Comemorado hoje, 1º de junho, o Dia Mundial do Leite marca a valorização de um alimento essencial e chama para a reflexão sobre os principais entraves enfrentados pela cadeia leiteira nacional. No Brasil, onde a produção de leite ocorre em praticamente todos os estados e envolve uma ampla diversidade de sistemas produtivos — de pequenas propriedades familiares a operações de alta tecnologia —, os desafios são tão variados quanto os perfis dos produtores. Segundo especialistas, superá-los é fundamental para assegurar um futuro rentável, eficiente e sustentável para a atividade.
A nutrição inadequada é o primeiro e mais recorrente ponto de atenção. “Dietas com baixa oferta de energia e proteína comprometem a conversão alimentar, prejudicam a produção e o desempenho reprodutivo, e ainda afetam o escore corporal das vacas”, destaca Elissa Forgiarini Vizzotto, zootecnista, doutora em Nutrição e Produção de Ruminantes. Nesse cenário, a qualidade do pasto e das silagens assume papel central na manutenção da saúde e da produtividade dos animais. Além disso, a ineficiência reprodutiva — representada por intervalos entre partos (IEP) superiores a 12,5 meses e DEL (dias em lactação) médios inadequados — impacta negativamente a taxa de natalidade e eleva os custos com reposição. “Manter o DEL entre 150 e 180 dias é essencial para garantir que a maioria das vacas esteja nos estágios mais produtivos da lactação”, explica.
A saúde da glândula mamária também exige atenção constante. O teste do alizarol é um dos métodos utilizados para triagem da qualidade do leite, apontando alterações no pH que podem indicar problemas como mastite, imunidade baixa ou falhas sanitárias na ordenha. “Práticas como a terapia da vaca seca e o manejo sanitário adequado são fundamentais para a saúde do úbere e para assegurar a qualidade do leite entregue à indústria”, afirma Elissa. Outro fator crítico é o estresse térmico, que compromete o desempenho dos animais, especialmente em rebanhos de alta produção. “Temperatura elevada, alta umidade e radiação solar afetam diretamente o consumo de alimentos, a produção — com quedas de até 20% — e a eficiência reprodutiva dos animais”, alerta a especialista, que reforça que o monitoramento do Índice de Temperatura e Umidade (ITU), mantendo-o abaixo de 68, é indispensável para minimizar os impactos.

Ela também considera que a falta de escala de produção e de um planejamento estratégico também impactam negativamente a margem líquida por hectare. Além disso, a aquisição fragmentada de matérias-primas eleva custos e limita a competitividade. “O planejamento alimentar é uma ferramenta essencial que permite reduzir desperdícios, ajustar dietas e aproveitar as melhores oportunidades do mercado”, ressalta Elissa. Da mesma forma, a ausência de dados zootécnicos representa um entrave para a gestão de precisão. Ainda que ferramentas tecnológicas estejam disponíveis, o desafio está em interpretar os dados corretamente e transformá-los em ações práticas para o rebanho. “Ter dados e não usá-los é como ter uma bússola e não saber para onde ir”, compara. Por fim, as doenças de casco, responsáveis por cerca de 60% dos casos de claudicação, não apenas reduzem a produção, como também afetam a fertilidade, aumentam os casos de mastite e exigem tratamentos contínuos. “As afecções de casco devem ser vistas como um problema sistêmico, que compromete a saúde, o bem-estar e a rentabilidade do rebanho”, reforça.
Para Elissa, “celebrar o Dia Mundial do Leite é também um convite à reflexão”. E conclui: “A superação desses desafios exige ações integradas que envolvem nutrição de qualidade, gestão eficiente, bem-estar animal e uso inteligente de dados. Só assim será possível fortalecer a pecuária leiteira brasileira como atividade estratégica para a segurança alimentar e o desenvolvimento rural sustentável”.
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