Celebrado em 14 de julho, o Dia do Engenheiro de Aquicultura chama atenção para uma profissão que acompanha praticamente todas as etapas da produção de organismos aquáticos. Do planejamento de viveiros, tanques-rede e sistemas de recirculação ao manejo sanitário, à gestão ambiental e à aplicação de novas tecnologias, esses profissionais exercem funções estratégicas para o desenvolvimento da atividade.
A celebração remete à publicação, no Diário Oficial da União de 14 de julho de 2006, da Resolução nº 493 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea). A norma dispõe sobre o registro profissional do engenheiro de aquicultura e discrimina atividades relacionadas ao cultivo de espécies aquícolas, às estruturas de produção, ao manejo da qualidade da água e do solo, à nutrição, ao melhoramento genético, ao beneficiamento e à mecanização da atividade.
A relevância da profissão cresce à medida que a aquicultura amplia sua participação na produção de alimentos. Em 2024, o cultivo de animais aquáticos alcançou 103 milhões de toneladas no mundo e respondeu por 53% da produção global desses organismos, segundo o relatório SOFIA 2026, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
No Brasil, especificamente a produção de peixes de cultivo superou pela primeira vez a marca de 1 milhão de toneladas em 2025. Em dez anos, a piscicultura nacional acumulou crescimento de 58,6%, conforme o Anuário Brasileiro da Piscicultura 2026, da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR).
Profissão estratégica ainda é pouco conhecida
Para Aline Brum Figueredo Ruschel, engenheira de aquicultura, professora do Departamento de Aquicultura e subcoordenadora do curso de graduação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a data é uma oportunidade de ampliar a visibilidade da carreira.
“O Dia do Engenheiro de Aquicultura é uma oportunidade de dar visibilidade a uma profissão ainda pouco conhecida pelo público, mas estratégica para o país. O Brasil tem enorme potencial hídrico e territorial para a produção de proteína aquática, e é o engenheiro de aquicultura quem viabiliza esse potencial de forma técnica e sustentável, do planejamento de sistemas de produção ao manejo sanitário e ambiental”, afirma.

Fábio de Farias Neves, engenheiro de aquicultura, professor associado da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e coordenador de Pesquisa da Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação da instituição, avalia que a celebração também precisa ser acompanhada por ações de comunicação e aproximação com a sociedade. Os cargos e a formação dos dois entrevistados são confirmados pelas respectivas universidades.
Segundo Neves, quanto maior for a divulgação de informações sobre a formação, as competências e o campo de atuação, maiores serão as possibilidades de valorização da categoria.
“Trata-se de um profissional preparado para atuar em toda a cadeia produtiva, desde o planejamento e a implantação dos sistemas de cultivo até a gestão, o beneficiamento, a inovação tecnológica, a biossegurança e o acompanhamento da qualidade ambiental”, explica.

Crédito: Arquivo pessoal
Atuação percorre toda a cadeia produtiva
A formação em Engenharia de Aquicultura reúne conhecimentos de biologia, produção animal, qualidade da água, nutrição, sanidade, engenharia, economia, gestão e meio ambiente. Essa característica multidisciplinar permite a atuação com peixes, camarões, moluscos, algas e outros organismos aquáticos.
Aline explica que o profissional pode projetar e dimensionar tanques-rede, viveiros escavados e sistemas de recirculação de água, além de definir protocolos de manejo nutricional e sanitário, acompanhar a qualidade da água e implementar práticas destinadas à redução de impactos ambientais.
“O engenheiro de aquicultura atua em toda a cadeia produtiva: projeta e dimensiona sistemas de cultivo, define protocolos de manejo nutricional e sanitário, monitora a qualidade da água e implementa práticas que reduzem impactos ambientais”, destaca.
A professora acrescenta que esses profissionais também exercem papel relevante na incorporação de tecnologias capazes de aumentar a produtividade e a rastreabilidade. A associação entre conhecimento técnico e sustentabilidade permite que os empreendimentos busquem melhores resultados sem comprometer os recursos necessários à continuidade da produção.
Neves observa que ainda existe espaço para elevar a produtividade em propriedades nas quais a aquicultura é conduzida como uma atividade secundária ou complementar. Nesses casos, podem faltar planejamento, acompanhamento técnico, controle dos indicadores produtivos e adoção de práticas adequadas de manejo.
