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Protocolo mapeia risco sanitário entre viveiros de peixes

Estudo da Embrapa e de instituto italiano usa sistema geográfico para identificar como a conexão hídrica pode influenciar a transmissão de doenças na aquicultura

Pesquisa da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO), em parceria com o Instituto Zooprofilattico Sperimentale delle Venezie (IZSVe), da Itália, apontou que doenças em peixes podem se espalhar entre viveiros conectados por uma mesma bacia hidrográfica. O estudo, publicado na revista Frontiers in Marine Science, aplicou de forma inédita no Brasil um protocolo italiano voltado ao monitoramento de enfermidades em animais aquáticos.

A metodologia utiliza Sistema de Informações Geográficas (SIG) para organizar dados do território, mapear propriedades aquícolas e classificar viveiros conforme o risco de contaminação. Com isso, a ferramenta permite indicar quais áreas apresentam risco alto, médio ou baixo de transmissão de patógenos, considerando o fluxo da água e a posição das propriedades dentro da bacia.

Sanidade aquícola

No Brasil, o protocolo foi adaptado e testado com foco no acantocéfalo, um dos parasitas mais frequentes em tambaquis (Colossoma macropomum). A escolha ocorreu porque já havia dados disponíveis sobre a enfermidade na espécie e porque, em 2015, Rondônia registrou um surto que demandava mais informações sobre a propagação do parasita.

“Escolhemos trabalhar com o acantocéfalo porque tínhamos muitos dados sobre essa doença no tambaqui e também por ser a principal enfermidade que acomete a espécie. Além disso, em 2015, houve um surto em Rondônia e precisávamos obter mais informações sobre sua propagação”, explica Patricia Oliveira Maciel, pesquisadora da Embrapa Pesca e Aquicultura.

O parasita tem ciclo de vida de aproximadamente dois meses. Seus ovos são eliminados nas fezes de peixes infectados e, na água, podem ser ingeridos por ostracodes, pequenos crustáceos que atuam como hospedeiros intermediários. Os peixes sadios se contaminam ao se alimentar desses organismos. Segundo a geógrafa Marta Ummus, da Embrapa Amazônia Oriental (PA), peixes parasitados podem deixar de ganhar até 20% do peso esperado em comparação com animais saudáveis, o que representa perda produtiva em escala comercial.

Protocolo baseado em Sistema de Informações Geográficas permite mapear viveiros de peixes conforme o grau de risco sanitário associado à conectividade hídrica entre propriedades. Crédito: Imagem gerada por IA

Água como vetor

O protocolo considera a conectividade hídrica entre propriedades. Viveiros localizados a jusante de uma fonte de infecção, ou seja, no sentido natural do fluxo da água, são classificados como de maior risco quando estão diretamente conectados ao foco sanitário. Já áreas com ligação indireta ou sazonal entram em risco médio, enquanto propriedades sem conexão hídrica com focos conhecidos são consideradas de baixo risco.

Na Bacia do Rio Machado, em Rondônia, os pesquisadores identificaram uma condição que aumenta a preocupação sanitária. Segundo Patricia Maciel, em áreas da Amazônia é comum que tanques sejam escavados diretamente no leito de igarapés, o que cria conectividade permanente entre propriedades e amplia o risco de propagação de patógenos.

Alerta precoce

A validação da metodologia abre caminho para a criação de sistemas de alerta precoce na aquicultura brasileira. Depois da confirmação de uma doença em determinada propriedade, o SIG pode indicar quais viveiros estão mais expostos, permitindo que os serviços de defesa sanitária direcionem monitoramento, equipes, laboratórios e ações de contenção para áreas prioritárias.

Apesar do avanço, os pesquisadores apontam desafios para a aplicação prática da ferramenta. Entre eles estão a dificuldade de acesso a dados primários de sanidade animal, a informalidade de parte da aquicultura amazônica e a falta de integração entre elos da cadeia produtiva, como produção de alevinos, engorda, abate e processamento.

Para Marta Ummus, o uso da inteligência geográfica pode contribuir para fortalecer a vigilância sanitária na aquicultura, desde que haja dados disponíveis, políticas públicas e articulação institucional. A metodologia, embora testada com o acantocéfalo, pode ser adaptada a outros patógenos transmitidos pela água, desde que sejam ajustados parâmetros como tempo de sobrevivência no ambiente, período de incubação e dose infectante.

Fonte: Embrapa Pesca e Aquicultura, adaptado pela equipe Feed&Food

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