A declaração do Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação, realizada há um ano pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) representou um avanço sanitário histórico. Resultado do Plano Estratégico do Programa Nacional de Erradicação da Febre Aftosa, a conquista, elevou o status sanitário brasileiro, abrindo portas para mercados internacionais exigentes nos protocolos de exportação.
Agora, em maio, a expectativa é que o reconhecimento seja oficializado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), que recebeu o pleito formal submetido pelo Brasil em agosto de 2024. Para obter essa certificação, o país precisou manter a suspensão da vacinação e proibir o ingresso de animais vacinados nas regiões avaliadas por um período de 12 meses.
Essa conquista é resultado de um trabalho conjunto entre Governos Federal e Estaduais, MAPA e pecuaristas. No entanto, traz novos desafios, especialmente no que diz respeito à manutenção da saúde do rebanho. Com o fim das campanhas de vacinação obrigatórias, há um risco de redução nas práticas sanitárias, o que pode comprometer a saúde, produtividade e rentabilidade do negócio.

Historicamente, a vacinação contra a febre aftosa funcionava como um “lembrete sanitário” importante. Muitos pecuaristas aproveitavam esse momento que levavam os animais para o curral para realizar outros manejos, como a vermifugação e aplicação de vacinas contra doenças como brucelose, raiva, clostridiose e diarreia neonatal. A ausência dessa rotina pode abrir espaço para o aumento de casos de verminoses e outras doenças que estavam sob controle graças a protocolos sanitários bem estruturados.
De acordo com um estudo da Revista Semina: Ciências Agrárias (UEM, 2019)¹, a presença de vermes e bactérias intestinais, como a clostridiose, pode causar sérios prejuízos em rebanhos de corte. Quando o controle desses parasitas não é feito de maneira adequada, os produtores podem perder até 27,6% no valor da arroba dos animais.
O impacto das verminoses vai além. Segundo o MAPA, essas infecções podem reduzir em até 30% a eficiência na conversão alimentar, além de afetar diretamente a reprodução e bem-estar dos animais. A EMBRAPA estima que os parasitas como carrapatos, moscas-do-chifre e vermes internos causem prejuízos de até US$ 14 bilhões por ano à pecuária brasileira.

Por outro lado, quando o manejo é feito com estratégias sanitárias bem definidas, os resultados são significativamente melhores. É o caso do protocolo 5-8-11, originalmente desenvolvido pela Zoetis e validado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Essa abordagem recomenda a aplicação de vermífugos em três períodos-chave do ano – maio (5) com Treo Ace, agosto (8) com Cydectin e novembro (11) novamente com Treo Ace. Os estudos mostraram que em propriedades que seguem esse calendário os animais podem ter ganho de até 20 kg graças à redução eficaz da carga parasitária.
Cada vez mais a responsabilidade pela saúde dos animais está nas mãos dos próprios pecuaristas. Com o fim da vacinação obrigatória contra a febre aftosa, manter uma agenda sanitária rigorosa para prevenção de outras ameaças aos animais é essencial. O protocolo 5-8-11 oferece uma solução prática e eficaz para garantir a saúde dos animais ao longo do ano, e deve ser mantido mesmo sem o estímulo das antigas campanhas de vacinação contra a febre aftosa.
É hora de celebrar a conquista – mas, acima de tudo, reforçar os cuidados. Cuidar da saúde do rebanho não é apenas uma medida preventiva – é uma estratégia de negócio inteligente. Investir em programas sanitários estruturados garante animais mais saudáveis, melhores índices de produção e mais lucratividade. Ao adotar o 5-8-11, o produtor contribui para o sucesso da sua propriedade e para a consolidação do Brasil como referência global em pecuária sustentável. Afinal, um rebanho saudável é a base de uma pecuária forte.
Referências
¹ Barbieri, J. de M., Blanco, Y. A. C., Lima, R. R. de, Lopes, M. A., Reis, E. M. B., Rocha, C. M. B. M. da, … Guimarães, A. M. (2016). Effects and costs of a strategic selective treatment for controlling ecto – and hemoparasitosis in Holstein Friesian calves. Semina: Ciências Agrárias, 37(5), 3133–3146.
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