A rentabilidade da tilapicultura brasileira enfrenta um cenário mais desafiador no segundo semestre de 2026, marcado pelo enfraquecimento dos preços pagos aos produtores, pela pressão dos custos alimentares e pelo avanço das importações de filé. Em meados de outubro, o quilo da tilápia era negociado a R$ 10,05 no Norte do Paraná, R$ 9,45 na região dos Grandes Lagos e R$ 9,32 no Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba. As cotações evidenciam a perda de força do mercado após o período de valorização registrado no início do ano.
Em entrevista à Feed&Food, Manoel Pedroza, pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura na área de Economia Aquícola, e Onivaldo da Rocha, engenheiro de pesca e doutor em Recursos Pesqueiros e Aquicultura, explicam que os primeiros meses de 2026 foram favorecidos pela demanda da Quaresma e pelo recuo anterior dos preços da ração. Em janeiro, a relação de troca entre a tilápia e a alimentação proporcionou ao produtor o maior poder de compra para aquele mês desde o início da série histórica do Cepea, em julho de 2021. Entretanto, com a redução do consumo durante o inverno e a recuperação da oferta, o cenário mudou.
No início de abril, o quilo da tilápia chegou a R$ 10,45 no Norte do Paraná, R$ 10,22 no Triângulo Mineiro e R$ 10,02 nos Grandes Lagos. Em outubro, esses valores estavam abaixo dos níveis observados após a Quaresma. Para os pesquisadores, mesmo quando as cotações nominais se aproximam das registradas em janeiro, o efeito da inflação reduz a remuneração real. O poder de compra do piscicultor frente à ração com 32% de proteína também caiu pelo terceiro mês consecutivo em setembro, refletindo a combinação entre preços menores do peixe e valorização dos ingredientes utilizados na alimentação.
Ração e eficiência produtiva pressionam as margens
O custo alimentar permanece como um dos principais desafios econômicos da atividade, especialmente diante das oscilações do milho e do farelo de soja. “A ração continua sendo o principal item de custo de produção, o que acaba deixando a margem do piscicultor muito exposta ao mercado de grãos”, afirmam Pedroza e Rocha. Segundo eles, o acompanhamento da conversão alimentar, indicador que relaciona a quantidade de ração consumida ao ganho de peso dos animais, tornou-se decisivo para a rentabilidade.

Além da alimentação, energia elétrica para aeração, mão de obra, capital de giro e perdas por mortalidade ou doenças também comprometem os resultados. Os especialistas alertam que a lentidão nas vendas pode manter os peixes por mais tempo nos viveiros, elevando a biomassa e os custos de manutenção. Esse acúmulo de estoque vivo tende a aumentar a pressão sobre as cotações quando os produtores voltam a comercializar volumes maiores.
A indústria de processamento também enfrenta dificuldades. Com a demanda enfraquecida por filé congelado e limitações para repassar custos ao consumidor, o aproveitamento integral da matéria-prima ganha importância. Como o rendimento do filé corresponde a aproximadamente um terço do peso vivo do peixe, os pesquisadores apontam que a transformação de pele, carcaça e outros resíduos em óleo, farinha, colágeno e coprodutos de maior valor agregado pode contribuir para melhorar os resultados industriais.
Importações ampliam concorrência no mercado interno
A entrada de filé de tilápia do Vietnã acrescentou uma nova pressão competitiva ao mercado brasileiro. Conforme os dados apresentados pelos entrevistados, o Brasil importou aproximadamente 1.324 toneladas do produto em setembro, crescimento de 11% em relação a agosto, com preço médio de US$ 4,35 por quilo. No mercado nacional, o filé vietnamita tem sido comercializado entre R$ 25 e R$ 29 por quilo, faixa que, segundo os especialistas, se aproxima do custo da matéria-prima utilizada por indústrias brasileiras.
Pedroza e Rocha destacam que o mercado interno absorve quase toda a produção nacional, tornando a sazonalidade do consumo determinante para a formação dos preços. No comércio exterior, a concentração das exportações nos Estados Unidos também representa um risco. A receita das exportações da piscicultura brasileira recuou 34% no primeiro semestre de 2026, na comparação com igual período de 2025. Em julho, a decisão norte-americana de manter o filé fresco de tilápia e o peixe inteiro, congelado ou resfriado, fora da sobretaxa adicional de 25% trouxe algum alívio, enquanto o filé congelado permaneceu sujeito à medida.

Rentabilidade deve continuar apertada até dezembro
Para os últimos meses de 2026, a avaliação dos pesquisadores é de cautela. A elevação das temperaturas e as festas de fim de ano podem favorecer a recuperação do consumo, mas a reação tende a ser insuficiente para compensar integralmente a perda de margem observada no segundo semestre. “Para o último trimestre, é possível que a rentabilidade continue apertada, com preços relativamente estáveis e alguma recuperação da demanda devido ao calor e às festas de fim de ano”, projetam os especialistas.
Nesse contexto, três fatores deverão influenciar diretamente os resultados: os preços do milho e do farelo de soja, o volume de filé importado do Vietnã e o desempenho das exportações de filé fresco para os Estados Unidos. O verão também pode acelerar o crescimento dos peixes, ampliando a disponibilidade de produto e exigindo maior atenção ao planejamento das despescas.
Para melhorar a rentabilidade, Pedroza e Rocha recomendam escalonar os ciclos produtivos, acompanhar custos por quilo e indicadores zootécnicos, fortalecer cooperativas e ampliar a integração entre produtores e indústrias. Também defendem investimentos no aproveitamento de coprodutos, na diversificação dos mercados externos e na promoção do consumo doméstico fora dos períodos tradicionais de maior demanda.
A avaliação dos especialistas indica que a recuperação econômica da tilapicultura dependerá não apenas de preços mais favoráveis, mas da capacidade de reduzir custos, planejar a oferta e ampliar as alternativas comerciais ao longo da cadeia produtiva.



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