Quando se discute a sustentabilidade da proteína animal, o debate costuma começar pelas emissões de gases de efeito estufa, pelo bem-estar dos rebanhos ou pela rastreabilidade. Em sistemas baseados em pastagens, entretanto, uma parte decisiva dessa agenda permanece abaixo dos cascos. A capacidade do solo de receber, armazenar e conduzir água interfere na conservação da área, na estabilidade da pastagem e na resiliência da produção diante de períodos secos ou chuvas intensas.
Essa relação ganhou novos elementos com um estudo realizado por pesquisadores da Embrapa Solos e da Embrapa Gado de Leite na Fazenda Santa Mônica, em Valença (RJ). Entre os autores estão Wenceslau Geraldes Teixeira e Fabiano de Carvalho Balieiro, da Embrapa Solos, e Marcelo Dias Müller e Carlos Eugênio Martins, da Embrapa Gado de Leite. Publicado na revista Agrometeoros, o trabalho avaliou um Argissolo Amarelo sob integração pecuária-floresta (IPF), com renques de eucalipto associados à braquiária. As medições ocorreram em fevereiro de 2026, 75 meses após a implantação do sistema, em uma área de relevo forte ondulado e declividade média entre 20% e 25%.
Quando a água encontra barreiras
Os pesquisadores mediram a condutividade hidráulica saturada indicador que expressa a capacidade do solo encharcado de conduzir água a 20 centímetros de profundidade. Foram comparadas a linha de plantio dos eucaliptos, chamada de renque; a borda da copa, a quatro metros das árvores; e o centro da pastagem, a 12,5 metros do componente arbóreo. Os valores foram classificados como baixos nas três posições. A borda apresentou média de 3,05 milímetros por hora, diante de 1,09 milímetro por hora no pasto e 0,97 milímetro por hora no renque. Apesar de também permanecer em nível baixo, a borda registrou condutividade aproximadamente três vezes maior. Segundo o estudo, a interação entre as raízes do eucalipto e da braquiária favoreceu a continuidade dos poros nessa faixa.
A limitação geral foi relacionada ao adensamento do horizonte BA, localizado entre 18 e 28 centímetros, à transição para uma camada mais argilosa e ao efeito do pisoteio animal na superfície. “Conclui-se que o solo possui restrição severa ao fluxo de água”, registram os autores. O resultado descreve as condições do solo e do manejo avaliados em Valença e não deve ser estendido automaticamente a todos os sistemas integrados. A pesquisa também examinou dados horários de chuva entre 2006 e 2026: foram identificados 22 eventos de intensidade forte, acima de 36 milímetros por hora, dos quais 13 ocorreram após um acumulado superior a 21 milímetros nas 72 horas anteriores. Quando uma chuva intensa encontra o solo próximo da saturação, a baixa capacidade de condução favorece enxurradas e erosão risco ampliado pelo relevo acidentado da região.
Integração exige ajuste fino
Os resultados não representam uma condenação da integração pecuária-floresta. Ao contrário, a diferença encontrada na borda indica que a combinação dos sistemas radiculares pode melhorar localmente a estrutura física. O alerta está em considerar a presença de árvores como garantia automática de sustentabilidade. No renque e no centro do pasto, as raízes atuando isoladamente não foram suficientes para superar as limitações estruturais preexistentes.
O componente florestal também precisa ser manejado ao longo do tempo. Aos 73 meses, os eucaliptos alcançaram área basal de 9,22 metros quadrados por hectare. Conforme o critério citado no artigo, o resultado superou o limiar de 8 metros quadrados por hectare e sinalizou competição mais intensa por luz, além da necessidade de avaliar o desbaste para preservar a pastagem. Entre as recomendações estão práticas de descompactação e controle da erosão, avaliações de infiltração e estudos com outras espécies e espaçamentos.

Da saúde do solo à proteína animal
O experimento integra um projeto voltado à recria de bezerras leiteiras em sistemas pecuária-floresta na Mata Atlântica. O artigo, porém, não mediu ganho de peso, produção de leite, conforto térmico ou emissões de carbono. A conexão com a proteína animal precisa, portanto, ser feita pelas funções do solo e da pastagem, e não por resultados zootécnicos que não foram avaliados.
Em capítulo técnico publicado em 2025 sobre a saúde do solo em sistemas de pastejo, Guilherme Kangussu Donagemma, Róberson Machado Pimentel, Carlos Eugênio Martins, Fabiano Balieiro e coautores explicam que solos equilibrados sustentam a produtividade das pastagens, armazenam água, auxiliam a ciclagem de nutrientes e favorecem a viabilidade da pecuária no longo prazo. Ao analisarem o efeito da intensidade de pastejo, os autores resumem que “os objetivos ambientais e produtivos da pecuária caminham na mesma direção”.
Essa perspectiva exige olhar além de um único indicador. Densidade, infiltração, matéria orgânica, fertilidade e atividade biológica ajudam a revelar como o solo responde ao manejo. Para Maurício Cherubin, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), “saúde do solo é a base da agricultura resiliente para os próximos anos”. Na prática, um sistema visualmente arborizado pode continuar apresentando limitações físicas que só aparecem quando são medidas.
Métrica antes da promessa
O mesmo cuidado vale para alegações de baixo carbono. Sistemas integrados apresentam potencial de sequestrar carbono, oferecer sombra e diversificar a produção, mas esses benefícios não foram mensurados pelo estudo de Valença. Sem inventário, linha de base e acompanhamento, não é possível concluir que uma propriedade neutralizou emissões apenas porque incorporou árvores.
Gustavo Heissler, gerente de projetos da SIA Serviço de Inteligência em Agronegócios, destaca que “a qualidade da informação depende tanto da metodologia quanto de um profissional que compreenda os sistemas produtivos”. A observação reforça uma mudança importante: a sustentabilidade deixa de ser uma característica presumida da tecnologia adotada e passa a depender de resultados verificáveis em cada propriedade.
O estudo evidencia que não existe solução isolada. A produção sustentável de carne ou leite depende da interação entre solo, água, pastagem, árvores, carga animal e gestão. Plantar o componente florestal pode iniciar uma transformação; conhecer as limitações da área e ajustar continuamente o sistema é o que converte intenção ambiental em resiliência produtiva.




