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Safra recorde, real valorizado e ampla oferta global pressionam preços da soja ao produtor

O cenário de ampla oferta mundial tem limitado movimentos de alta nas cotações da soja na Bolsa de Chicago.

preços da soja ao produtor

A combinação entre uma safra recorde no Brasil, a valorização do real frente ao dólar e um cenário de ampla oferta global tem exercido forte pressão sobre os preços da soja pagos ao produtor no início de 2026. A análise consta na edição de fevereiro do Radar Agro, relatório elaborado pela Consultoria Agro do Itaú BBA, que já vinha alertando para esse movimento desde o segundo semestre do ano passado.

Em setembro de 2025, o relatório apontou a possibilidade de a soja ser negociada abaixo de R$ 100 por saca em Mato Grosso, cenário que acabou se confirmando com o avanço da colheita. Na avaliação dos analistas, a queda do dólar foi um dos fatores determinantes para a redução das cotações no mercado interno.

Safra brasileira caminha para novo recorde

Desde então, as perspectivas para a oferta global e brasileira pouco se alteraram. No Brasil, apesar de um início de plantio mais irregular, porém antecipado, as chuvas registradas em dezembro e janeiro sustentaram a projeção de uma safra recorde próxima de 180 milhões de toneladas.

O avanço da colheita tem confirmado elevados rendimentos nos principais estados produtores, como Mato Grosso e Paraná. A previsão de continuidade das chuvas também favorece o desenvolvimento das lavouras mais tardias. No Rio Grande do Sul, embora a irregularidade das precipitações tenha gerado preocupação nos últimos dias, a expectativa é de retorno das chuvas a partir da segunda semana de fevereiro.

Na Argentina, o cenário é mais desafiador, com restrição hídrica e temperaturas elevadas, fatores que vêm deteriorando a qualidade das lavouras. Ainda assim, a previsão de retomada das chuvas mantém a expectativa de uma boa colheita no país vizinho.

preços da soja ao produtor
A queda do dólar foi um dos fatores determinantes para a redução das cotações no mercado interno. Foto: Reprodução.

Oferta global limita reação dos preços

O cenário de ampla oferta mundial, impulsionado pelo recorde de produção na América do Sul e por estoques globais considerados confortáveis, tem limitado movimentos de alta nas cotações da soja na Bolsa de Chicago (CBOT). A única reação mais relevante ocorreu entre outubro e novembro, durante negociações comerciais entre Estados Unidos e China, quando o país asiático se comprometeu a adquirir 12 milhões de toneladas de soja norte-americana volume que já foi totalmente comprado.

Nos últimos dois meses, a soja acumulou queda de cerca de 6% na CBOT. Os estoques norte-americanos seguem elevados, enquanto as vendas semanais permanecem bem abaixo do ritmo registrado no ano anterior, reforçando a expectativa de exportações dos Estados Unidos inferiores às da safra passada.

China volta ao radar e gera volatilidade

Na última semana, o mercado reagiu a declarações do presidente dos Estados Unidos sobre uma conversa telefônica com o presidente chinês, Xi Jinping. Segundo ele, a China estaria considerando compras adicionais de produtos agrícolas, incluindo até 20 milhões de toneladas de soja ainda na atual temporada, além de um compromisso de aquisição de 25 milhões de toneladas na próxima safra.

Ainda não está claro se o volume mencionado para a temporada atual inclui os 12 milhões de toneladas já comprados anteriormente. Mesmo assim, a notícia teve impacto positivo sobre os contratos futuros da soja em Chicago.

Caso esse volume adicional se concretize, ele se aproximaria da média anual de importações chinesas nos últimos anos, estimada em 24,8 milhões de toneladas. No entanto, isso poderia gerar um desafio para o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que, no relatório mais recente, projetou estoques norte-americanos de apenas 9,5 milhões de toneladas para a safra 2025/26.

Analistas ponderam que, do ponto de vista logístico e comercial, não faria sentido a China deslocar volumes relevantes de compras do Brasil para os Estados Unidos neste momento, em pleno período de colheita brasileira. Ainda assim, os prêmios pagos nos portos brasileiros começaram a recuar de forma expressiva, em uma tentativa de atrair maior demanda.

Biodiesel pode dar suporte ao mercado

Outro fator que pode oferecer sustentação aos preços da soja é a expectativa de aumento da demanda da indústria de biodiesel, especialmente no mercado norte-americano. No início de fevereiro, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos atualizou as diretrizes dos créditos fiscais conhecidos como 45Z, restringindo a elegibilidade aos biocombustíveis produzidos com matérias-primas originárias dos Estados Unidos, Canadá e México.

A medida tende a reduzir a importação de óleo de cozinha usado e sebo, ao mesmo tempo em que estimula o uso do óleo de soja produzido internamente, fortalecendo o mercado do derivado e trazendo reflexos positivos para a cadeia da soja.

Apesar desse suporte pontual, o relatório destaca que, no curto prazo, o cenário de oferta abundante e câmbio valorizado segue impondo desafios à rentabilidade do produtor brasileiro.

Fonte: Itaú BBA, adaptado pela equipe da Feed & Food.

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