Camila Santos, de Campinas (SP)
“Não tem bala de prata, o que funciona é biosseguridade. Mas só enfrentamos a crise porque soubemos comunicar com clareza e transparência”. Foi com essa mensagem que Ricardo Santin, presidente da ABPA, abriu o painel “O papel da comunicação na gestão de crises: o caso Influenza Aviária”, primeiro tema da 41ª Conferência FACTA WPSA-Brasil 2025, realizada em Campinas (SP).
Em sua fala, Santin ressaltou o protagonismo do Brasil na produção e exportação de carne de frango — responsável por quase 40% do market share global — e apontou que esse destaque só é sustentável porque o setor aprendeu a se comunicar em momentos críticos. O exemplo mais marcante foi a Influenza Aviária: mesmo com um caso isolado em plantel comercial, o país manteve a credibilidade internacional, preservando mercados e garantindo abastecimento interno.

Segundo ele, a coordenação entre setor privado e governo foi decisiva. Um plano de comunicação estruturado, alinhado ao Ministério da Agricultura, evitou ruídos e deu segurança ao mercado consumidor e importador. “Só falava uma pessoa pela ABPA, sempre após a posição oficial do Ministério. Essa disciplina, somada à transparência, fortaleceu a confiança na nossa resposta”, explica.
Santin lembrou ainda que, em contraste com países como Estados Unidos e União Europeia, que enfrentaram perdas bilionárias, o Brasil registrou impactos muito menores — queda média de apenas 1,7% no volume exportado, compensada por alta de 1,1% na receita no período crítico. “Foi uma vitória imensa: não faltou comida no Brasil, nem no mundo. Só ficou sem produto brasileiro quem optou por barreiras protecionistas”, destaca.
O dirigente também defendeu a necessidade de revisão das regras internacionais de restrição comercial diante da Influenza Aviária. Segundo ele, o princípio da precaução, que justificava bloqueios totais, não corresponde mais à realidade científica. “Se não há transmissão pelo consumo da carne, não faz sentido fechar mercados inteiros. Quem paga essa conta são os consumidores mais pobres, que ficam sem acesso a proteína de qualidade”, afirma.
Encerrando sua participação, Santin reforçou a mensagem central: biosseguridade e comunicação caminham juntas como pilares da resiliência da avicultura brasileira. “Nos preparamos para o que não queríamos que acontecesse. Aconteceu, mas estávamos prontos — e isso fez toda a diferença.”
WPSA: Comunicação de risco foi tema do MAPA
Ao participar do painel de abertura, Carlos Goulart, secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), trouxe a perspectiva do governo sobre a gestão da Influenza Aviária e da Doença de Newcastle.
Segundo Goulart, o Brasil viveu um dos maiores testes de sua história em defesa agropecuária — e o diferencial esteve na capacidade de reação e na comunicação de risco. “Não existe sistema imune a crises. O que nos garante sucesso é a rapidez em reagir, tanto na ação como na comunicação”, afirma.
Ele explicou que comunicação de risco não significa apenas informar, mas organizar quem fala, o que fala e quando fala, respeitando os limites entre governo e setor privado. Esse alinhamento, segundo o secretário, evitou ruídos que poderiam prejudicar negociações internacionais. “Às vezes, não falar também é comunicação de risco. Nosso objetivo era diminuir a fervura e trazer tranquilidade para um setor altamente pressionado”, diz.
Entre os aprendizados, Goulart destacou:
- Coordenação diária entre MAPA e entidades privadas, definindo pontos de fala;
- Monitoramento constante da mídia e redes sociais, para evitar desinformação;
- Integração interministerial, com meio ambiente e saúde, no Centro de Operações de Emergência (COE);
- Transparência reforçada, com atualização em tempo real do painel da Influenza, evitando acusações de omissão.
O secretário também criticou o protecionismo internacional em torno da Influenza Aviária, defendendo maior regionalização e revisão das regras na Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). “Não há justificativa técnica para a União Europeia manter restrições. O Brasil atualiza dados em tempo real, mas ainda enfrenta barreiras políticas e econômicas”, afirma.
Para Goulart, a experiência brasileira demonstra que a confiança internacional se constrói com disciplina e cooperação. “Não há como ter sucesso em crises desse porte sem absoluta organização entre setor público e privado. Quanto melhor a comunicação, menor o impacto e mais rápida a retomada da normalidade”.
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