Rios, lagos e reservatórios abrigam uma comunidade diversificada de microrganismos que exerce papel fundamental no equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. Embora invisíveis a olho nu, esses organismos participam da produção de matéria orgânica, da decomposição e da reciclagem de nutrientes — processos que também influenciam as condições da água utilizadas pela pesca e pela aquicultura.
A relação entre esses microrganismos e o funcionamento dos ambientes de água doce é estudada por pesquisadores do Instituto de Pesca (IP-APTA), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O trabalho inclui o acompanhamento de organismos que podem funcionar como indicadores de alterações na qualidade dos ambientes aquáticos.
Além do abastecimento público, os reservatórios são utilizados para irrigação, lazer, pesca e aquicultura. Nesse contexto, o acompanhamento das condições da água é relevante para atividades que dependem diretamente da qualidade dos ambientes de produção.
Cianobactérias exigem atenção
Entre os principais grupos de microrganismos presentes nos reservatórios está o fitoplâncton, formado por organismos microscópicos como microalgas e cianobactérias. Por meio da fotossíntese, esses organismos produzem matéria orgânica e liberam oxigênio na água, constituindo uma das bases da cadeia alimentar aquática.
As cianobactérias fazem parte naturalmente desses ecossistemas. O problema ocorre quando encontram condições favoráveis para uma multiplicação excessiva, especialmente em ambientes com elevada disponibilidade de nutrientes.
O aumento da concentração de nutrientes na água pode estar relacionado, por exemplo, ao lançamento de esgoto, ao escoamento de fertilizantes e a outras fontes de poluição. Nessas condições, podem ocorrer florações de cianobactérias e alterações nos níveis de oxigênio dissolvido.
Segundo a pesquisadora científica do Instituto de Pesca Cacilda Thais Janson Mercante, o equilíbrio entre os diferentes componentes microscópicos é fundamental para o funcionamento dos reservatórios.
“Quando há luz, nutrientes e oxigênio em quantidades adequadas, eles mantêm a produtividade e sustentam a cadeia alimentar. Porém, quando ocorrem lançamentos de esgoto, fertilizantes ou outras fontes poluidoras na água, esse equilíbrio pode ser rompido, favorecendo florações de cianobactérias e a redução do oxigênio dissolvido, o que pode levar à mortandade de peixes”, explica.
Para a atividade aquícola, a presença de alterações desse tipo merece atenção, uma vez que mudanças na qualidade da água podem afetar diretamente os organismos cultivados.
Pesquisa desenvolveu alternativa para quantificar cianobactérias
A necessidade de monitorar esses organismos também foi tema de uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto de Pesca. O estudo “Aplicação de metodologia alternativa para quantificação de cianobactérias em mananciais de usos múltiplos do Estado de São Paulo” foi coordenado por Cacilda Thais, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e realizado em parceria com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp).
Vinculado ao Programa de Parceria para Inovação Tecnológica (PITE), da FAPESP, o projeto teve início em 2021 e foi desenvolvido durante três anos e oito meses.
A pesquisa avaliou uma metodologia alternativa para quantificar cianobactérias em mananciais utilizados para diferentes finalidades no Estado de São Paulo. A abordagem utiliza a análise de pigmentos presentes nas amostras de água para identificar e quantificar grupos de fitoplâncton, incluindo as cianobactérias.
De acordo com os resultados do estudo, a metodologia pode contribuir para uma detecção mais rápida e eficiente desses organismos. A ferramenta tem potencial para auxiliar o acompanhamento da qualidade da água e a identificação de alterações na comunidade de microrganismos presentes nos reservatórios.

Monitoramento pode apoiar a aquicultura
O acompanhamento do fitoplâncton e de outros microrganismos amplia a capacidade de identificar mudanças no ambiente aquático antes que elas resultem em impactos mais severos.
Além das cianobactérias, organismos como zooplâncton, bactérias, protozoários e fungos participam de processos essenciais para os ecossistemas. O zooplâncton, por exemplo, alimenta-se de algas e outros microrganismos e, ao mesmo tempo, serve de alimento para organismos de níveis superiores da cadeia alimentar. Bactérias, protozoários e fungos estão envolvidos na decomposição da matéria orgânica e na reciclagem de nutrientes.
Para a produção de peixes, compreender essas relações é importante porque a qualidade da água está diretamente associada às condições de cultivo. O monitoramento dos microrganismos, portanto, pode integrar estratégias de acompanhamento ambiental em reservatórios utilizados para pesca e aquicultura.
A pesquisa do Instituto de Pesca reforça, assim, a importância de desenvolver métodos capazes de identificar alterações nas comunidades microscópicas dos ambientes aquáticos. O objetivo é ampliar as informações disponíveis para a gestão da qualidade da água e para atividades que dependem da manutenção do equilíbrio desses ecossistemas.



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