A manhã do Encontro de Recriadores da Scot Consultoria, realizado nesta segunda-feira (7), foi marcada por discussões técnicas sobre eficiência produtiva, uso de tecnologia e os desafios da pecuária frente ao aumento da demanda global por carne. As palestras abordaram desde manejo reprodutivo até estratégias de intensificação e comunicação do setor.
Logo na abertura, o professor Roberto Sartori, da ESALQ/USP, destacou o impacto da inseminação artificial em tempo fixo (IATF) na produtividade da cria. “IATF é quem faz a diferença abrindo a estação reprodutiva”, afirmou.
Segundo ele, a organização do calendário reprodutivo está diretamente ligada à eficiência do sistema. “Ao fazer estação reprodutiva a gente consegue trabalhar principalmente a oferta de alimentos da melhor forma possível”, disse, ao defender que a reprodução ocorra nos períodos de maior disponibilidade de forragem.

Sartori também chamou atenção para a importância de antecipar prenhez e partos. “Nós queremos vacas emprenhando cedo para parir cedo. Essa vaca que pari cedo no outro ano ela tem 85% de chance de emprenhar de novo, a vaca que pare tarde tem menos de 50%”, afirmou. “A vaca que pari primeiro é a melhor vaca.”
Tecnologia e sistema produtivo no centro das decisões
Na sequência, Marcelo Almeida de Oliveira, da CIA de Melhoramento, trouxe uma visão estratégica sobre o futuro da produção de carne. “Em 2050 seremos 9,8 bilhões de pessoas no mundo”, destacou.
Para ele, o aumento da produção passa necessariamente pelo avanço tecnológico, especialmente em países tropicais. “Nós somos capazes de aumentar nossa produção em 54% muito antes desse prazo com o emprego da tecnologia”, afirmou.

O especialista alertou, no entanto, para a necessidade de olhar o sistema como um todo. “Nem todo animal que está bem apresentando na desmama será um bom novilho terminado”, disse. “Nós não temos que focar no animal, o animal é meio, temos que pensar no sistema de produção.”
Produtividade como chave para rentabilidade
Com foco prático, José Leandro Olivi Peres, da JP Agropecuária, apresentou resultados de sistemas intensivos e destacou a relação direta entre produtividade e margem. “Quando se trata de commodity, a gente não consegue deixar de ter uma alta produtividade, é o único jeito de diminuir nossos custos”, afirmou.
Ele trouxe números da operação para ilustrar o modelo. “Hoje nós chegamos em uma propriedade de produção de 31 arrobas por hectare ano, 78% de desfrute com um resultado líquido de 12,5 arrobas por hectare”, disse.

A estratégia de mudança no modelo de comercialização também foi destacada. “A transição de vendas de bezerros para carcaças foi onde a gente conseguiu enxergar a oportunidade de maior investimento na fazenda”, afirmou. “Nós fomos premiados por ter a melhor carcaça Angus nacional.”
Desafio de comunicação e percepção do agro
A fundadora da Agrifatto, Lygia Pimentel, trouxe um olhar voltado à imagem do setor perante a sociedade. “Hoje a gente sabe que se a gente quisesse escolher um único alimento para sobreviver seria a carne bovina”, afirmou.
Apesar disso, ela alertou para a desconexão entre o campo e a população urbana. “85% das pessoas hoje vivem nas cidades, eles não têm mais contato com o campo”, disse.

Lygia Pimentel, fundadora da Agrifatto. Crédito: Feed&Food
Segundo Lygia, o setor ainda enfrenta dificuldades para dialogar com o público jovem. “Na faixa etária de 15 a 29 anos a atitude foi negativa diante do agronegócio, e a probabilidade deles consumirem ou recomendarem é muito baixa”, afirmou. “A gente não está conseguindo conversar fora da nossa bolha.”
Intensificação e disputa por animais
Encerrando o bloco, Flávio Resende, da APTA Colina, reforçou o avanço dos sistemas intensivos e a crescente demanda por animais jovens. “Cada vez mais a demanda por boi magro está crescendo”, destacou.
Ele apontou uma mudança estrutural na produção. “Pela primeira vez nós estamos abatendo mais animais do que está nascendo”, afirmou.

Para o pesquisador, o cenário exige planejamento e eficiência. “Nós temos que pensar na nossa disponibilidade de ingredientes e nos investimentos que estamos fazendo”, disse. “Animais com maior potencial de crescimento são mais indicados para sistemas intensivos.”
Ao longo da manhã, ficou evidente que a intensificação, aliada ao uso de tecnologia e gestão eficiente, tende a definir os próximos passos da pecuária brasileira, especialmente diante do aumento da demanda global e das mudanças no perfil de consumo.
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