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Avanço de climas extremos expõe fragilidades do seguro rural tradicional

Eventos expõem limitações claras na capacidade de regulação em massa, ainda baseada em vistorias presenciais, com atrasos significativos no pagamento de indenizações

seguro rural

O avanço do clima extremo transformou o risco climático de um componente episódico em um fator estrutural da produção agrícola. O Brasil registra atualmente cerca de 4.500 eventos climáticos extremos por ano, e apenas no período de 2022 a 2024 as perdas econômicas associadas ultrapassaram R$ 180 bilhões, com mais de 50% concentradas no agronegócio.

De acordo com Daniel Miquelluti, Head de Novos Negócios em Tecnologia, Gestão de Risco e Inovação em Seguro Agrícola da Picsel, insurtech 100% especializada em seguro agrícola, em uma série mais longa, entre 2013 e 2024, os prejuízos acumulados com desastres climáticos no país somam aproximadamente R$ 730 bilhões, sendo cerca de R$ 326 bilhões na agricultura e R$ 94 bilhões na pecuária. “Esse cenário rompe premissas fundamentais do seguro rural tradicional, que foi concebido para eventos de baixa frequência e baixa correlação. A seca de 2021/22 no Sul do país ilustra esse ponto: em algumas regiões, as perdas produtivas superaram 50% e houve picos de sinistros atingindo cerca de 45% a 50% das apólices de soja e milho, frente a algo próximo de 8% na safra anterior”, explica. “Atuarialmente, isso significa concentração de pagamentos, elevação abrupta da sinistralidade e estresse severo sobre capital e resseguro. Operacionalmente, eventos dessa magnitude expõem limitações claras na capacidade de regulação em massa, ainda baseada em vistorias presenciais, com atrasos significativos no pagamento das indenizações em momentos críticos do ciclo produtivo”, detalha.

Miquelluti aponta que, de forma geral, o modelo atual não acompanha a nova dinâmica climática. A subscrição, segundo ele, ainda se apoia fortemente em médias históricas municipais, que não capturam a variabilidade intramunicipal nem refletem diferenças relevantes de solo, manejo, histórico produtivo e exposição climática. “Estudos e dados operacionais mostram que, dentro de um mesmo município, a produtividade e a frequência de perdas podem variar mais de 30% entre propriedades, algo que o modelo tradicional não precifica”, diz. “Isso gera distorções de prêmio, seleção adversa e perda de eficiência econômica. Para avançar, é necessário migrar para modelos baseados em nível de propriedade e talhão, integrando dados climáticos de alta resolução, séries históricas de produtividade, sensoriamento remoto e modelos estatísticos e de machine learning”, afirma. “Além disso, eventos extremos consecutivos, como os observados entre 2020 e 2023, demonstram a necessidade de mecanismos estruturais de absorção de risco catastrófico, como fundos de estabilização. No campo regulatório, embora o seguro paramétrico já seja reconhecido no Brasil desde 2021 e elegível à subvenção federal, sua participação ainda é marginal frente ao potencial, especialmente para riscos bem definidos como seca, excesso de chuva e geada. Por fim, a previsibilidade do orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, que historicamente cobre entre 20% e 40% do valor do prêmio e pode chegar a 45% em culturas específicas, é condição central para a sustentabilidade do sistema”, aponta.

Leia a matéria completa na edição 227 da revista Feed&Food

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