A busca por sistemas produtivos mais sustentáveis e alinhados às exigências dos mercados globais de baixo carbono ganhou novos capítulos com pesquisas brasileiras apresentadas durante o SETAC Europe 36th Annual Meeting, realizado em Maastricht, na Holanda. Os trabalhos mostram alternativas para reduzir emissões de gases de efeito estufa na agricultura e na pecuária, além de aprimorar ferramentas de medição ambiental que podem fortalecer programas de certificação da produção animal.
Entre os destaques estão estudos envolvendo biodiesel de origem agropecuária, reaproveitamento de resíduos industriais na agricultura, novas metodologias de avaliação ambiental e ferramentas voltadas à mensuração da pegada de carbono da carne e do leite produzidos no Brasil.
Biodiesel com matéria-prima agropecuária ganha espaço na descarbonização
Um dos estudos avaliou o potencial do biodiesel brasileiro como alternativa para reduzir as emissões do transporte marítimo internacional, setor responsável por aproximadamente 3% das emissões globais de gases de efeito estufa.
A pesquisa analisou principalmente o biodiesel produzido a partir de óleo de soja e sebo bovino, matérias-primas que possuem forte ligação com o agronegócio brasileiro. Segundo os pesquisadores, o combustível apresenta emissões significativamente menores do que o óleo combustível pesado tradicionalmente utilizado por navios.
O estudo também identificou oportunidades adicionais de redução das emissões, especialmente com a substituição do metanol utilizado na fabricação do biodiesel por etanol. Além do benefício ambiental, os autores destacam que o Brasil já possui uma cadeia produtiva consolidada e capacidade de expansão para atender à crescente demanda por combustíveis renováveis.

Resíduo siderúrgico pode reduzir a pegada de carbono do milho
Outro trabalho apresentou resultados promissores para a agricultura ao avaliar o uso de silicato de cálcio e magnésio (SCM), derivado da escória da indústria siderúrgica, como corretivo da acidez do solo em áreas de produção de milho.
A pesquisa foi conduzida em Mato Grosso e comparou diferentes níveis de substituição do calcário agrícola pelo material reciclado. Os resultados mostraram redução gradual das emissões de gases de efeito estufa, chegando a aproximadamente 15% quando o SCM substituiu integralmente o corretivo convencional.
Para os pesquisadores, a tecnologia reúne dois benefícios importantes para a cadeia agropecuária: a redução das emissões associadas à produção agrícola e o aproveitamento de resíduos industriais dentro dos princípios da economia circular.
Como o milho representa o principal componente das rações utilizadas nos setores de aves, suínos e bovinos confinados, avanços capazes de reduzir sua pegada ambiental podem contribuir para a sustentabilidade de toda a cadeia de proteína animal.
Novas métricas buscam retratar melhor a realidade da agricultura tropical
Os pesquisadores também defenderam ajustes nas metodologias utilizadas para medir impactos ambientais em sistemas agrícolas brasileiros.
Um dos estudos avaliou a forma como fertilizantes são contabilizados em sistemas de sucessão de culturas, comuns em regiões produtoras de grãos. Atualmente, grande parte das avaliações atribui integralmente os impactos dos nutrientes à cultura presente no momento da aplicação, desconsiderando benefícios para cultivos posteriores.
Segundo os autores, essa simplificação pode distorcer resultados ambientais e influenciar decisões de manejo. A proposta é desenvolver modelos mais aderentes às características dos sistemas produtivos tropicais.
Outra pesquisa destacou a importância de incorporar estoques naturais de nutrientes e água presentes no solo aos estudos de avaliação de ciclo de vida. A medida pode tornar as comparações entre sistemas agrícolas mais precisas e evitar interpretações equivocadas sobre sustentabilidade.
Ferramenta brasileira permitirá medir a pegada de carbono da pecuária
Entre os trabalhos com impacto mais direto para o setor pecuário está o desenvolvimento da Calculadora Pecuária de Baixo Carbono, ferramenta criada para estimar as emissões e remoções de gases de efeito estufa na produção de carne e leite.
A plataforma utiliza metodologias reconhecidas internacionalmente e foi desenvolvida para apoiar iniciativas como os programas Carne Baixo Carbono e Leite Baixo Carbono.
A expectativa é que a ferramenta auxilie produtores, cooperativas, frigoríficos, laticínios e formuladores de políticas públicas na identificação de oportunidades de mitigação, além de fornecer dados para certificações ambientais cada vez mais demandadas por consumidores e mercados importadores.
Inventários padronizados podem fortalecer certificações
Outro estudo apresentado durante o evento propõe a criação de inventários harmonizados para diferentes sistemas de pastagens utilizados na pecuária brasileira.
Os pesquisadores desenvolveram uma metodologia capaz de caracterizar sistemas extensivos, semi-intensivos e intensivos de produção, contemplando diferentes tipos de manejo e condições produtivas.
Foram elaborados 25 inventários voltados à avaliação ambiental de pastagens. Segundo os autores, a padronização dos dados pode aumentar a comparabilidade entre estudos, ampliar a transparência das análises e fortalecer futuras iniciativas de certificação da carne de baixo carbono.
Sustentabilidade como diferencial competitivo
Os estudos apresentados em Maastricht reforçam que a combinação entre inovação tecnológica, economia circular e aprimoramento das métricas ambientais deverá ganhar importância crescente para a competitividade da agropecuária brasileira.
Para as cadeias de proteína animal, iniciativas voltadas à redução das emissões, mensuração da pegada de carbono e certificação ambiental tendem a assumir papel estratégico, especialmente diante da expansão de mercados que exigem comprovação de sustentabilidade em toda a cadeia produtiva.
Fonte: Embrapa Meio-Ambiente, adaptado pela equipe da Feed & Food.
LEIA TAMBÉM:
Agro responde por 50,2% das exportações brasileiras em maio
Vendas de soja dos EUA recuam, mas demanda segue firme em mercados estratégicos
Vendas semanais de milho dos EUA superam expectativas e reforçam demanda internacional





