Por Caroline Mendes | caroline@dc7comunica.com.br
O cooperativismo é uma engrenagem essencial do agronegócio brasileiro. Em especial no setor de produção animal, as cooperativas vêm desempenhando um papel decisivo na organização da cadeia produtiva, no acesso a mercados e no fortalecimento da renda de pequenos e médios produtores rurais. Atualmente, mais da metade da produção nacional de grãos, lácteos, aves e suínos passa pelas mãos de cooperativas agropecuárias, evidenciando a força do modelo na estrutura da agropecuária brasileira.
Segundo o Anuário do Cooperativismo 2024, o Brasil conta com cerca de 4.500 cooperativas, reunindo mais de 23 milhões de cooperados. No ramo agropecuário, são aproximadamente 1.200 cooperativas, que empregam diretamente cerca de 550 mil pessoas e movimentam receitas da ordem de R$ 690 bilhões. Mesmo diante de desafios econômicos globais, o setor distribuiu mais de R$ 20 bilhões em sobras aos cooperados, reforçando a solidez do modelo.

Para Márcio Lopes de Freitas, presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), o cooperativismo é um motor silencioso da economia nacional. “Estamos falando de um modelo que democratiza o acesso à produção, valoriza o trabalho coletivo e garante mais estabilidade para o produtor rural. No campo, especialmente na produção animal, isso significa renda na porteira, assistência técnica, acesso a mercados internacionais e, acima de tudo, dignidade”, resume.
Protagonismo na produção animal
No campo da produção animal, os números impressionam. Dados recentes indicam que cooperativas são responsáveis por cerca de 50% da produção nacional de suínos, 46% do leite e 40% da produção de carne de frango. São também responsáveis por boa parte do abastecimento interno e da proteína exportada para dezenas de países.
Esse protagonismo é sustentado por estruturas robustas e eficientes. Um dos principais exemplos é a Frimesa, central paranaense que reúne cinco cooperativas filiadas (Copagril, Lar, C.Vale, Copacol e Primato) e opera nos segmentos de carne suína e laticínios. Em 2024, a Frimesa ultrapassou R$ 6,5 bilhões em faturamento, com exportações para mais de 20 mercados.

“Tudo o que fazemos é voltado ao cooperado. Quando ele prospera, a cooperativa cresce. Isso cria um ciclo positivo de investimento, inovação e competitividade”, afirma Elias Zydek, diretor-presidente da Frimesa.
Outro caso de destaque é a C.Vale, que atua na produção de grãos, leite, carne de frango e peixes. Com sede em Palotina (PR), a cooperativa reúne 26 mil associados e 13 mil colaboradores. Sua estrutura inclui modernos abatedouros, unidades de beneficiamento e fábricas de rações.
A Castrolanda, sediada em Castro (PR), também se destaca como uma das maiores produtoras de leite do Brasil. A cooperativa tem mais de 1.000 cooperados e produz anualmente mais de 370 milhões de litros de leite. Também é referência na suinocultura tecnificada.
Inclusão, inovação e reconhecimento
A atuação das cooperativas vai além da escala. Elas oferecem assistência técnica, acesso a crédito, programas de capacitação e ferramentas de gestão, contribuindo para elevar os padrões sanitários, ambientais e produtivos do campo.
“No cooperativismo, o pequeno produtor não está sozinho. Ele tem suporte técnico, orientação de manejo, e passa a ter condições de competir com os grandes. Isso é inclusão de verdade”, pontua Dilvo Grolli, presidente da Coopavel.
Nos últimos anos, o cooperativismo agropecuário também tem avançado no campo da inovação. Projetos como condomínios avícolas, startups voltadas para sanidade animal, sistemas de rastreabilidade e uso de inteligência artificial têm ganhado espaço dentro das estruturas cooperativas.

“A inovação deixou de ser diferencial e passou a ser sobrevivência. E o cooperativismo entendeu isso com muita clareza. Estamos investindo em pesquisa, conectividade no campo e digitalização de processos produtivos”, diz Leonardo Boesche, superintendente do Sistema OCB.
A importância do modelo também é celebrada todos os anos no Dia Internacional do Cooperativismo, comemorado no primeiro sábado de julho. Em 2025, a data foi celebrada com o tema “Cooperativas: Impulsionando Soluções Inclusivas e Sustentáveis para um Mundo Melhor”. No Brasil, a ocasião foi marcada por eventos presenciais, campanhas digitais e projeções em prédios públicos, reforçando a relevância das cooperativas na construção de um futuro econômico e social mais justo.
“É um momento simbólico, mas de muita relevância. Serve para lembrar que o cooperativismo é, acima de tudo, uma forma de fazer economia com valores humanos. E isso precisa ser celebrado e divulgado”, destaca Márcio Freitas.
Desafios e perspectivas
Apesar do crescimento, o setor enfrenta desafios importantes. A concentração de mercado, o aumento dos custos de produção, os entraves logísticos e a necessidade de ampliar a presença no mercado internacional estão entre os principais pontos de atenção para os próximos anos.
Ainda assim, o cooperativismo mantém uma trajetória sólida. As exportações realizadas por cooperativas brasileiras representam cerca de 7,1% do total do agronegócio nacional, equivalendo a mais de US$ 8 bilhões em 2024. Entre os principais produtos exportados estão carne de frango, carne suína, soja processada e café.

Para Márcio Freitas, da OCB, o futuro do cooperativismo passa pela sustentabilidade e pela agregação de valor. “Precisamos continuar cuidando das pessoas, da terra e do nosso modelo. O mundo olha para o Brasil como um celeiro global e nós temos que ocupar esse espaço com responsabilidade, profissionalismo e cooperação”, afirma.
Na produção animal, o cooperativismo brasileiro é mais do que uma estrutura econômica: é uma estratégia coletiva de sobrevivência, desenvolvimento e protagonismo. Ao unir tradição, inovação e responsabilidade social, as cooperativas seguem como vetores essenciais para o futuro sustentável do agronegócio brasileiro.




