Caroline Mendes, de Cuiabá (MT)
A crescente demanda mundial por alimentos de origem animal e os desafios para atendê-la de forma sustentável foram o foco da Sessão 2 – Desafios para a cadeia de produção de proteína animal no mundo, realizada durante o World Meat Congress 2025, em Cuiabá (MT). Moderado por Erin Borror, vice-presidente de análise econômica da US Meat Export Federation (USMEF), o painel reuniu especialistas e líderes globais que discutiram as transformações necessárias para garantir a segurança alimentar, a competitividade e a sustentabilidade do setor.
Abrindo o painel, Rupert Claxton, diretor de comércio alimentar da consultoria Gira, apresentou um panorama otimista para o crescimento da produção de proteína animal, estimando uma expansão global em torno de 1,2% ao ano nos próximos cinco anos. Claxton ressaltou, porém, que o ritmo de crescimento impõe novos desafios para os produtores. “A questão não é apenas produzir mais, mas produzir melhor — com eficiência, rastreabilidade e equilíbrio entre preço e valor agregado”, destacou.
O especialista também chamou atenção para o papel da China, que segue influenciando os mercados globais. “O consumo chinês de carne tem oscilado, mas ainda dita tendências e pressiona cadeias produtivas de outros países”, afirmou.
Em seguida, Thanawat Tiesin, representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), trouxe uma perspectiva ampla sobre o papel da pecuária no combate à fome e na geração de renda, sobretudo em regiões emergentes. Segundo ele, a transformação sustentável do setor deve considerar diferentes realidades socioeconômicas. “Não existe um único caminho para a sustentabilidade. Cada país deve construir sua jornada de acordo com suas prioridades, seus recursos e suas pessoas”, afirmou.

Tiesin destacou ainda a necessidade de equilibrar políticas públicas e iniciativas privadas, de forma a garantir que produtores, especialmente os pequenos, sejam incluídos nas transformações do setor. “Precisamos de produtores felizes, animais saudáveis e consumidores confiantes. Isso só será possível se o desenvolvimento sustentável for economicamente viável para quem está no campo”, reforçou.
O representante da FAO também defendeu uma visão global integrada de sustentabilidade, unindo saúde animal, humana e ambiental. Ele lembrou que, para muitos países africanos e asiáticos, a principal preocupação ainda é a segurança alimentar. “Quando o estômago está vazio, é difícil falar de emissões. Sustentabilidade também é garantir acesso à comida e renda para milhões de famílias”, disse, apontando o desafio de conciliar crescimento e responsabilidade ambiental.
Durante o debate, Miguel Gularte, CEO da Marfrig, enfatizou a importância da rastreabilidade e dos incentivos econômicos aos fornecedores. Segundo ele, a empresa já adota protocolos que garantem a rastreabilidade total do couro, desde o nascimento do animal, premiando financeiramente os produtores com melhores práticas ambientais. “A sustentabilidade precisa ser mensurável e recompensada. Só assim ela se torna parte da lógica de negócios”, afirmou.
Já Mariane Crespolini, diretora de sustentabilidade da Minerva Foods, reforçou a importância de construir uma narrativa positiva sobre a produção de carne, baseada em dados e resultados concretos. “Temos de mostrar ao mundo que o setor de proteína animal não é o vilão, mas sim parte da solução. Estamos investindo em inovação, tecnologia e inclusão produtiva”, declarou.
Os debatedores também abordaram a necessidade de ampliar os investimentos globais na cadeia de proteína animal. De acordo com Tiesin, a FAO trabalha para aumentar o volume de financiamento destinado ao setor, com meta de elevar o portfólio de investimentos de US$ 1 bilhão para US$ 7 bilhões nos próximos anos, priorizando projetos que combinem eficiência produtiva e redução de impactos ambientais.
Encerrando o painel, Erin Borror reforçou que os desafios do setor não podem ser tratados isoladamente. “Sustentabilidade, segurança alimentar e comércio global são temas conectados. Precisamos de diálogo, cooperação e inovação constante para garantir que o mundo continue bem alimentado — com responsabilidade e prosperidade compartilhada”, concluiu.
A sessão, marcada por convergência entre produtores, indústrias e organismos internacionais, deixou clara uma mensagem: a proteína animal tem futuro — e ele será sustentável, tecnológico e colaborativo.





