ambiental dentro da área já convertida”, destaca. Ele pondera, porém, que a intensificação só pode ser considerada sustentável quando ocorre com critérios claros, em áreas aptas e já abertas, respeitando a legislação ambiental e conectada a monitoramento e rastreabilidade.

“Intensificação só é sustentável quando vem acompanhada de critérios claros. Ela precisa ocorrer em áreas aptas e já abertas, respeitar a legislação ambiental, melhorar práticas de manejo e estar conectada a monitoramento e rastreabilidade”, afirma. “Desta forma, produtividade, sustentabilidade de longo prazo e acesso a mercados andam juntos.”

Cadeia de proteína animal passa a incorporar critérios de sustentabilidade, rastreabilidade e origem dos insumos como fatores de competitividade. Crédito: Reprodução

Origem dos grãos também entra na conta

A sustentabilidade da proteína animal não depende apenas da fazenda pecuária. A origem dos grãos utilizados na alimentação animal também passa a ganhar importância, especialmente em cadeias como aves e suínos, nas quais milho, soja e outros insumos têm peso direto na produção. “A cadeia de grãos é parte importante da sustentabilidade da proteína animal porque ração, milho, soja e outros insumos conectam a produção animal à dinâmica de uso da terra”, afirma Spuri.

“Isso é muito evidente em aves e suínos, mas também se torna relevante em sistemas bovinos mais intensivos, suplementação, confinamento e integração lavoura-pecuária. Portanto, não basta olhar apenas para a fazenda pecuária: é preciso olhar também para os insumos, a origem dos grãos e a forma como a expansão agrícola acontece”, ressalta. Segundo ele, a estratégia mais robusta é direcionar a expansão de grãos para áreas já abertas, degradadas ou subutilizadas, evitando a conversão de vegetação nativa, especialmente em regiões sensíveis como o Cerrado.

“As cadeias são interdependentes. A construção de uma proteína animal mais sustentável depende de critérios comuns de financiamento, rastreabilidade, regularização, assistência técnica e monitoramento territorial”, afirma Spuri. Para o especialista, a questão central está em produzir os alimentos necessários usando melhor as áreas já abertas e preservando ativos naturais que sustentam a própria produção, como água, solo, clima e biodiversidade.

Rastreabilidade deixa de ser apenas discurso

Nos próximos anos, produtores e agroindústrias devem enfrentar exigências crescentes para demonstrar origem, conformidade ambiental, ausência de desmatamento e gestão de risco em toda a cadeia. Nesse contexto, a rastreabilidade passa a ser uma das principais ferramentas para conectar sustentabilidade, mercado e produção. “A tendência mais clara é a passagem de uma sustentabilidade declaratória para uma sustentabilidade comprovável”, avalia Spuri.

“Produtores e agroindústrias precisarão demonstrar origem, conformidade ambiental, ausência de desmatamento e gestão de risco em toda a cadeia. E para isso, a rastreabilidade e transparência da produção desde a origem até a embalagem final é fundamental”, afirma. A tendência, segundo o diretor, deve ser impulsionada por políticas públicas, exigências de compradores, regras de crédito e regulamentações internacionais, como a agenda europeia de produtos livres de desmatamento.

Transição precisa incluir o produtor

Além da rastreabilidade, temas como recuperação de pastagens degradadas, redução de emissões, adaptação climática, sistemas agropecuários regenerativos e gestão de riscos de natureza devem ganhar importância na cadeia de proteína animal. Para Spuri, água, solo, metano, conversão de vegetação nativa e rastreabilidade de fornecedores indiretos tendem a ocupar espaço cada vez mais central na competitividade do setor.

O avanço dessa agenda, no entanto, precisa ser acompanhado de condições reais para adesão dos produtores. “Não basta exigir uma cadeia livre de desmatamento se os produtores, especialmente pequenos e médios, não tiverem meios para se adequar. Por isso, conectar políticas públicas, crédito, mercado e apoio em campo é fundamental”, afirma. Segundo ele, cooperativas e agroindústrias também têm papel importante ao organizar assistência técnica, padronizar critérios, facilitar acesso a crédito, apoiar rastreabilidade e criar incentivos comerciais para quem está avançando.

Para Spuri, a competitividade futura da proteína animal brasileira dependerá da capacidade de integrar produção, conservação e responsabilidade social em práticas verificáveis. “A competitividade futura da proteína animal brasileira dependerá da capacidade de integrar esses elementos em uma narrativa comprovável e, principalmente, em práticas verificáveis. O mercado e a sociedade irão valorizar menos promessas genéricas e mais sistemas capazes de demonstrar integridade ambiental, social e produtiva”, conclui.

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