As transformações provocadas pela inteligência artificial, pela mudança no comportamento dos consumidores e pelo avanço da economia de influência já começam a alterar a forma como empresas do agronegócio se posicionam no mercado. Para organizações ligadas à cadeia de proteína animal, que atuam em um ambiente cada vez mais competitivo e conectado, o desafio passa a ser menos acompanhar tendências e mais identificar quais delas podem gerar valor efetivo para o negócio.
O tema esteve no centro do Make Wave 2026, encontro promovido pela Make ID na última quinta-feira (27), em São Paulo. O evento reuniu executivos de grandes empresas do agronegócio e de outros setores, além de profissionais de marketing, comunicação e inovação, para discutir como mudanças globais em tecnologia, comportamento e criatividade podem ser traduzidas em estratégias para as empresas brasileiras.
A programação abordou temas como inteligência artificial, dados, performance, mídia, influência, creators, confiança e experiência do cliente. A proposta foi conectar discussões observadas em importantes fóruns internacionais às particularidades do mercado brasileiro.
Entre os eventos utilizados como referência na curadoria da Make ID estão o SXSW, em Austin e Londres, o Web Summit Rio e a São Paulo Innovation Week (SPIW). A leitura desses movimentos, segundo a agência, permite identificar transformações que podem impactar a construção de marcas, o relacionamento com consumidores e as decisões de negócios.
IA amplia possibilidades, mas estratégia ganha peso
O avanço da inteligência artificial esteve entre os principais assuntos do encontro. A disseminação de ferramentas capazes de automatizar processos, produzir conteúdo e analisar grandes volumes de dados aumenta o acesso das empresas à tecnologia, mas também reduz parte da vantagem competitiva associada exclusivamente a esses recursos.
Nesse cenário, a capacidade de interpretar informações, identificar oportunidades e transformar tecnologia em estratégia tende a ganhar importância.
Para Simone Rodrigues, CEO da Make ID, o conhecimento das particularidades do agronegócio precisa ser combinado ao acompanhamento das transformações que ocorrem fora do setor. “Temos uma história profundamente conectada ao agronegócio e crescemos acompanhando a transformação desse mercado. Isso nos deu repertório e conhecimento para entender suas particularidades, mas também a responsabilidade de provocar novas discussões e trazer novas perspectivas para nossos clientes”, afirma.
Segundo a executiva, a conexão entre agro, tecnologia, criatividade e comportamento pode contribuir para que as empresas encontrem novas formas de gerar valor.
“Nosso papel hoje é conectar o agro ao que há de mais relevante em criatividade, tecnologia, comportamento e negócios no mundo e transformar essa leitura em estratégia e valor”, completa.

Curadoria ganha importância diante do excesso de informação
A velocidade com que novas tecnologias, plataformas e tendências surgem também cria outro desafio para as empresas: separar movimentos estruturais de fenômenos passageiros. Para Celso Batistella, diretor de Inteligência de Mercado e Comunicação da Bayer, a troca de experiências e o acesso a debates internacionais ajudam as organizações a compreender como inovação e tecnologia podem ser aplicadas aos negócios. “A Make tem essa capacidade de provocar discussões relevantes e conectar clientes ao que está acontecendo de mais inovador no mundo. Poder acessar os principais debates do SXSW e trocar experiências com outras empresas ajuda a entender como usar tecnologia e inovação a favor dos negócios”, afirma.
Na prática, esse processo de seleção de informações pode ser particularmente relevante para setores do agronegócio que lidam com cadeias extensas, diferentes perfis de público e decisões de compra cada vez mais influenciadas por informação e reputação.
O diretor de Marketing, Comunicação e Experiência do Cliente da Scania no Brasil, Márcio Furlan, também destacou a importância da curadoria. “Nem todo mundo consegue participar dos principais fóruns de inovação. O diferencial da Make é fazer essa curadoria, filtrar os temas mais relevantes e direcionar a discussão para aquilo que realmente faz sentido para as empresas”, diz.
Para o executivo, levar esses insights para a rotina das organizações pode estimular novas formas de pensar produtos, serviços, comunicação e relacionamento com os clientes.
Creators e confiança mudam relação com os públicos
Outro movimento discutido no evento foi o crescimento da influência dos creators e a fragmentação da atenção. A mudança amplia o número de pontos de contato entre marcas e consumidores e reduz a eficácia de estratégias baseadas apenas nos canais tradicionais.
No agronegócio e na cadeia de proteína animal, esse cenário abre espaço para uma comunicação mais segmentada, capaz de dialogar com diferentes públicos — de produtores rurais e profissionais da indústria a distribuidores, varejistas e consumidores finais.
A construção de confiança também ganha relevância nesse ambiente. Em cadeias nas quais temas como sustentabilidade, bem-estar animal, segurança dos alimentos, origem e qualidade estão cada vez mais presentes no debate público, a forma como as empresas comunicam suas práticas pode influenciar a percepção de valor de suas marcas.
Criatividade passa a ser diferencial competitivo
Com ferramentas tecnológicas cada vez mais acessíveis, a criatividade e a capacidade de formular boas perguntas ganham espaço como diferenciais estratégicos.
José Francisco Barbosa, diretor de Estratégia da Make ID, avalia que a aproximação entre empresas de diferentes segmentos pode ampliar o repertório necessário para enfrentar esse cenário.
“Reunimos grandes marcas, clientes e especialistas para oxigenar estratégias de marketing e comunicação e olhar para o futuro dos negócios. Mais do que discutir tendências, queremos ampliar perspectivas e estimular novas formas de pensar os desafios que já estão na mesa das empresas”, afirma.
A discussão ganha relevância para o agronegócio justamente em um momento em que empresas de diferentes elos da cadeia precisam conciliar transformação tecnológica, pressão por eficiência, mudanças no comportamento dos consumidores e necessidade de diferenciação.
O que o movimento significa para a proteína animal
Embora as tendências discutidas no Make Wave atravessem diferentes setores, seus efeitos podem ser especialmente relevantes para empresas ligadas à proteína animal. Avanços em inteligência artificial e análise de dados podem apoiar decisões comerciais e de marketing, enquanto novas formas de influência e comunicação podem alterar a maneira como empresas de carnes, leite, ovos e insumos se relacionam com seus públicos.
A mudança, portanto, não está apenas na adoção de novas ferramentas. Está na capacidade de transformar informação em decisão e tecnologia em vantagem competitiva.
Ao aproximar tendências observadas nos principais polos globais de inovação da realidade brasileira, o Make Wave 2026 reforçou uma discussão que deve permanecer na agenda do agronegócio: em um mercado no qual o acesso à tecnologia tende a se democratizar, a diferença estará cada vez mais na capacidade de interpretar o cenário, fazer escolhas estratégicas e transformar conhecimento em resultado.



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