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Artigo: Interações entre sistemas socioeconômicos e recursos naturais devem estar na agenda dos líderes

Trabalho de 165 especialistas de 57 países procura embasar decisões de lideranças em todo o mundo
Por Marcelo Macaus
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Por: Ana Paula Turetta*

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A Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) lançou há alguns meses um sumário para tomadores de decisão do Relatório de Avaliação sobre as Interligações entre Biodiversidade, Água, Alimentos e Saúde, conhecido como Relatório Nexus. A publicação oferece a líderes de todo o mundo uma avaliação científica ampla sobre essas interconexões, explorando dezenas de análises sobre a maximização de benefícios no âmbito do nexus biodiversidade, água, alimentos, saúde e alterações climáticas.

O documento é o produto de três anos de trabalho de 165 especialistas de destaque, de 57 países de todas as regiões do mundo, incluindo o Brasil. Um webinar sobre a participação brasileira no relatório, inclusive, será realizado em 19 de maio, às 10h, com transmissão pelo YouTube (assista aqui). Órgão intergovernamental independente formado por quase 150 governos membros, o IPBES foi estabelecido em 2012 para fornecer a tomadores de decisão avaliações científicas objetivas e atuais sobre a biodiversidade do planeta, por meio da parceria de quatro agências das Nações Unidas (PNUMA, Unesco, FAO e PNUD).

Mas, afinal, o que significa nexus? Trata-se de uma abordagem que considera as interações entre sistemas socioeconômicos e recursos naturais. Essas interações nos mostram como usamos e gerenciamos os recursos naturais, sociais e econômicos, descrevendo as interdependências (ou seja, como esses recursos dependem um do outro), as restrições (muitas vezes impondo condições ou compensações) e as sinergias (que é o quanto os benefícios são potencializados e compartilhados). Por exemplo: algumas doenças parasitárias, quando tratadas apenas como um desafio de saúde, com o uso de medicamentos, tendem a gerar reinfecções. Mas, ao se considerar essas doenças dentro de uma abordagem integrada, que leva em conta a condição do ambiente, como a qualidade da água para o abastecimento de uma comunidade, estaremos tratando a causa do problema, o que irá gerar, além redução na ocorrência da doença, a melhoria na saúde e no bem-estar da população como um todo.

Esse é apenas um exemplo que ilustra as interconexões entre água e saúde, mas muitos outros podem emergir a partir da abordagem nexus, como aquelas que ocorrem entre alimento, água e energia. A agricultura influencia esses três componentes vitais para a nossa sobrevivência. Sabemos que solos saudáveis são a base para uma agricultura sustentável, aquele solo que é rico em matéria orgânica, com uma boa infiltração de água e diverso em sua biota. Esses fatores são fundamentais para, além de garantir a produção de alimentos saudáveis, também contribuir para o sequestro de carbono, regulação hídrica, controle de erosão e tantos outros serviços ecossistêmicos fundamentais para a nossa sociedade.

Nexus é uma abordagem que considera as interações entre sistemas socioeconômicos e recursos naturais que nos mostram como usamos e gerenciamos os recursos naturais, sociais e econômicos (Foto: Divulgação)

Ou seja, um solo saudável pode promover a geração de diversos serviços ambientais em áreas agrícolas que vão além da produção de alimentos, e que impactam outros elementos do nexus, como água e energia. E como fazer isso? A partir da adoção de práticas agrícolas conservacionistas, que são capazes de promover essa multifuncionalidade da agricultura.

O projeto Nexus Alimento-Água-Energia (A-E-E), liderado pela Embrapa Solos, com apoio do CNPq e em parceria com UFRRJ, USP São Carlos, Epamig e TNC, finalizado em 2022, avaliou o impacto de práticas rurais na segurança alimentar, hídrica e energética do município fluminense de Rio Claro, localizado no entorno do reservatório de Ribeirão das Lajes, importante fonte de água e energia para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. E os resultados comprovaram, por meio de indicadores desenvolvidos pela equipe, que paisagens rurais bem manejadas, a partir da adoção de práticas rurais conservacionistas, podem garantir segurança alimentar, hídrica e energética à sociedade.

O Brasil possui diversas tecnologias que se enquadram nessa categoria, tais como o sistema plantio direto (SPD) e os sistemas integrados, como o sistema agroflorestal e a integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Inclusive, esses sistemas são contemplados no Plano de Adaptação e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária (ABC+), que é uma agenda estratégica nacional do governo brasileiro para o enfrentamento à mudança do clima no setor agropecuário. E esse ponto nos leva a uma outra característica relacionada ao nexus, que é a identificação dos principais atores e partes interessadas (stakeholders) conectados ao nexo em questão, dos setores público e privado, fundamentais para a identificação das sinergias e compensações entre os setores considerados e que podem facilitar ou dificultar a gestão institucional. Um exemplo relevante dessa articulação é a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, cuja 30ª edição (COP30) reunirá líderes de todo o mundo em Belém (PA), em novembro deste ano.

Sobre a governança do nexus, o relatório da IPBES nos traz uma importante informação, apontando que a priorização de retornos financeiros de curto prazo, ignorando os custos globais para a natureza, que se refletem em impactos na biodiversidade, água, saúde e mudanças climáticas, incluindo a produção de alimentos, causa prejuízos na ordem de US$ 10-25 trilhões por ano.

Projeto Nexus Alimento-Água-Energia (A-E-E) é liderado pela Embrapa Solos (Foto: Divulgação)

Por isso, a mensagem-chave do nexus é a de que é necessário avaliar a integração entre os elementos considerados e identificar as sinergias e os trade-offs, o que dá a chance de maximizar os impactos positivos e minimizar os impactos negativos no sistema. Especificamente em relação à agricultura, essa abordagem oferece a oportunidade de transformar a paisagem rural por meio da adoção de práticas conservacionistas capazes de restaurar a qualidade das terras, aumentar a produtividade, diminuir os processos erosivos, otimizar o uso da água e a geração de energia e colaborar com o sequestro de carbono e com os processos de adaptação e mitigação das mudanças climáticas.

*Pesquisadora e chefe de P&D da Embrapa Solos

Fonte: Embrapa Solos

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