Reduzir custos, preservar a margem do produtor e transformar tecnologia em resultado estiveram no centro do segundo dia do IFC Brasil 2026, realizado nesta quinta-feira (3), em Foz do Iguaçu (PR). A programação reuniu especialistas para discutir a competitividade da tilápia e os caminhos tecnológicos capazes de sustentar o crescimento da aquicultura brasileira.
Os debates passaram por ração, crédito, preços, eficiência, aproveitamento de coprodutos, inteligência artificial, automação e novos modelos produtivos. Em comum, as discussões apontaram que aumentar a produção não basta: o avanço da atividade depende de rentabilidade e capacidade de adaptação. Presidente do IFC Brasil, Altemir Gregolin avalia que a aquicultura brasileira atravessa um momento importante de expansão.
“Nós estamos num momento de virada, eu não tenho dúvida em relação a isso, e com um grande potencial de crescimento”, afirmou.
Para Gregolin, entretanto, o setor ainda precisa enfrentar questões como licenciamento ambiental, crédito, custos, tributação, segurança jurídica e políticas públicas. “Eu acho que a gente precisa de políticas públicas mais efetivas para poder impulsionar de forma definitiva o setor”, disse.
“Se nós pensarmos em competir em nível global, nós precisamos aumentar nossa eficiência, aumentar a produtividade e reduzir custos de produção”, acrescentou.
A CEO do IFC Brasil, Eliana Panty, também colocou tecnologia e gestão entre os fatores necessários para enfrentar margens mais estreitas. Segundo ela, automação, inteligência artificial e monitoramento ganharam espaço em um setor que também enfrenta dificuldades relacionadas à mão de obra. “A cada ano essa régua sobe”, afirmou.
Para Eliana, parte das variáveis que afetam a produção está fora do controle do piscicultor, enquanto dentro da propriedade existem oportunidades para melhorar a tomada de decisão. “A palavra, eu acho que é gestão e precisão”, resumiu.
CUSTO DA PRODUÇÃO PRESSIONA MARGEM
No painel “Competitividade da tilápia brasileira e suas perspectivas: Preços, Custos e Rentabilidade”, Eduardo Ono, engenheiro agrônomo, pós-graduado em Aquicultura e representante da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), colocou a alimentação no centro da discussão econômica. “O primeiro item que sempre pesa no custo operacional da produção de tilápia é a ração”, afirmou.
Segundo Ono, a ração pode representar entre 70% e 80% do custo operacional, dependendo do sistema produtivo e da região. A competitividade, porém, não termina dentro da propriedade: transporte, processamento, embalagem, logística, energia, mão de obra e custo financeiro também entram na conta. “O aspecto da competitividade dessa cadeia da tilápia vai muito além dos custos do piscicultor”, explicou.
Em entrevista exclusiva à Feed&Food, Ono estimou que o custo de produção de um produtor independente está atualmente na faixa de R$ 7 a R$ 8 por quilo. Em estruturas integradas ou verticalizadas, apontou valores próximos de R$ 6,30 a R$ 6,50. Para disputar o mercado internacional com maior competitividade, ele considera necessário aproximar esse custo de R$ 5.

“Se a gente quiser ser competitivo de verdade no mercado internacional, nós estaríamos falando num custo de produção em torno de R$ 5”, afirmou.
Ono defende ainda que indicadores zootécnicos, como conversão alimentar, sobrevivência e ganho de peso, sejam acompanhados pelo efeito que produzem na conta final.
“Eu acho que o item principal é o retorno econômico”, disse. “No frigir dos ovos, o que o produtor precisa saber exatamente é quanto está sobrando de margem de lucro.”
O melhor aproveitamento do pescado também pode contribuir para a rentabilidade. Durante o debate, Ono defendeu a busca por destinos de maior valor para os coprodutos originados no processamento.
“Se a cadeia do pescado não conseguir colocar valor em todos os subprodutos que saem de lá, é uma cadeia que não vai conseguir sobreviver”, afirmou.
OFERTA CRESCENTE EXIGE MERCADO
Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), analisou a competitividade da tilápia pela relação entre produção, preços e mercado.
“Mesmo assim, temos uma tilápia competitiva”, afirmou. “É olhar a nossa eficiência produtiva, como reduzir mais esse custo para ter uma margem melhor.”
Carvalho alertou que a expansão da produção precisa ser acompanhada pela capacidade de absorção do mercado interno e pelo avanço das exportações. Caso contrário, uma oferta maior pode aumentar a pressão sobre preços e rentabilidade.

