O melhoramento genético da raça Angus no Brasil entrou em uma nova fase impulsionada pelo uso estratégico de dados, avaliação genética e ferramentas genômicas. Resultados acumulados ao longo de mais de 30 anos indicam que a evolução da raça ocorreu de forma consistente e equilibrada, combinando desempenho produtivo, qualidade de carne e adaptação aos sistemas de produção brasileiros.
Dados do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) mostram que a base atual de avaliação conta com 548.196 animais analisados em rodagem semanal. O volume de informações consolida uma base genética robusta, que permite selecionar indivíduos superiores com maior precisão.
As avaliações consideram tanto dados fenotípicos características observadas diretamente nos animais quanto indicadores genéticos, como as Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs). Esse índice utiliza modelos estatísticos para eliminar interferências externas, como idade, manejo alimentar e ambiente, permitindo medir com mais precisão o potencial genético que será transmitido às próximas gerações.
Segundo Laerte Afonso Rochel, coordenador do programa, a análise genética permitiu que a raça avançasse em produtividade sem comprometer características importantes para a reprodução.
“O peso ao nascer permaneceu estável ao longo do tempo, mesmo com ganhos expressivos nas características de crescimento e carcaça. Isso só foi possível porque a avaliação genética permitiu identificar indivíduos que entregavam mais desempenho sem aumentar os riscos”, afirma.
Os dados históricos confirmam essa estabilidade. Em 1992, o peso médio ao nascer de machos da raça era de 34,11 quilos. Em 2023, o índice ficou em 34,28 quilos, um resultado considerado importante para manter a facilidade de parto e a eficiência reprodutiva.

Avanço na qualidade e rendimento de carcaça
A partir dos anos 2000, as avaliações passaram a incluir com mais intensidade características ligadas à carcaça, utilizando medições por ultrassom. Essas informações também são analisadas por meio das DEPs para garantir que os ganhos observados sejam de origem genética, e não apenas reflexo de manejo nutricional.
Um dos indicadores que mais evoluiu foi a Área de Olho de Lombo (AOL), medida associada ao rendimento de cortes nobres. A média passou de 46,48 centímetros quadrados no início das avaliações para 70,14 centímetros quadrados em 2023.
Quanto maior a AOL, maior tende a ser o rendimento de cortes valorizados no mercado, como contrafilé e picanha.
Além da quantidade de carne, o melhoramento também prioriza características relacionadas à qualidade. A seleção busca aumentar a deposição de gordura intramuscular, conhecida como marmoreio, e manter equilíbrio na gordura subcutânea.
Esse equilíbrio é considerado essencial para o processo industrial de transformação do músculo em carne, já que a gordura subcutânea funciona como proteção térmica durante o resfriamento da carcaça. Ao mesmo tempo, o aumento do marmoreio contribui para cortes mais suculentos e saborosos.
A virada com a genômica
A incorporação da avaliação genômica representou um avanço significativo na precisão das análises genéticas. A tecnologia permite identificar o potencial produtivo de um animal a partir da leitura de seu DNA, antes mesmo que ele produza descendentes.
Atualmente, o programa conta com 23.228 animais genotipados. O crescimento do uso dessa ferramenta tem sido acelerado: entre 2021 e 2025, o número de animais com análise genômica vinculada ao programa praticamente quintuplicou.
Para Luis Felipe Cassol, presidente do Conselho Deliberativo Técnico da Associação Brasileira de Angus, a ampla base genética da raça é um dos fatores que explicam sua adaptação aos diferentes sistemas produtivos brasileiros.
Segundo ele, a experiência acumulada mostrou que focar apenas em crescimento pode elevar as exigências nutricionais do rebanho além da capacidade de muitos sistemas de produção.
Por isso, o melhoramento busca um animal equilibrado, que combine desempenho produtivo, qualidade de carne e funcionalidade dentro do ambiente em que será criado.
Outro indicativo dessa adaptação é a seleção crescente por animais de pelame curto e liso, característica associada à melhor adaptação ao clima e às condições de produção do país.
Próximos desafios: eficiência e resistência
Com o aumento dos custos de produção na pecuária, novas características começam a ganhar importância nos programas de seleção. Entre elas estão a eficiência alimentar e a resistência a parasitas.
De acordo com Rochel, o objetivo é desenvolver animais capazes de manter altos níveis de desempenho e qualidade consumindo menos recursos e apresentando maior adaptação ao ambiente produtivo.
Para Cassol, o desafio do setor é continuar aprimorando um perfil de Angus equilibrado, que entregue produtividade e qualidade sem elevar excessivamente as exigências nutricionais dos rebanhos.
“A ampla base genética da raça permite trabalhar diferentes perfis de animais conforme o ambiente de produção, evitando que a busca por crescimento aumente excessivamente a exigência nutricional dos sistemas”, conclui.
Fonte: Associação Brasileira de Angus, adaptado pela equipe Feed&Food.
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