Caroline Mendes, de Belo Horizonte (MG)
Ao participar do Avicultor Mais 2025, evento promovido pela AVIMIG em Belo Horizonte, o ex-ministro da Agricultura e Reforma Agrária Antônio Cabrera fez um alerta incisivo: os principais desafios do agronegócio brasileiro não estão nos embargos comerciais, nas disputas por mercado nem nas exigências ambientais impostas por países importadores, mas sim nas dificuldades geradas internamente pelo próprio Brasil.
Com base em sua experiência como gestor público e produtor rural, Cabrera construiu uma análise que mescla retrospectiva histórica e crítica contemporânea. Ele lembrou que, até os anos 1990, o Brasil era um dos maiores importadores de alimentos do planeta, incluindo carnes e grãos. “A virada só foi possível porque fizemos uma profunda abertura econômica no agro. Deixamos de tabelar preços, extinguindo estatais que controlavam o setor, e criamos um ambiente com mais liberdade para produzir”, afirmou.
Apesar dos avanços, o ex-ministro argumenta que o país ainda carrega entraves estruturais que limitam o potencial do agronegócio. Entre eles, destacou a elevada carga tributária, que desestimula a industrialização dos produtos agrícolas e transforma o Brasil em um exportador essencialmente de commodities. Segundo ele, a reforma tributária em discussão ignora pontos essenciais, como a competitividade da agroindústria nacional. “Enquanto na Alemanha se paga 7% de imposto sobre o café, aqui ultrapassamos os 30%. Com esse descompasso, é impossível atrair investimentos em beneficiamento e agregar valor aos nossos produtos”, criticou.

Cabrera também apontou a burocracia e a insegurança jurídica como entraves crônicos, que atrasam obras de infraestrutura e tornam imprevisível a vida de quem empreende no campo. Ele citou como exemplo a Ferrogrão, projeto logístico que reduziria drasticamente os custos e as emissões de carbono no escoamento da safra do Centro-Oeste. “Uma ferrovia com potencial ambiental e econômico gigantesco está paralisada por ações judiciais e entraves burocráticos financiados até por entidades estrangeiras”, alertou.
Outro ponto de preocupação recorrente foi a imagem do setor junto à sociedade. O ex-ministro apresentou dados de um estudo feito por um grupo de mulheres do agro sobre livros escolares utilizados nas redes públicas, que revelam que mais de 60% das referências ao agronegócio têm conotação negativa — a maioria delas sem qualquer embasamento técnico ou científico. “Estamos formando uma geração que vê o agro como destruidor, e não como setor que alimenta 229 países e territórios. Como essa juventude, mal informada, poderá legislar, julgar ou governar com responsabilidade sobre o setor?”, questionou.
Para Cabrera, o Brasil já possui as condições naturais e produtivas que o diferenciam globalmente — solo fértil, clima favorável, produtores qualificados e um mercado exportador robusto. Mas ainda enfrenta um ambiente institucional adverso. “O maior concorrente do agro brasileiro está dentro do Brasil: é o excesso de regras, taxas, licenças, barreiras e narrativas enviesadas”, concluiu.
Aos presentes, o ex-ministro deixou uma reflexão sobre a necessidade de o setor não apenas se defender, mas contar sua história com mais clareza e assertividade. “A agricultura brasileira é tecnologia pura, é eficiência comprovada. O que falta é comunicação estratégica e reconhecimento interno. O brasileiro precisa ter orgulho do agro como os franceses têm do vinho e os italianos da Ferrari”, finalizou.
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