O estresse térmico representa um dos principais desafios para a produção leiteira no Brasil, país de ampla extensão territorial predominantemente localizado em zonas tropicais. As altas temperaturas combinadas com elevados índices de umidade, frequentes durante grande parte do ano, criam um ambiente adverso para os rebanhos leiteiros. Esse cenário compromete diretamente a saúde, o bem-estar e o desempenho produtivo dos animais, especialmente das vacas de alta produção, que geram considerável calor metabólico e possuem capacidade limitada de dissipação térmica.
O estresse térmico ocorre quando a taxa de ganho de calor pelo animal ultrapassa sua capacidade fisiológica dissipá-lo, fazendo com que ele se afaste do seu conforto térmico (ou zona termoneutra). Para vacas da raça Holandesa, essa faixa geralmente varia entre 5 °C e 20 °C, dependendo da umidade relativa do ambiente. Em condições de temperatura e umidade elevadas, o animal aciona mecanismos fisiológicos como aumento da frequência respiratória, sudorese e vasodilatação para tentar manter a homeotermia.
Contudo, essas respostas adaptativas alteram o metabolismo energético e influenciam o comportamento, podendo comprometer consumo, produção e bem-estar. Entre os principais sinais de estresse térmico destacam-se a elevação da temperatura retal (acima de 39,2°C), aumento da frequência respiratória para níveis superiores a 60 movimentos por minuto e a liberação do hormônio cortisol, que desencadeia mobilização de energia para a termorregulação.
A queda no consumo de matéria seca, essencial para manter a produção de leite, é um dos efeitos mais críticos do estresse calórico, influenciando negativamente a produtividade e a qualidade do leite, com redução do teor de gordura e sólidos totais.

Além do impacto imediato sobre a produção, o estresse térmico compromete a eficiência reprodutiva, reduzindo as taxas de concepção e prolongando o intervalo entre partos, fatores que amplificam as perdas econômicas.
Quando ocorre no período seco, seus efeitos são ainda mais críticos e prolongados. Estudos indicam que vacas submetidas a estresse térmico nessa fase apresentam queda na produção da lactação subsequente, menor sobrevivência de bezerros, baixo peso ao nascimento e imunidade comprometida, evidenciando a persistência e gravidade dessa condição.
Diante desse cenário, torna-se imprescindível a adoção de estratégias integradas para mitigar os efeitos do estresse térmico. Intervenções ambientais devem ser priorizadas, incluindo sombreamento natural ou artificial, sistemas de ventilação forçada e resfriamento evaporativo, especialmente em áreas críticas como salas de ordenha, corredores e locais de espera. Essas medidas visam reduzir a carga térmica ambiental e melhorar a dissipação de calor pelos animais, favorecendo a manutenção da homeotermia. O manejo nutricional desempenha papel estratégico na mitigação do estresse térmico. Garantir acesso constante a água limpa e fresca é crucial para a hidratação e manutenção do metabolismo. A dieta deve ser ajustada, priorizando fontes
proteicas de alta qualidade, energia balanceada, evitando excesso de calor metabólico associado à fermentação ruminal. É igualmente importante assegurar níveis adequados de fibra fisicamente efetiva para preservar a motilidade ruminal e prevenir distúrbios como acidose.
A inclusão de aditivos específicos, como tamponantes, tecnologia ICE e fontes de gordura protegida, pode contribuir para otimizar a eficiência energética e reduzir a produção de calor endógeno. Essas estratégias, quando aplicadas de forma integrada, ajudam a manter desempenho produtivo, saúde e bem-estar do rebanho mesmo sob condições ambientais adversas.
A variabilidade climática indica que o estresse térmico será um desafio crescente para a sustentabilidade da pecuária leiteira no Brasil. Investir em conhecimento técnico, monitoramento constante das condições ambientais e saúde animal, e adoção de tecnologias e manejos adequados serão fundamentais para garantir produtividade,
bem-estar animal e viabilidade econômica da atividade ao longo prazo.
Enfrentar o estresse térmico não é apenas uma questão de adaptar a produção às condições climáticas, mas um passo decisivo para a modernização e sustentabilidade da cadeia leiteira brasileira, garante alimento seguro e de qualidade para a população, ao mesmo tempo em que preserva a renda de milhares de famílias produtoras.
Hilton do Carmo Diniz Neto é gerente de produto para bovinos de leite da Cargill Nutrição e Saúde Animal.
LEIA TAMBÉM:
Cargill, GlobalGen e Ceva promovem Painel Top Leite Brasil 2025
Cargill destaca manejo de ambiência na 2ª Feira de Avicultura de Itaberaí
“Lugar de mulher é no protagonismo do agro”, afirma Bruna Galhardo, da Cargill Nutrição Animal





