Caroline Mendes, de Piracicaba (SP)
A seleção de bovinos de corte no Brasil percorreu um longo caminho — das pistas de exposições agropecuárias, onde o julgamento era predominantemente visual e empírico, até os modernos programas que combinam dados objetivos, avaliações genéticas e observação morfológica padronizada. Esse foi o eixo central da palestra do zootecnista Dr. William Koury Filho, diretor da Brasil com Z, durante o Simpósio Brasileiro de Melhoramento Animal (SBMA).
Com mais de 20 anos de experiência prática e acadêmica, Koury Filho destacou que a pecuária nacional é predominantemente formada por raças zebuínas, especialmente o Nelore, devido à sua adaptabilidade e eficiência reprodutiva nos trópicos. No entanto, reforçou que a busca por produtividade exige critérios de seleção cada vez mais alinhados à funcionalidade e à realidade de cada sistema de produção.
“O desafio é produzir animais eficientes para diferentes ambientes, conciliando qualidade de carne, precocidade, eficiência alimentar e características funcionais”, afirmou.
Do olhar experiente ao método padronizado
Apesar dos avanços nas ferramentas tecnológicas, o “olho humano” continua sendo um recurso valioso na seleção. Para reduzir a subjetividade e padronizar a avaliação morfológica, Koury Filho desenvolveu a metodologia EPMURAS — acrônimo para Estrutura, Precocidade, Musculosidade, Umbigo, Raça, Aprumos e Sexualidade.
O sistema atribui notas de 1 a 6 para cada característica, permitindo traduzir a observação visual em dados comparáveis e integráveis aos programas de melhoramento genético.
Entre os pontos de destaque da metodologia estão:
Estrutura corporal: tamanho e proporção do animal, influenciando seu potencial de crescimento.
Precocidade: relação entre profundidade de costelas e altura de membros, associada à capacidade de terminação e desempenho reprodutivo.
Musculosidade: volume de massas musculares em regiões-chave.
Características funcionais: aprumos corretos, umbigo bem conformado, expressão sexual adequada e padrões raciais preservados.

Conexão entre forma e desempenho
Segundo Koury Filho, estudos mostram correlações genéticas consistentes entre as notas visuais e dados objetivos, como área de olho de lombo, espessura de gordura, precocidade sexual e probabilidade de parto precoce.
Animais de biotipo mais precoce e musculoso tendem a apresentar melhor terminação de carcaça, maior eficiência reprodutiva e melhor adaptação ao pastejo, enquanto indivíduos excessivamente grandes podem ter manutenção mais onerosa e menor desempenho reprodutivo.
Seleção orientada para o sistema de produção
O palestrante ressaltou que não existe um “biotipo universalmente ideal”, mas sim perfis adaptados a objetivos e ambientes específicos. Um touro selecionado para confinamento intensivo pode não ter o mesmo desempenho em sistemas exclusivamente a pasto.
Nesse sentido, a integração entre dados de desempenho, avaliações genéticas e morfologia é essencial para direcionar o melhoramento e aumentar a sustentabilidade da pecuária.
Olhar para o futuro
A tecnologia deve potencializar essa integração. Koury Filho aposta na aplicação de inteligência artificial para coleta automatizada das medidas morfológicas, ampliando a padronização e a precisão da avaliação.
Para ele, a evolução do melhoramento genético brasileiro deve manter como meta a qualidade final do produto e a sustentabilidade, não apenas índices de ranking ou recordes de peso.
“O melhoramento genético é uma das principais ferramentas para uma pecuária mais eficiente e sustentável. Precisamos usá-lo para alinhar produtividade, qualidade de carne e preservação dos recursos naturais”, concluiu.
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