O agronegócio brasileiro vive um processo acelerado de transformação, impulsionado pela convergência entre tecnologia, mudanças climáticas e fatores geopolíticos. Esse movimento tem levado empresas do setor a reverem seus modelos de negócio e a ampliarem suas fronteiras de atuação. Segundo o recorte setorial da 29ª Global CEO Survey da PwC, apresentado hoje (03) em uma entrevista coletiva, metade dos CEOs do agronegócio no Brasil afirma que suas empresas passaram a competir em novos mercados nos últimos cinco anos.
CEOs bem-sucedidos devem ser capazes de identificar riscos imediatos ao mesmo tempo que mantêm uma visão estratégica voltada a oportunidades de longo prazo. Essa tensão entre diferentes horizontes de tempo foi tema central da 29ª CEO Survey, que reuniu respostas de mais de 4.400 líderes de 95 países, incluindo o Brasil.
O levantamento mostra que o setor acompanha a tendência observada no país como um todo, onde 51% das organizações passaram a disputar novos espaços de mercado. Para os executivos do agro, a inovação ocupa papel central nessa estratégia: 63% consideram o tema um componente crítico de seus negócios, percentual acima da média global (50%) e também superior à média brasileira considerando todos os setores (56%).
A busca por inovação tem sido impulsionada, em grande parte, pela colaboração externa. No Brasil, 38% dos CEOs do agronegócio afirmam trabalhar em parceria com fornecedores, startups e universidades para acelerar processos inovadores — índice superior à média global, de 33%.
Apesar do movimento de reinvenção, a pesquisa revela que os líderes do setor ainda enfrentam forte pressão por resultados de curto prazo. Em média, 54% do tempo dos CEOs do agronegócio brasileiro é dedicado a temas com horizonte de até um ano, percentual acima da média global do setor, de 47%. Já as questões de longo prazo, com horizonte superior a cinco anos, ocupam apenas 15% da agenda desses executivos.
“Liderar nesse contexto exige capacidade de alternar rapidamente entre agendas e horizontes de tempo. Resta avaliar se essa alocação atual é a mais adequada para sustentar o desempenho e a competitividade no curto e no longo prazos”, avalia Mayra Theis, sócia e líder do setor de Agronegócio da PwC Brasil.

Inteligência Artificial começa a gerar resultados
A Inteligência Artificial desponta como um dos principais vetores de crescimento para parte do setor. De acordo com a pesquisa, 33% dos CEOs do agronegócio relatam aumento de receita após a adoção da tecnologia, enquanto 58% indicam que os impactos ainda foram pequenos ou inexistentes. Do ponto de vista de custos, os efeitos são semelhantes: um terço dos executivos aponta redução, associada principalmente a ganhos de eficiência e automação, enquanto 48% afirmam não ter observado mudanças relevantes.
Na média brasileira, considerando todos os setores, 28% dos CEOs relatam redução de custos com o uso de IA — percentual superior ao observado globalmente, de 26%.
O avanço tecnológico também traz reflexos sobre o mercado de trabalho. Para 60% dos CEOs do agronegócio, a expectativa é de redução na necessidade de profissionais em início de carreira nos próximos três anos. Já para cargos de nível médio e sênior, o impacto projetado sobre o quadro de pessoal é significativamente menor.
Otimismo cauteloso e riscos no radar
A edição mais recente da CEO Survey aponta ainda um recuo no otimismo dos líderes do agronegócio em relação à economia, tanto no cenário global quanto no local. Para os próximos 12 meses, 50% dos CEOs projetam aceleração do crescimento global, ante 66% no levantamento anterior. No caso da economia brasileira, 58% esperam um ritmo mais forte de crescimento, percentual inferior aos 76% registrados no ano passado.
A confiança no crescimento da receita das próprias empresas também diminuiu, passando de 48% para 38%, o que indica uma acomodação das expectativas diante de um ambiente mais desafiador.
No mapa de riscos, a inflação surge como a principal preocupação do setor. Para 35% dos CEOs do agronegócio, o tema representa alta exposição, índice acima da média brasileira de todos os setores, de 29%. As mudanças climáticas aparecem logo em seguida, citadas por 33% dos executivos — percentual significativamente superior ao observado na média nacional (18%) e global (23%). A instabilidade macroeconômica também preocupa 33% dos líderes do setor, patamar inferior à média brasileira, mas acima da global.
Em contraste, riscos cibernéticos e tecnológicos ainda têm peso relativamente menor no agronegócio quando comparados a outros setores. No entanto, essa percepção tende a mudar.
“Hoje, observamos que os riscos no setor ainda são menos complexos, mas, com o avanço da conectividade das máquinas e a maior complexidade na automatização dos processos, a tendência é que a preocupação com riscos cibernéticos e ameaças tecnológicas cresça no médio e no longo prazo”, conclui Mayra Theis.
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