O primeiro dia do Encontro de Intensificação e Pastagens (EIP) 2026 colocou uma mesma questão diante de diferentes elos da produção: em um ambiente de preços, custos, câmbio e clima mais voláteis, como transformar oportunidade de mercado em resultado dentro da propriedade? Realizado nesta quarta-feira (23), em Ribeirão Preto (SP), o encontro reuniu análises de mercado pela manhã e experiências de integração produtiva à tarde.
Da formação dos preços dos grãos à oferta futura de bovinos, passando pelas exportações de carne, a mensagem construída ao longo da manhã foi de que boa parte das variáveis está fora do controle do produtor. À tarde, o foco mudou justamente para aquilo que pode ser administrado dentro da porteira: uso da área, nutrição, diversificação, equipe, custos e produtividade.
Preço vem do mercado; margem passa pela gestão
Na abertura técnica, José Carlos de Lima Jr., da Markestrat Group e da Harven Agribusiness School, percorreu a formação dos preços agrícolas a partir de demanda, logística, custos, crédito e insumos. Ao relacionar esse ambiente à gestão da fazenda, resumiu: “A margem, ela não está no mercado. Ela está na gestão”.
Para José Carlos, tentar acertar exatamente o ponto máximo ou mínimo das cotações é menos importante do que entender a tendência e proteger o resultado. “Não tem que acertar o olho do mosquito. Eu tenho que acertar a direção que o mosquito está voando”, afirmou. Gestão de custos, eficiência e gerenciamento de risco, segundo ele, tornam-se fundamentais diante da volatilidade.

A discussão avançou no painel “O mercado fala. Você está ouvindo?”, com Alcides Torres, Felipe Fabbri, Juliana Pila e Pedro Gonçalves, da Scot Consultoria. A programação concentrou as análises sobre cria, reposição, boi gordo, demanda e leite.
Pedro Gonçalves chamou atenção para a valorização da reposição e para a mudança de fase do ciclo pecuário. “A gente já está passando pelo ano da cria”, afirmou. Segundo os dados apresentados, o bezerro vem ganhando valor mais rapidamente que o boi gordo, piorando a relação de troca de quem precisa recompor o rebanho. A exportação de bovinos vivos também foi apontada como uma demanda adicional, especialmente em regiões mais expostas a esse mercado.

Felipe Fabbri concentrou a análise no boi gordo e na capacidade de sustentação dos preços. Mesmo diante da discussão sobre uma arroba próxima de R$ 400, ele ponderou que a cotação isoladamente não define o resultado. “O preço, ele é uma consequência”, afirmou. A leitura considera retenção de fêmeas, oferta de animais, demanda doméstica e condições de exportação.

Em entrevista exclusiva à Feed&Food, Alcides Torres, fundador da Scot Consultoria, reforçou que o produtor precisa ampliar a margem para atravessar momentos adversos. Para ele, a resposta passa por “um bom planejamento, uma boa gestão e usar aquelas técnicas que deem mais retorno”.
Torres também avaliou que a retenção de fêmeas pode alterar o perfil dos abates e da oferta nos próximos meses, mas não elimina o comportamento cíclico da pecuária. A decisão, segundo ele, precisa considerar as características de cada propriedade e as tecnologias capazes de entregar retorno, em vez de simplesmente acompanhar a alta das cotações.

No leite, Juliana Pila mostrou que a intensificação também vem mudando a estrutura produtiva. “A pecuária leiteira vem cada vez mais se intensificando”, destacou. Em levantamento apresentado no painel, o número de produtores analisados caiu 30% entre 2021 e 2025, enquanto o volume médio produzido aumentou cerca de 165%. Outro dado mostrou que menos de 1% dos produtores acima de 7 mil litros diários respondem por quase 20% da produção considerada.

China, câmbio e oferta mantêm incerteza no radar
A dimensão internacional ficou a cargo de Leonardo Alencar, head do setor de Agro, Alimentos e Bebidas na área de Research e sócio da XP Investimentos. Sua análise passou por oferta de gado, mercado doméstico, câmbio, competitividade entre proteínas e destinos das exportações brasileiras.
Alencar destacou o peso adquirido pelo mercado chinês na cadeia brasileira. “Na prática, o Brasil é dependente da China”, afirmou, acrescentando que a relação também envolve dependência chinesa da oferta brasileira. Com mudanças no ritmo de compras, mercados como Estados Unidos e Oriente Médio ganham peso na redistribuição dos embarques.
No cenário-base apresentado pela XP, a disponibilidade doméstica de carne bovina deve diminuir no último quadrimestre. “A resposta base aqui é essa, vai faltar carne no mercado doméstico no final do ano”, disse. O próprio Alencar, porém, ressaltou em seguida que se trata de um exercício sujeito à oferta de animais, às exportações e, principalmente, ao câmbio: “É mais uma provocação, é mais um exercício do que é uma resposta”.

