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Estratégias de adaptação da pecuária de corte aos desafios climáticos – Parte II

À medida que a pecuária brasileira se torna mais eficiente, sua estabilidade produtiva passa a depender diretamente das condições ambientais estáveis.

Anna Ritta Tonial Grazziotin¹, Catarina Perera Reis², Giovana Giacomelli³, Mariana Leão da Cruz⁴ e Júlio Otávio Jardim Barcellos⁵

A expansão da pecuária no Brasil ocorreu, historicamente, de forma concomitante à conversão de grandes extensões do Cerrado, processo marcado por dinâmicas estruturais complexas envolvendo produção, uso da terra e fatores socioeconômicos. Entretanto, esse modelo vem sendo substituído por estratégias que priorizam o uso mais eficiente das áreas já abertas, evidenciado pelo aumento da produtividade sem expansão significativa das pastagens cultivadas. Entre 2004 e 2024, enquanto o rebanho cresceu cerca de 11%, a área de pastagens diminuiu proporção semelhante, passando de 181 para 160 milhões de hectares (ABIEC, 2025). Esse processo de intensificação sustentável, aliado à melhoria da qualidade do solo e da oferta de forragem, reduziu o ciclo produtivo, aumentou a eficiência alimentar e diminuiu a intensidade de emissões de metano (CH₄) por quilograma de carne.

À medida que a pecuária brasileira se torna mais eficiente, sua estabilidade produtiva passa a depender diretamente das condições ambientais estáveis. Abordagens alinhadas ao conceito de Saúde Única (One Health) reforçam essa visão ao integrar saúde animal, humana e ambiental. Nesse contexto, as mudanças climáticas e o aumento de eventos extremos intensificam o debate sobre sustentabilidade, destacando a necessidade de sistemas mais resilientes e ambientalmente equilibrados. Entre os fatores climáticos que afetam o desempenho dos rebanhos, o estresse térmico se destaca pelo impacto direto sobre a fisiologia e a reprodução dos bovinos.

Quando a temperatura ambiente se eleva acima da zona de conforto (Estresse Térmico), os bovinos sofrem uma série de alterações fisiológicas que comprometem diretamente a eficiência reprodutiva ao alterar o fluxo sanguíneo e mobilizar energia, antes utilizada para produção, para manutenção corporal. Nos touros, a exposição prolongada ao calor pode elevar a temperatura testicular, o que compromete a espermatogênese. Nas vacas, o estresse térmico compromete o balanço energético e prejudica o desenvolvimento folicular e a expressão de estro, além de aumentar perdas embrionárias iniciais. Em ambos os sexos, há alterações no eixo hipotálamo–hipófise–gonadal, com queda na secreção de hormônios essenciais para a reprodução, o que prejudica tanto a capacidade de serviço quanto a manifestação de libido.

Diante disso, práticas de manejo que favoreçam a dissipação de calor pelos animais tornam-se essenciais para preservar a fertilidade dos rebanhos. Tecnologias de processo, como sombreamento, acesso contínuo a água limpa e fresca, redução da lotação em períodos críticos e conduzir atividades de manejo nos horários mais amenos do dia atenuam a elevação da temperatura corporal e favorecem o desempenho produtivo do rebanho. Outras ações complementares, como  a adequação da estação de monta a períodos menos quentes diminui a exposição de vacas e touros ao estresse térmico nos momentos mais sensíveis da fertilidade, como a ovulação, o início da gestação e a fase final da espermatogênese. Essa estratégia auxilia a manter padrões mais regulares de ciclicidade, reduzir o risco de perdas embrionárias e preservar a qualidade seminal durante a estação de serviço. Em conjunto, essas ações favorecem condições mais estáveis para a concepção e geram lotes de nascimento mais uniformes ao longo da geração, além de facilitar o manejo nutricional e sanitário dos bezerros.

Embora ajustes de manejo reduzam parte dos impactos do calor, a tolerância térmica varia entre indivíduos. Essa diferença está associada a mecanismos celulares que protegem tecidos sensíveis durante episódios de estresse. Entre esses mecanismos, destacam-se as proteínas de choque térmico (HSPs), que atuam na preservação da integridade celular. As HSPs auxiliam na manutenção da estrutura de proteínas sensíveis ao calor, evitam danos oxidativos e protegem o tecido testicular, preservando a espermatogênese mesmo sob condições adversas. A expressão dessas proteínas varia entre indivíduos e grupos genéticos, tornando-se um indicador de adaptação: touros com maior expressão de HSPs apresentam melhor desempenho reprodutivo, maior tolerância ao calor e maior probabilidade de transmitir essa característica à progênie.

A identificação e a quantificação desses marcadores vêm sendo aprimoradas por pesquisas que buscam validar sua aplicação prática na seleção animal. Esse avanço abre caminho para que, no futuro, tais indicadores possam ser incorporados aos programas de avaliação e seleção genética, apoiando a formação de rebanhos com maior tolerância ao estresse térmico e às variações climáticas.

Os avanços na compreensão fisiológica e genética têm mostrado que estratégias adaptativas, integrando tecnologias de processo, planejamento reprodutivo e seleção para maior tolerância ao calor ganham relevância à medida que os cenários climáticos se tornam mais desafiadores. Com a maior frequência de eventos extremos, a capacidade de manter a produção estável e amenizar danos decorrentes do estresse térmico torna-se elemento importante para a resiliência dos sistemas. Nesse contexto, preparar rebanhos e sistemas produtivos para condições climáticas mais variáveis deve ser entendido não como ruptura, mas como continuidade do processo de modernização já em curso na pecuária brasileira. Como detentor de um dos maiores rebanhos comerciais do mundo, o Brasil tem condições de avançar nesse caminho, fortalecendo sua competitividade ao incorporar práticas que respondam de forma consistente às demandas climáticas emergentes.

¹ Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Med. Vet., NESPro/UFRGS.

² Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Zoot., NESPro/UFRGS.

³ Zootecnista, Mestranda PPGZoot NESPro/UFRGS.

⁴ Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Zoot., NESPro/UFRGS.

⁵ Med.Vet., Professor, Coordenador NESPro/UFRGS.

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