Camila Santos, de Goiânia (GO)
O professor titular da ESALQ/USP, engenheiro agrônomo Moacyr Corsi, apresentou no Feedlot Summit Brazil , uma análise detalhada sobre o impacto bioeconômico da adubação e irrigação em pastagens tropicais. Com base em décadas de pesquisa e experiências práticas, o especialista reforçou que a intensificação do pastejo é viável em qualquer escala de propriedade e condição essencial para a sustentabilidade produtiva e econômica da pecuária.
Ele lembrou que o movimento de intensificação das pastagens no Brasil teve início em 1970, em pequenas áreas experimentais. “Nós começamos sem dinheiro nenhum, com apenas 1,4 hectare. Quando alguém me diz que não tem recurso para começar, eu não acredito. O que falta é informação e disposição para aplicar tecnologia”, afirma.
O pesquisador exemplificou como pequenas áreas intensificadas podem mudar a lógica produtiva da fazenda. Em uma propriedade de 100 hectares, ao adubar e intensificar apenas 10 hectares, é possível quadruplicar a taxa de lotação nessa área, passando de 1 para 4 cabeças por hectare. Assim, somando os 40 animais nos 10 hectares intensificados e 60 animais mantidos em 60 hectares convencionais, o produtor continua com 100 cabeças, mas utiliza apenas 70 hectares. Os 30 hectares restantes podem ser vedados, garantindo recuperação natural e sustentabilidade do sistema. “Não existe pasto degradado quando se adota manejo adequado. A intensificação cria um ciclo virtuoso: você aprende em pequena escala, aplica em áreas maiores e recupera a capacidade produtiva sem comprometer a rentabilidade”, destaca.
Custos de produção e ganho de peso
Um dos pontos centrais da palestra foi a simplicidade dos cálculos necessários para avaliar a viabilidade econômica. Segundo Moacyr, bastam quatro informações: gastos mensais da propriedade, número exato de animais, valor da arroba e ganho de peso diário. A partir desses dados, o produtor consegue determinar o ganho mínimo necessário para cobrir despesas.

Em um exemplo prático, ele mostrou que, com custos de R$100 por cabeça/mês e arroba a R$310, é preciso que os animais ganhem 322 gramas por dia apenas para pagar as contas. Se o ganho médio diário sobe de 450 g para 650 g, o custo por arroba cai de R$222 para R$154, gerando uma diferença de R$70 por arroba exclusivamente por manejo nutricional e de pastagem. “O ganho de peso paga as despesas, mas é a escala de produção que gera caixa para investimento. É preciso aumentar lotação por hectare e eficiência do pastejo para construir competitividade”, ressalta.
Eficiência de adubação e manejo do resíduo
O professor demonstrou que a eficiência da adubação não depende apenas da quantidade aplicada, mas do equilíbrio nutricional e do manejo. Erros como negligenciar micronutrientes ou ignorar potássio reduzem drasticamente o aproveitamento do nitrogênio. Outro fator decisivo é a altura do resíduo.
Em experimentos com Panicum maximum cv. Tanzânia, plantas manejadas com resíduos mais baixos apresentaram maior densidade de folhas, maior eficiência de pastejo e produção superior. A simples alteração da altura de resíduo pode resultar em diferença de até 12 arrobas por hectare, o equivalente a R$3.600 a mais em receita, considerando arroba a R$300. “Ganhar dinheiro é fácil quando se usa tecnologia de forma correta. O difícil é quando não se aplica manejo adequado”, reforçou.
Parâmetros e indicadores de eficiência
Corsi apresentou parâmetros que servem como referência para qualquer sistema de produção baseado em água, sal e pasto, sem suplementação adicional. Entre eles:
- Taxa de lotação: 3,8 UA/ha.
- Produção de arrobas: de 24 a 30 arrobas/ha/ano.
- Eficiência de pastejo: entre 55% e 60%.
Ele destacou também a diferença entre ganho médio diário (GMD), que permite avaliar desempenho entre pesagens frequentes, e ganho por período (GPD), que indica escala produtiva. “O GMD é fundamental para corrigir rapidamente falhas de manejo, evitando perda de desempenho entre pesagens”, explica.
Pasto e manejo de pastejo são conceitos distintos
O professor informou ainda que discutir retorno econômico da adubação sem entender manejo de pastagem é equivocado. “A primeira coisa é aprender a manejar o pasto. Sem infraestrutura adequada e sem monitoramento da altura e densidade de folhas, não há como capturar o retorno da adubação ou da irrigação. Manejo de pasto e manejo de pastejo são conceitos distintos, mas complementares — e ambos são a base da intensificação sustentável”, encerra.
O Feedlot Summit Brazil segue até amanhã, 12 de setembro, no Espaço Dois Ipês, em Goiânia (GO).
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