Da leitura do mercado para as decisões dentro da fazenda
Se a manhã mostrou fatores que o produtor não controla diretamente, a tarde levou o debate para as ferramentas disponíveis dentro do sistema produtivo. O bloco de integração reuniu Pedro Arthur de Albuquerque Nunes, Gabriel Garcia Nascimento, Willian Matté e Pedro Veiga, com abordagens sobre clima, integração lavoura-pecuária, diversificação e nutrição.
Pedro Arthur, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), relacionou diversidade e integração à construção de sistemas mais resilientes diante da variabilidade climática. Durante o debate, também chamou atenção para a necessidade de adaptação permanente na implantação dessas tecnologias. “A gente tem que estar sempre aberto à melhoria e à mudança”, afirmou. Para ele, conhecimento técnico precisa chegar também às equipes responsáveis por executar o sistema no dia a dia.

Gabriel Garcia Nascimento, do Grupo GN Agropecuária, apresentou resultados de intensificação obtidos na propriedade. Entre 2019 e 2025, segundo os números mostrados no evento, o rebanho médio passou de cerca de 3,6 mil para 6 mil animais mesmo com redução da área de pastagens. A produtividade apresentada saiu de 7,2 para 23,3 arrobas por hectare, enquanto a produção anual se aproximou de 58 mil arrobas.
O avanço exigiu reforma de pastagens, melhoria na distribuição de água, ajustes de infraestrutura, nutrição, monitoramento e maior sincronização entre agricultura e pecuária. “Menos área, mais arroba produzida”, resumiu Gabriel. A Scot Consultoria informou ainda que a experiência apresentada envolveu redução de 27% da área utilizada, acompanhada por aumento da produção.

Willian Matté, produtor rural e sócio do Grupo MeC, apresentou um modelo em que lavouras, bovinos, plantas de cobertura e resíduos são tratados como partes conectadas do mesmo sistema. Em uma área acompanhada pelo grupo, ele relatou aumento de 14% na produtividade da soja após a entrada dos animais, além de efeitos observados sobre raízes, ciclagem de nutrientes e estrutura produtiva.
Mais do que diversificar, Matté defendeu medir cada atividade para saber o que efetivamente entrega resultado. “O primeiro ponto é a gente medir, senão a gente só passa a ter uma opinião”, afirmou. O controle inclui centros de custos separados, retorno por atividade e acompanhamento dos indicadores utilizados na tomada de decisão.

Nutrição fecha a integração entre solo, pasto e animal
Pedro Veiga, gerente global de Tecnologia de Bovinos de Corte da Cargill Nutrição Animal, encerrou as apresentações abordando a nutrição em sistemas integrados. Segundo ele, o desempenho dos animais varia conforme espécie forrageira, carga, tempo de pastejo, categoria, lotação e estratégia de suplementação. Na própria apresentação, mostrou lotes com diferenças expressivas de ganho diário dentro de uma mesma fazenda, reforçando que a integração não elimina a necessidade de ajuste fino do manejo.
Em entrevista exclusiva à Feed&Food, Veiga explicou que a lotação deve acompanhar a quantidade de forragem disponível e que o sistema precisa preservar massa residual para a lavoura seguinte. “O erro que a turma comete, às vezes, é tirar toda a palha e não ter palha de cobertura, aí, sim, eu posso ter problema da lavoura”, afirmou.
Para o consultor, a suplementação também precisa considerar as características nutricionais do pasto produzido em sistemas integrados. A lógica é aproveitar a forragem disponível sem comprometer a cultura subsequente, tratando solo, planta e animal como componentes de uma mesma estratégia produtiva.

No debate que encerrou o bloco, os participantes convergiram em três pontos: integração exige implantação criteriosa, pessoas capacitadas e capacidade de medir resultados. A discussão reforçou que intensificar não significa simplesmente elevar gastos ou aumentar lotação, mas fazer cada hectare entregar mais resultado com controle técnico e econômico.
O primeiro dia do EIP 2026, assim, conectou as duas pontas da decisão. O produtor não define sozinho o preço das commodities, o câmbio ou o comportamento dos mercados compradores. Mas pode ampliar sua capacidade de reação ao conhecer custos, proteger margem, ajustar nutrição, integrar atividades e elevar a produtividade da área transformando o preço em apenas uma das variáveis da conta.



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