A escalada dos conflitos no Oriente Médio colocou o agronegócio brasileiro em alerta. Fortemente conectado ao comércio internacional, o setor já começa a sentir reflexos da instabilidade geopolítica, especialmente nos custos de insumos estratégicos e nas rotas globais de comércio.
Uma das principais preocupações está no mercado de fertilizantes nitrogenados. A ureia, amplamente utilizada em culturas como milho, café, cana-de-açúcar, trigo e pastagens, depende de uma cadeia produtiva fortemente vinculada ao Oriente Médio.
Segundo o professor de Direito e Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), Daniel Vargas, grande parte dos fertilizantes utilizados pelo Brasil é produzida em países que dependem do gás natural iraniano. Catar, Omã e Nigéria importantes fornecedores globais utilizam o insumo energético da região para fabricar o produto.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio indicam que o Brasil importou 7,7 milhões de toneladas de ureia no último ano. Mais da metade desse volume teve origem justamente nesses três países, o que evidencia a forte dependência externa do país no abastecimento desse insumo agrícola.
O aumento da tensão geopolítica já começa a afetar os preços. Segundo a consultoria Argus, produtores de fertilizantes no Oriente Médio suspenderam ofertas no mercado internacional enquanto avaliam os riscos logísticos e o nível de estoques disponíveis.
De acordo com João Petrini, responsável pela área de precificação de fertilizantes da Argus, a retirada temporária de ofertas reflete a incerteza sobre transporte e disponibilidade do insumo. Esse movimento tende a elevar os preços e pode dificultar o abastecimento caso o conflito se prolongue.
Mesmo assim, parte dos produtores brasileiros já antecipou a compra de fertilizantes. Com a safra de milho safrinha cerca de três quartos plantada, grande parte da primeira aplicação de nitrogenados já foi realizada. Ainda assim, especialistas estimam que entre 30% e 50% dos produtores ainda estejam expostos às oscilações do mercado internacional.
Outro fator de pressão vem do petróleo. Como o transporte no Brasil é majoritariamente rodoviário, o aumento no preço do barril impacta diretamente o custo logístico do agronegócio. A alta recente do petróleo adiciona pressão sobre o diesel, elevando despesas de transporte e distribuição.

Além disso, cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo passam pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica que enfrenta riscos diante da escalada militar na região. A ameaça às rotas de exportação adiciona um prêmio de risco ao preço do barril no mercado global.
Segundo estimativas da XP Investimentos, um aumento de 10% no preço do petróleo Brent pode elevar a inflação oficial brasileira em aproximadamente 0,25 ponto percentual. Esse impacto ocorre principalmente devido ao peso dos combustíveis e da logística no custo final dos alimentos.
O câmbio também entra na equação. Em cenários de instabilidade internacional, investidores tendem a buscar ativos considerados mais seguros, como o dólar. Esse movimento pode elevar o custo de importação de insumos agrícolas, embora também aumente a competitividade das exportações brasileiras.
No comércio exterior, o Irã permanece como um parceiro relevante do agronegócio nacional. Em 2025, o país importou US$ 1,98 bilhão em cereais brasileiros, além de volumes significativos de soja e produtos do complexo sucroalcooleiro.
O milho se destaca como o principal produto exportado para o mercado iraniano. No último ano, o país respondeu por cerca de 9 milhões de toneladas, o equivalente a 23% das exportações brasileiras do cereal.
Mesmo que o volume exportado não seja imediatamente afetado, o aumento do custo de produção do milho pode gerar reflexos em outras cadeias produtivas. O cereal é o principal componente da ração utilizada na produção de aves e também em parte significativa da pecuária de corte em sistemas de confinamento.
No setor de carnes, outro ponto de atenção é a logística internacional. O possível fechamento do Estreito de Ormuz pode elevar custos de transporte para exportações destinadas ao Oriente Médio, especialmente no mercado de carne halal.
Apesar das incertezas, especialistas destacam que o Brasil mantém posição relevante no fornecimento global de alimentos. Ainda assim, os desdobramentos do conflito devem ser acompanhados de perto, já que podem influenciar preços, logística e estratégias comerciais do agronegócio nos próximos meses.
Fonte: Adaptado pela equipe Feed&Food
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