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Produção de bovinos de corte x temperaturas elevadas

Por Pedro Lacroix, Carina Damé, Mariana Ança, Júlio Barcellos

Práticas socioambientais transformam a proteína nacional em produto premium e fortalecem a presença global
Práticas socioambientais transformam a proteína nacional em produto premium e fortalecem a presença global

As mudanças climáticas têm afetado os sistemas de produção de bovinos de corte de forma significativa em várias regiões pelo mundo e no Brasil, por ser um país predominantemente tropical, também vem apresentando problemas dessa natureza. Através da elevação das temperaturas médias globais e o aumento da frequência de desastres climáticos cada vez mais intensos, os sistemas produtivos são diretamente impactados, principalmente nas zonas temperadas e subtropicais. Nas referidas regiões, a bovinocultura de corte é mais vulnerável, pois o conforto térmico dos animais é comprometido pelas altas temperaturas, geralmente, acompanhadas de elevada umidade, o que prejudica a produtividade.

É importante salientar que o aumento da temperatura ambiente, além de desconforto térmico nos animais, também causa prejuízos econômicos. A elevação das temperaturas pode causar impactos diretos e indiretos no sistema de produção de bovinos de corte (Figura 1). O estresse térmico, além da redução de consumo, também causa aumento da energia de manutenção, o que potencializa as perdas, pois sobra menos energia para ganhos. Outro ponto relevante, é o impacto no rendimento de carcaça e na eficiência reprodutiva, o que implica na competitividade da cadeia produtiva.

Diante desse cenário, é importante compreender como os animais respondem fisiologicamente ao calor excessivo. A resposta dos bovinos ao estresse calórico ocorre em quatro etapas principais (Figura 2). Na primeira, ocorre a redução imediata do consumo e os animais buscam evitar o acúmulo de calor por meio de mecanismos como a vasodilatação periférica, a sudorese e o aumento da frequência respiratória. Na segunda etapa, os mecanismos de perda de calor são intensificados, tornando os animais mais vulneráveis a outros tipos de estresse, como a diminuição da imunidade do animal, devido ao aumento da liberação de cortisol. A partir da terceira fase, os processos de manutenção da homeotermia já não são suficientes, o que compromete o bem-estar, a produtividade e a reprodução dos animais. Por fim, na quarta etapa, o organismo já se encontra submetido ao calor excessivo, com aumento acentuado da sudorese e da frequência respiratória. Quando os animais não conseguem mais controlar sua temperatura corporal, pode ocorrer o choque térmico, que em casos graves leva à morte.

Para estimar e verificar as condições ambientais geradoras de estresse térmico, pode ser utilizado o Índice de Temperatura e Umidade (ITU), que avalia o risco de desconforto térmico através da temperatura do ar e a umidade relativa. Valores elevados (Figura 2) indicam perda da homeotermia, redução da produção e aumento da mortalidade. O índice pode ser mensurado pela seguinte equação: ITU = (1,8 × T + 32) – (0,55 – 0,0055 × UR) × (1,8 × T – 26), em que: T= temperatura do ar (Cº) e UR= umidade relativa (%).

Levando em consideração as questões fisiológicas, é fundamental a adoção de medidas que minimizem os impactos do estresse térmico nos sistemas produtivos. Sistemas que não possuem estratégias de mitigação de estresse calórico são menos resilientes e mais vulneráveis a perdas econômicas. Neste contexto, algumas técnicas podem ser aplicadas visando reduzir os impactos das altas temperaturas nos sistemas de produção de bovinos de corte. No ambiente, a inserção de sombreamento ou a aplicação de sistemas de integração pecuária-floresta (IPF), também chamados de sistemas silvipastoris, que podem diminuir o desconforto térmico enfrentado pelos animais. Além disso, a utilização de sombrites para a criação de sombras artificiais pode ser uma alternativa eficaz para amenizar esse problema, especialmente em piquetes onde estão os touros.

Por fim, em paralelo com as melhorias no ambiente, o desenvolvimento genético e o manejo nutricional também são relevantes. Quanto a genética, uma opção é a escolha de raças que são mais adaptadas ao calor ou cruzamentos entre essas raças, como por exemplos as raças zebuínas, de modo a associar eficiência produtiva e rusticidade. Quanto ao manejo, adaptar a dieta, fornecer suplementos de forma estratégica e em horários apropriados, são técnicas importantes para amenizar os efeitos do estresse térmico e aumentar o consumo de alimento pelos bovinos. Conciliar todas essas práticas, em termos de ambiente, genética e manejo, é fundamental para obter sustentabilidade na bovinocultura de corte diante de um quadro de temperaturas elevadas.

temperaturas elevadas

Figura 1. Principais prejuízos diretos e indiretos na produção animal, causados pela elevação das temperaturas.

temperaturas elevadas

Figura 2. Principais etapas da resposta dos bovinos ao estresse térmico e a classificação do Índice de Temperatura e Umidade (ITU).


Pedro Lacroix – Graduando em Zootecnia – Bolsista IC (UFRGS)


Carina Damé – Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Zootecnia da UFRGS


Mariana Ança – Graduanda em Estatística na UFRGS – Bolsista IC (UFRGS)


Júlio Barcellos – Professor titular do Departamento de Zootecnia da UFRGS e coordenador do NESPro

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