A expectativa pelo Plano Safra 2026/2027 reacende o debate sobre a profissionalização das propriedades rurais no Brasil. Previsto para ser anunciado em julho, o programa pode alcançar cerca de R$ 550 bilhões em crédito rural, ampliando os recursos disponíveis para custeio, investimentos e modernização da produção agropecuária.
Apesar do volume maior de recursos, especialistas alertam que o acesso ao financiamento não garante, por si só, aumento de lucro no campo. A conversão do crédito em resultado econômico depende de planejamento, controle de custos, acompanhamento técnico e decisões alinhadas às necessidades reais de cada propriedade.
Assistência técnica ainda é limitada
Dados do Censo Agropecuário do IBGE mostram que apenas 20,1% dos produtores rurais declararam receber orientação técnica. Na prática, isso significa que boa parte das decisões sobre manejo, nutrição de plantas, controle de pragas, irrigação, compra de insumos e gestão financeira ainda ocorre sem apoio especializado.
Para Romário Alves, CEO da Sonhagro, o crédito rural deve ser tratado como ferramenta de desenvolvimento, e não como solução isolada. “O crédito rural é uma ferramenta de desenvolvimento, mas precisa ser utilizado de forma estratégica. O produtor que conhece seus custos, planeja seus investimentos e entende onde estão seus gargalos consegue transformar o financiamento em produtividade e rentabilidade. Sem gestão, existe o risco de aumentar o endividamento sem melhorar os resultados da propriedade”, afirma.
Produtividade não garante lucro sozinha
Na avaliação de Vitor Borges, especialista em manejo agrícola, produtividade e rentabilidade no agro, a profissionalização da produção é um dos principais pontos que diferenciam propriedades sustentáveis de negócios com maior risco financeiro. “O produtor que não mede, não planeja e não acompanha a lavoura de perto acaba tomando decisões no escuro. Ele pode até colher, mas não necessariamente está ganhando dinheiro. A diferença entre produzir e ter lucro está no manejo profissional”, destaca.
Os números ajudam a ilustrar esse cenário. Segundo dados do IBGE, a produtividade média nacional do maracujá ficou em 15,64 toneladas por hectare em 2024. De acordo com Borges, áreas conduzidas com planejamento, manejo de solo, irrigação, nutrição equilibrada, polinização e monitoramento constante podem alcançar resultados muito superiores.

“O problema não é o tamanho da propriedade. É a forma como ela é conduzida. Quando o produtor deixa de tratar a lavoura como uma atividade de subsistência e passa a administrá-la como um negócio, o ganho de produtividade e de rentabilidade aparece naturalmente”, afirma Borges.
Controle financeiro reduz risco de endividamento
Além do manejo produtivo, o controle financeiro é apontado como etapa essencial para o uso adequado do crédito rural. Sem conhecer o custo real de produção, muitos agricultores têm dificuldade para calcular margens, negociar preços, definir o melhor momento de compra de insumos e avaliar se novos investimentos cabem no caixa da propriedade.
Para Alves, a ampliação das linhas de crédito aumenta a importância da gestão integrada. “O financiamento deve ser encarado como parte de uma estratégia de crescimento, e não como uma solução isolada. O produtor que investe em tecnologia, planejamento e controle consegue aproveitar melhor os recursos disponíveis e aumentar sua competitividade mesmo em um cenário de custos elevados”, avalia.
Outro ponto de atenção está nas perdas provocadas por pragas, doenças e plantas invasoras. Estimativas da Embrapa indicam que esses fatores podem reduzir de 30% a 40% a produção de diferentes culturas, tornando o manejo preventivo decisivo para preservar produtividade, qualidade e margem econômica.
Em um cenário de crédito mais amplo, custos elevados e maior competição no agro, especialistas defendem que o futuro da atividade dependerá cada vez mais da capacidade de transformar informação, tecnologia e planejamento em resultado financeiro. Para o produtor, o desafio não será apenas acessar recursos, mas aplicá-los de forma estratégica para gerar retorno real à propriedade.
Fonte: IBGE e Embrapa, adaptado pela equipe Feed&Food
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