integração entre lavoura e pecuária pode reduzir a exposição da propriedade às oscilações de mercado ao distribuir a geração de receita em diferentes momentos do ano. Em entrevista à Feed&Food durante o SBSBL, em Chapecó (SC), o engenheiro agrônomo e professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), Sebastião Brasil Campos Lustosa, destaca a diversificação como um dos pontos centrais do sistema. “Começa porque ele não tem uma única safra. Tem safras ao longo do ano. Então, isso já diminui um pouco os riscos de ele se inviabilizar”, afirma.
Com atuação em forragicultura, integração lavoura-pecuária, pastagens, manejo e fertilidade do solo, Lustosa avalia que o sistema não deve ser tratado como solução imediata para dificuldades financeiras. A tomada de decisão precisa considerar os recursos já disponíveis na fazenda e um horizonte de médio e longo prazo. “O que eu tenho de bom dentro da propriedade, o que eu consigo melhorar dentro da propriedade. Dentro da propriedade é o mais importante”, explica.

Diversificação exige planejamento
A avaliação encontra respaldo em estudos sobre sistemas integrados. Trabalho publicado pela Embrapa em 2026, a partir de levantamentos realizados com produtores rurais de São Paulo em 2017 e 2024, identificou entre os principais benefícios percebidos da integração lavoura-pecuária a diversificação da renda, a conservação do solo, o aumento da taxa de lotação e a viabilização econômica da reforma de pastagens.
Para que os ganhos apareçam, porém, Lustosa aponta o planejamento do uso do solo como uma das primeiras etapas. Análise da fertilidade, definição das rotações, manutenção da cobertura e manejo adequado das pastagens precisam fazer parte da estratégia. Segundo ele, a fase de pastagem também pode contribuir para o aproveitamento dos nutrientes e beneficiar a cultura agrícola seguinte.
Outro ponto crítico é dimensionar o rebanho de acordo com a quantidade de alimento disponível. Em vez de considerar apenas quantas cabeças cabem na propriedade, o produtor precisa relacionar o número de animais à capacidade de suporte da pastagem. “O principal é esse: o descontrole da carga animal”, alerta Lustosa. O desequilíbrio pode afetar fertilidade, desempenho dos animais, produtividade por área e condições do solo.
Estrutura define horizonte de retorno
A gestão econômica também passa pela comercialização. Lustosa chama atenção para o risco de manter animais por mais tempo apenas na expectativa de valorização futura. Na avaliação do especialista, mesmo uma produção tecnicamente eficiente pode perder rentabilidade quando a decisão sobre o momento da venda não acompanha o desempenho do sistema.
O tempo necessário para que a integração apresente resultados depende especialmente da estrutura já disponível. Em propriedades que já possuem estrutura pecuária, Lustosa estima que os primeiros efeitos possam aparecer a partir do segundo ano. “Vamos dizer que no segundo ano já tem uma resposta. Ele solidifica isso a partir do terceiro ano”, afirma, ressaltando que existem outras variáveis envolvidas.
Quando é necessário construir toda a estrutura pecuária, o horizonte muda. Segundo Lustosa, a propriedade pode começar a apresentar caixa positivo nos primeiros anos, dependendo do nível de investimento, enquanto a amortização integral da estrutura pode se estender por cerca de dez anos.
Crédito também entra na equação
Além da estrutura física e do manejo, o financiamento é apontado pelo professor como um desafio para quem pretende integrar as atividades. Lustosa avalia que determinados modelos de crédito ainda tratam agricultura e pecuária de forma separada, enquanto o sistema integrado exige outra lógica de análise. “O banco quer agricultura pura e pecuária pura. Isso não existe mais”, afirma.
Para o especialista, a mudança fundamental está justamente em deixar de enxergar agricultura e pecuária como negócios concorrentes dentro da mesma fazenda. “Não pode tentar fazer a pecuária brigar com a agricultura em termos de divisão de receitas, ele tem que pensar no global das atividades”, resume. Controle de custos e receitas, acompanhamento técnico e planejamento conjunto tornam-se, assim, determinantes para que a integração contribua para reduzir vulnerabilidades e aumentar a estabilidade econômica da propriedade.



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