“Se aumentar a produção, o preço cai. Então, a gente tem que entender um pouquinho que o aumento da produção joga uma pressão no mercado”, explicou. Na avaliação do pesquisador, o momento exige atenção para a combinação entre produção nacional, importações e demanda.
“É um cenário de maior oferta interna e importação e uma demanda que cresce, mas não o suficiente para equilibrar o mercado”, avaliou.
ECONOMIA AZUL AMPLIA APROVEITAMENTO
A inovação ganhou espaço no painel “A Nova Aquicultura – Inovações que transformam os sistemas de produção e os processos ao longo da cadeia”. Felipe Matias, engenheiro de pesca e cientista-chefe da Economia Azul no Ceará, defendeu modelos capazes de integrar atividades e transformar materiais antes descartados em novas fontes de valor. “A produção de pescado é um segmento da economia azul, ela não é a economia azul”, explicou.
A proposta é adaptar os sistemas à realidade de cada região e aproveitar melhor fluxos de água, energia, biomassa e nutrientes. Nesse modelo, materiais provenientes do processamento podem ganhar novos usos em outras atividades. “O que era lixo, que era resíduo, passa a ser insumo de uma outra cadeia que vai gerar valor lá na frente”, afirmou.

Matias ressaltou que o avanço tecnológico também precisa alcançar os pequenos produtores, com apoio de pesquisa, extensão e assistência técnica. “O desafio é como que esta tecnologia consegue chegar para os pequenos”, disse. Para ele, a análise econômica deve continuar no centro da produção.
“A aquicultura não é campeonato de quem tem maior produtividade. Ela tem que fazer aquela família, aquele pequeno ganhar dinheiro”, afirmou. “Às vezes, é melhor a gente ter mais rentabilidade do que produtividade.”
TECNOLOGIA PRECISA GERAR RETORNO
Adolfo Alvial, diretor-executivo do Clube de Inovação Aquícola, do Chile, apontou inteligência artificial, biotecnologia e tecnologias digitais entre as ferramentas com potencial para acelerar mudanças na produção. Em entrevista em espanhol à Feed&Food, ele destacou, porém, que uma tecnologia só se transforma efetivamente em inovação quando gera valor.
“Posso ter um desenvolvimento tecnológico, posso ter uma invenção, mas não será inovação até que se transforme em valor concreto para a empresa e para a atividade”, afirmou, em tradução do espanhol.
Entre as aplicações já disponíveis estão sistemas de alimentação que utilizam câmeras, visão computacional e algoritmos para acompanhar o comportamento dos peixes. A tecnologia permite ajustar a oferta de ração de acordo com sinais de fome e saciedade, com o objetivo de reduzir desperdícios e melhorar a eficiência.
O monitoramento também pode auxiliar na identificação precoce de alterações comportamentais associadas a problemas sanitários. Para Alvial, entretanto, a conta precisa fechar antes da adoção de qualquer solução.
“Ninguém deve investir e gastar em algo que encareça a produção e não gere benefícios. Não tem lógica. Isso é um negócio”, afirmou.

Ele também defendeu que experiências tecnológicas desenvolvidas na aquicultura chilena sejam adaptadas, e não simplesmente copiadas, para as necessidades brasileiras. Em alguns casos, a adoção conjunta pode tornar soluções mais acessíveis para empresas e produtores menores. “Tem que colaborar. É um tempo diferente na aquicultura. Colaborar é essencial”, destacou.
Além dos equipamentos, Alvial chamou atenção para a qualificação das pessoas que utilizarão essas ferramentas. Segundo ele, profissionais e técnicos preparados serão fundamentais para que a inovação resulte em ganhos reais.
“Os problemas de hoje são tão complexos, e o futuro vai ser tão complexo, que ninguém sozinho pode gerar as soluções do amanhã”, concluiu.
O IFC Brasil 2026 encerra sua programação nesta sexta-feira (4), em Foz do Iguaçu. A 8ª edição reúne congresso técnico, feira e atividades voltadas à produção, mercado, pesquisa e inovação na cadeia do pescado.



Nenhuma discussão ainda. Seja o primeiro a comentar.