Por Camila Santos, de Balneário Camburiú (SC)
“A força do agro no mercado financeiro” foi o tema da palestra de Raony Rossetti, CEO e fundador da MELVER, que destacou como o agronegócio brasileiro pode ampliar seu acesso a recursos por meio da integração com o mercado de capitais. Com experiência no setor financeiro, incluindo atuação na XP, Raony apresentou caminhos técnicos e acessíveis para produtores, empresas e investidores, apontando a necessidade de o agro romper a dependência do crédito rural tradicional. “O mercado financeiro ainda não conheceu o agro completamente, e isso precisa mudar”, afirma.
Entre os pontos centrais da apresentação, ele explica como o mercado de capitais — especialmente a bolsa de valores — permite que empresas do agro levantem recursos e ganhem visibilidade. Exemplos como Minerva, JBS e SLC Agrícola foram usados para ilustrar como investidores podem se tornar “sócios” de grandes empresas com valores acessíveis. “Com menos de R$ 100, qualquer pessoa pode ser dona de um pedaço de uma gigante como a JBS”, destaca o executivo, ao mostrar o potencial de democratização desses investimentos.
Ele também trouxe atenção aos FIAGROs, instrumentos criados em 2021 que permitem que investidores apliquem recursos diretamente no agronegócio, por meio de fundos estruturados que podem incluir desde terras agrícolas até recebíveis financeiros. Segundo CEO, essa é uma alternativa importante para alinhar a sazonalidade típica do agro com o desejo do investidor brasileiro por renda mensal. “Com menos de R$ 100 é possível acessar um portfólio de terras agrícolas em diversas regiões do país”, explica e ressalta que a educação financeira é um elo entre o setor produtivo e o capital de investimento. “Nossa missão é aproximar esses dois mundos — o da produção e o do financiamento — com conhecimento, ferramentas e inovação.”

Como fazer – De acordo com o CEO da MELVER, os recebíveis originados nas cadeias do agronegócio podem ser agrupados em um instrumento financeiro que viabiliza a participação de pessoas físicas como investidores. Em vez de aplicar recursos diretamente em uma única operação, o investidor passa a fazer parte de uma carteira diversificada que pode incluir mais de cem empresas. Essa pulverização permite que eventuais riscos de inadimplência sejam diluídos, garantindo maior segurança para o investidor, que, em contrapartida, obtém uma rentabilidade atrativa. Já para o produtor, o modelo assegura liquidez imediata, essencial para manter o funcionamento da atividade.
Outro modelo que tem ganhado espaço é a possibilidade de pequenos e médios empreendedores rurais acessarem capital por meio da venda de participações em seus negócios — mesmo não tendo estrutura suficiente para abrir capital em Bolsa. “Por meio de instrumentos coletivos, o investidor passa a aplicar em um portfólio formado por diversas empresas da cadeia agroindustrial, reduzindo riscos e ampliando a capilaridade do investimento. Desde 2021, essa modalidade tem contribuído para a aproximação do agronegócio com o universo de investidores pessoas físicas, fortalecendo a conexão entre campo e mercado financeiro”, informa.
Entre os títulos mais conhecidos nesse cenário estão os CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), que viabilizam a antecipação de valores a receber por parte das empresas. Por meio deles, recebíveis com vencimentos em até três anos são convertidos em recursos imediatos, atendendo à necessidade de caixa dos produtores e ofertando boa rentabilidade aos investidores. “Como incentivo, os CRAs são isentos de imposto de renda para pessoas físicas, o que tem estimulado fortemente sua adesão. Para se ter uma ideia do tamanho do mercado, a BRF captou R$ 1 bilhão em CRAs recentemente, enquanto a Minerva levantou R$ 2 bilhões em poucos dias”, acrescenta.

Outra estrutura menos comum, mas ainda relevante, são as debêntures incentivadas de infraestrutura, que também podem ser acessadas por empresas do agro, desde que a finalidade esteja atrelada a melhorias logísticas ou estruturais. Contudo, devido aos custos de emissão mais baixos e à simplicidade dos CRAs, essa alternativa é menos utilizada. “Hoje, operações com CRAs têm sido realizadas com volumes a partir de R$ 10 milhões, refletindo a evolução e democratização do mercado. Empresas de médio porte já conseguem acessar esse tipo de estrutura pública, ampliando suas opções de financiamento e fortalecendo o ecossistema financeiro do agronegócio brasileiro”, finaliza.
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