O terceiro dia do Encontro de Confinamento e Recriadores da Scot Consultoria abriu espaço para um tema cada vez mais central na pecuária: o uso da tecnologia aliado à nutrição como estratégia para ganho de eficiência e rentabilidade. As palestras da manhã mostraram que, diante de um cenário de margens mais apertadas e maior exigência do mercado, o produtor precisa avançar em gestão, controle e qualidade para se manter competitivo.
A mensagem foi direta: produzir bem já não basta. É preciso produzir melhor, com mais precisão e alinhado às demandas do mercado.
Eficiência nutricional como alavanca de lucro
A discussão sobre nutrição começou com Wellington Gearola, que destacou o papel do processamento de grãos na rentabilidade. Segundo ele, o investimento inicial pode ser relevante, mas retorna ao sistema: “você teria de investir em torno de 250 mil reais no Capex, mas é um retorno que vale a pena, pois ele volta para você depois”.

Para Gearola, o avanço da tecnologia já não é opcional. “Eu vejo uma grande saída hoje é a eficiência, nós não temos para onde correr”, afirmou. Ele reforçou que a adoção de grãos úmidos e fermentados vem ganhando espaço rapidamente: “não tem mais espaço para falar que não vai adotar, isso está numa crescente muito forte”.
Além da eficiência operacional, o impacto direto está no bolso do produtor. “Você consegue fazer economia de material e ter maior rentabilidade”, pontuou.
Água, vedação e perdas invisíveis no confinamento
Thiago Bernardes trouxe um alerta importante sobre um ponto muitas vezes negligenciado: a água. “Vocês precisam maximizar o consumo de água do seu confinamento”, afirmou, destacando que a oferta adequada é o primeiro passo para o desempenho animal.

Ele reforçou que não basta apenas disponibilizar água, é preciso garantir qualidade e acesso. “O animal precisa sentir que a água está adequada”, disse, chamando atenção para fatores como sabor, limpeza e composição.
Bernardes também criticou falhas estruturais comuns: “não entendo por que os bebedouros são tão pequenos”, defendendo mais espaço e melhor dimensionamento. Segundo ele, o impacto vai além do consumo: “depois de adequar tudo isso, entenda o que a água tem”, já que ela pode fornecer nutrientes como magnésio, mas também carregar elementos tóxicos.
Gestão, automação e cultura de evolução contínua
A eficiência produtiva também passa pela gestão. Sérgio Soriano destacou a importância da evolução constante dentro da propriedade. “Qualquer fazenda tem que olhar o seu número e ter vontade de ser melhor no dia seguinte”, afirmou.

Ele trouxe dados do próprio sistema produtivo para ilustrar o avanço: “em 2003 a gente produziu cerca de 33 litros de leite, em 2025 cerca de 43 litros”, mostrando como o ganho contínuo de eficiência gera resultados no longo prazo.
Para Soriano, tecnologia e gestão caminham juntas. “É preciso agricultura de precisão, software de gestão e assistência técnica especializada”, disse. Mais do que ferramentas, ele destacou uma mudança de mentalidade: “se nós não melhorarmos todo dia, estamos dando ré”.
Carcaça, mercado e a mudança no comportamento do consumidor
Encerrando o bloco, Vitor Matias trouxe uma visão estratégica sobre o mercado de carne bovina. Segundo ele, o futuro passa por qualidade e diferenciação: “as carnes premium são o futuro do mercado”.
No entanto, ele alertou que algumas exigências já deixaram de ser diferencial e passaram a ser obrigatórias. “A rastreabilidade não é mais um diferencial, ela está virando um pré-requisito”, afirmou, destacando que os compradores querem saber a origem do produto.

Matias reforçou que o Brasil segue competitivo globalmente. “Somos a arroba mais barata do mundo, temos escala e oferta”, disse, mas alertou para uma mudança importante no comportamento do mercado: “a decisão de compra está cada vez menos baseada só em preço”.
Hoje, fatores como confiança, sustentabilidade e previsibilidade ganham peso. “O comprador quer saber o que você vai entregar durante o ano”, destacou.
Apesar da liderança produtiva, ele apontou um desafio claro: “o problema não é produzir, nós produzimos muito bem. O desafio é competir melhor”. Para isso, é necessário mudar a percepção do produto brasileiro no exterior: “precisamos gerar confiança e capturar mais valor, vender uma arroba mais cara”.
Produzir melhor para capturar valor
As palestras da manhã reforçaram que a pecuária entra em uma fase em que eficiência técnica, gestão e alinhamento com o mercado são determinantes. Nutrição, água, automação e qualidade da carcaça deixam de ser temas isolados e passam a compor uma estratégia integrada.
O recado é claro: quem dominar os processos, entender o mercado e entregar consistência terá mais chances de capturar valor em um setor cada vez mais exigente.
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