O ácido ribonucleico (RNA) é uma molécula biológica presente em praticamente todos os organismos vivos, incluindo plantas, animais, fungos e microrganismos. Sua função central está relacionada à expressão gênica, atuando como intermediário entre o DNA e a síntese de proteínas essenciais à manutenção dos processos vitais. Nos últimos anos, avanços em biotecnologia têm permitido explorar o RNA como ferramenta para o manejo agrícola, especialmente por meio da tecnologia de interferência por RNA (RNAi).
Quem explica esta questão para a Feed & Food é Giuvan Lenz, engenheiro agrônomo da GreenLight Biosciences. Segundo ele, essa abordagem possibilita o silenciamento direcionado de genes específicos em organismos de interesse fitossanitário, como insetos-praga, patógenos e plantas daninhas, representando uma alternativa de alta precisão e baixo impacto ambiental em comparação aos defensivos químicos convencionais. “A interferência por RNA baseia-se na introdução de moléculas de RNA de fita dupla (dsRNA) que apresentam sequência complementar a um gene essencial do organismo-alvo”, ele explica. “Uma vez internalizado, o dsRNA é reconhecido pelo sistema celular de silenciamento gênico, que promove a degradação do RNA mensageiro correspondente, impedindo a tradução da proteína associada. A ausência dessa proteína compromete funções vitais do organismo, levando à sua inviabilidade”, diz Lenz.
A principal característica dessa tecnologia, segundo ele, é a elevada especificidade, uma vez que as sequências são projetadas para interagir exclusivamente com o gene-alvo, eliminando riscos para organismos não-alvo, incluindo polinizadores, inimigos naturais e vertebrados. “Além da seletividade, o RNA apresenta vantagens ambientais relevantes. Trata-se de uma molécula natural e biodegradável, rapidamente degradada pela ação da luz solar, temperatura e enzimas presentes no solo e na água”, detalha.
Essa característica reduz a possibilidade de acúmulo de resíduos persistentes no ambiente ou nos alimentos, atendendo às exigências de mercados que demandam práticas agrícolas sustentáveis e seguras, aponta o especialista.

Aplicações e benefícios
A tecnologia de RNAi pode ser aplicada no controle de diferentes classes de organismos nocivos à agricultura, incluindo insetos-praga de importância econômica, patógenos vegetais e plantas daninhas resistentes. “Sua eficácia é comparável à de defensivos químicos tradicionais, porém com vantagens adicionais, como a preservação da biodiversidade, a segurança e a redução do impacto ambiental. A flexibilidade de desenvolvimento permite criar sequências altamente específicas ou de espectro mais amplo, conforme a necessidade de manejo”, afirma Giuvan Lenz.
Outro aspecto relevante destacado por ele é a contribuição para o manejo da resistência. “Por apresentar um novo modo de ação, classificado pelo Comitê de Ação à Resistência de Inseticidas (IRAC) no Grupo 35 — supressores direcionados mediados por RNAi —, essa tecnologia pode ser integrada a programas de manejo integrado de pragas, retardando a evolução de populações resistentes”, diz.
Desafios técnicos e comerciais
Apesar do elevado potencial, a adoção em larga escala da tecnologia de RNAi enfrenta desafios técnicos e de mercado. “A estabilidade da molécula no ambiente agrícola é um dos principais entraves, uma vez que o RNA é naturalmente instável e se degrada rapidamente quando exposto a condições ambientais adversas. Por isso, a importância de formulações e sistemas de entrega capazes de proteger a molécula até que atinja o organismo-alvo, fator fundamental para garantir sua eficácia”, afirma.
Outro desafio está relacionado à eficiência de penetração e absorção pelo organismo-alvo, etapa crítica para que o RNA alcance o gene a ser silenciado. “Além disso, a produção em escala industrial requer processos economicamente viáveis e com padrões de qualidade consistentes, o que demanda investimentos em tecnologia de fabricação”, afirma.
Ele explica ainda que no campo regulatório, a novidade da tecnologia exige a construção de marcos específicos que assegurem a segurança e a eficácia dos produtos, além de estratégias de comunicação científica que promovam a aceitação por parte de produtores, consumidores e órgãos reguladores.
Perspectivas de mercado
No Brasil, a tecnologia de RNAi ainda é inédita, mas encontra um cenário altamente favorável para adoção, segundo o especialista. “O produtor brasileiro, reconhecido internacionalmente pela rápida incorporação de inovações e pelo interesse crescente em soluções sustentáveis, tem demonstrado abertura para ferramentas biotecnológicas avançadas, como evidenciado pelo crescimento do mercado de defensivos biológicos”, afirma. “Com seu potencial para controle direcionado de pragas, doenças e plantas daninhas, aliado à segurança ambiental e à contribuição para o manejo da resistência, o RNAi desponta como componente estratégico para programas de manejo integrado. O avanço em formulação, produção e regulamentação cria condições para que o Brasil assuma protagonismo global na implementação dessa tecnologia, fortalecendo a transição para sistemas agrícolas mais eficientes, competitivos e ambientalmente responsáveis”, finaliza Giuvan Lenz.
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