“A atuação do engenheiro de aquicultura é fundamental justamente para transformar esse potencial em uma produção mais organizada, eficiente, rentável e sustentável”, afirma.
Na área ambiental, o profissional pode contribuir para adequar os empreendimentos à capacidade de suporte dos locais de produção, reduzir impactos, tratar e reaproveitar efluentes e desenvolver sistemas integrados e circulares.
“Não se trata apenas de produzir mais, mas de produzir melhor, com responsabilidade ambiental, viabilidade econômica, segurança alimentar e respeito às comunidades envolvidas”, completa Neves.
Desconhecimento das atribuições limita oportunidades
Apesar da amplitude do campo de trabalho, os entrevistados avaliam que o reconhecimento da profissão ainda não acompanha todas as possibilidades abertas pelo desenvolvimento da aquicultura.
Aline aponta que a falta de conhecimento sobre as atribuições específicas do engenheiro de aquicultura pode gerar dúvidas em contratações, projetos, laudos técnicos e processos de responsabilidade profissional. A ampliação do mercado formal também permanece como desafio, principalmente em uma cadeia formada por muitos pequenos e médios produtores que ainda não contam com assistência técnica especializada.
“Some-se a isso a necessidade de mais investimento em pesquisa e extensão rural voltada à aquicultura, para que o conhecimento técnico chegue de fato ao produtor”, ressalta.
Neves identifica dificuldades semelhantes em concursos, editais, processos de licenciamento, órgãos públicos e contratações do setor privado. Na avaliação do professor, projetos conduzidos sem a participação de profissionais com formação específica podem apresentar falhas produtivas, econômicas, sanitárias e ambientais.
As condições de trabalho também variam entre as regiões brasileiras. Enquanto algumas possuem cadeias produtivas mais estruturadas, outras apresentam potencial para a atividade, mas ainda enfrentam limitações de infraestrutura, assistência técnica, crédito, regularização ambiental e organização dos produtores.
Para Neves, a formação acadêmica precisa permanecer conectada às novas exigências da produção. Gestão, empreendedorismo, automação, análise de dados, biossegurança e inovação aparecem entre os conhecimentos que devem ganhar espaço na preparação dos profissionais.
Inteligência artificial abre novas frentes
A modernização dos sistemas de cultivo tende a ampliar a procura por especialistas capazes de associar conhecimentos biológicos, engenharia, gestão e ferramentas digitais.
Aline destaca a aquicultura de precisão como uma das áreas que devem crescer nos próximos anos. Sensores, inteligência artificial e sistemas de monitoramento em tempo real podem apoiar decisões técnicas, melhorar o controle dos processos e ampliar a eficiência dos empreendimentos.
Também devem surgir oportunidades relacionadas ao uso racional de água e energia, à certificação, à rastreabilidade, à consultoria técnica, à pesquisa, ao desenvolvimento de novas cadeias produtivas e à estruturação de políticas públicas.
Neves acrescenta a esse cenário os sistemas de recirculação de água, os cultivos em ambientes controlados, a automação, a genética, a nutrição de precisão e as ferramentas de prevenção e diagnóstico de doenças.
A produção de algas e microalgas também pode ampliar o campo de atuação. Além da alimentação, esses organismos possuem aplicações potenciais nas indústrias de ingredientes, cosméticos, fármacos, fertilizantes, biocombustíveis e biomateriais.
Aquicultura marinha, sistemas multitróficos integrados, economia circular, aproveitamento de resíduos, tratamento de efluentes e adaptação dos cultivos às mudanças climáticas completam o conjunto de oportunidades citado pelo professor. O mercado também deve demandar empreendedores, consultores, pesquisadores, gestores públicos e profissionais voltados à inovação e à transferência de tecnologia.
Mais do que uma homenagem, o Dia do Engenheiro de Aquicultura evidencia a importância de uma profissão diretamente ligada ao futuro da produção de alimentos aquáticos. O avanço da atividade amplia as possibilidades de trabalho, mas também reforça a necessidade de tornar as competências desses profissionais mais conhecidas e ampliar sua presença nas propriedades, empresas, universidades, instituições públicas e espaços de decisão.




