Apesar da força produtiva do agronegócio brasileiro, muitos produtores rurais ainda enfrentam dificuldades para acessar fontes mais sofisticadas de financiamento por conta de falhas de gestão e governança. A avaliação é de Henrique Galvani, CEO da Arara Seed, que afirma observar semanalmente operações robustas e rentáveis excessivamente dependentes do Plano Safra.
Segundo o executivo, o problema não está na falta de alternativas de crédito, mas na ausência de estrutura organizacional capaz de atender às exigências do mercado privado. “Ainda é comum encontrar produtores com operações consolidadas, faturamento expressivo e histórico sólido no campo, mas com lacunas básicas de gestão”, afirma.
Entre os principais entraves apontados por ele estão demonstrações financeiras desorganizadas, ausência de projeções de fluxo de caixa, contratos informais e pouca separação entre pessoa física e jurídica. Na prática, explica Galvani, o gargalo deixa de ser produtivo e passa a ser administrativo, dificultando o acesso a linhas mais competitivas e sofisticadas de financiamento. “O cenário ganha relevância em um momento de transformação no mercado de crédito rural. Historicamente concentrado em linhas subsidiadas, o setor começa a enfrentar um ambiente de maior restrição, com aumento dos custos financeiros e redução proporcional dos incentivos”, diz.

No ciclo 2025/2026, o Plano Safra anunciou R$ 605 bilhões em crédito rural total, incluindo agricultura empresarial e familiar. Apesar do volume expressivo, houve redução no subsídio efetivo e aumento das taxas de juros, reforçando a necessidade de diversificação das fontes de financiamento. “Paralelamente, cresce a participação de instrumentos privados como a Cédula de Produto Rural (CPR) estruturada, o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e as notas comerciais incentivadas. Diferentemente das linhas tradicionais, esses mecanismos operam sob critérios mais analíticos, exigindo maior transparência e previsibilidade das operações”, aponta o executivo.
A mudança já aparece nos números do mercado financeiro. Em 2025, pela primeira vez, o estoque de títulos privados superou o volume de empréstimos bancários tradicionais no Brasil, alcançando R$ 2,21 trilhões, contra R$ 2,19 trilhões dos bancos, segundo levantamento da Rio Bravo Investimentos com base em dados do Banco Central.
Há dez anos, o mercado de capitais representava menos de um terço do crédito bancário no país. No agronegócio, entretanto, essa transição ainda ocorre de forma gradual. A estimativa é que entre 25% e 30% do estoque de crédito do setor atualmente venha do mercado de capitais. “Enquanto o restante da economia já fez essa travessia, o agro ainda está na ponte”, afirma Galvani.
Para o executivo, a governança financeira passa a ser um diferencial estratégico no novo cenário de crédito. “O investidor quer entender a operação, avaliar riscos e ter clareza sobre a capacidade de execução ao longo do tempo”, diz.
Na avaliação dele, profissionalizar a gestão financeira, estruturar informações e organizar processos deixou de ser apenas uma melhoria administrativa e passou a representar um fator determinante para ampliar o acesso a capital, reduzir custos financeiros e aumentar a autonomia dos produtores.
Fonte: Arara Seed, adaptado pela equipe da Feed & Food.
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