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Tarifaço dos EUA acende alerta para exportações brasileiras e pode atingir cadeias da proteína animal

Sobretaxas podem chegar a 37,5% sobre produtos brasileiros, pressionando competitividade, margens da indústria e fluxo das exportações.

Sobretaxas podem chegar a 37,5% sobre produtos brasileiros, pressionando competitividade, margens da indústria e fluxo das exportações.

A expectativa em torno da possível imposição de novas tarifas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros segue elevada, mesmo após o encerramento do prazo inicialmente previsto pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para definição das medidas. Até o momento, o governo norte-americano ainda não publicou no Federal Register a decisão definitiva com a lista dos produtos afetados e a data de entrada em vigor das tarifas.

Para Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, a ausência da publicação oficial não significa que as medidas tenham sido descartadas. Segundo ele, o cenário permanece em aberto e novos desdobramentos podem ocorrer a qualquer momento, exigindo cautela dos setores exportadores.

A preocupação do mercado está centrada na investigação conduzida com base na Seção 301 do Trade Act de 1974, um dos principais instrumentos da política comercial dos Estados Unidos. A legislação permite que o governo norte-americano investigue práticas comerciais consideradas prejudiciais às empresas do país e aplique sanções unilaterais, incluindo aumento de tarifas de importação, sem necessidade de aguardar decisões da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Tarifa pode chegar a 37,5%

Em junho, o USTR concluiu uma investigação iniciada em 2025 apontando que algumas políticas brasileiras — envolvendo comércio digital, o sistema Pix, barreiras ao etanol, medidas anticorrupção e questões ambientais — poderiam representar entraves ao comércio norte-americano.

Como resposta, foi proposta uma sobretaxa de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros.

Paralelamente, outra investigação relacionada ao combate ao trabalho forçado nas cadeias globais de produção poderá resultar em uma tarifa adicional de até 12,5%.

Caso ambas sejam aplicadas de forma cumulativa, determinados produtos brasileiros poderão enfrentar uma carga tarifária de até 37,5% ao ingressarem no mercado norte-americano.

Reflexos para a proteína animal

Embora ainda não exista confirmação sobre quais produtos serão incluídos na lista definitiva, a possibilidade de novas barreiras comerciais preocupa diferentes segmentos do agronegócio brasileiro, incluindo a cadeia de proteína animal.

Na avaliação de Simioni, o principal efeito imediato seria a perda de competitividade frente a concorrentes internacionais que não estejam sujeitos às mesmas tarifas.

Em segmentos onde o exportador brasileiro possui pouca margem para reajustar preços, parte do custo poderá ser absorvida pela própria indústria, reduzindo rentabilidade e comprometendo investimentos futuros.

Outro movimento esperado é o redirecionamento das exportações para mercados como Ásia, Oriente Médio e União Europeia. No entanto, essa estratégia depende de logística, abertura comercial e renegociação de contratos, fatores que dificultam uma substituição imediata do mercado norte-americano.

Além dos impactos diretos sobre as exportações, o economista destaca que uma eventual redução do fluxo comercial com os Estados Unidos poderá pressionar o câmbio, elevar a percepção de risco do país e aumentar o custo de capital para empresas brasileiras.

Empresas norte-americanas que dependem de matérias-primas e produtos brasileiros podem pressionar o governo dos EUA ou recorrer à Justiça caso as tarifas elevem seus custos de produção.

Governo estuda resposta

As tentativas de negociação conduzidas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), pelo Itamaraty e pela Presidência da República não avançaram até o momento.

Diante do impasse, o governo brasileiro avalia medidas de resposta, entre elas uma Medida Provisória voltada ao apoio dos setores afetados e a possibilidade de adoção de tarifas de reciprocidade sobre produtos norte-americanos.

Cenário ainda pode mudar

Apesar da forte expectativa do mercado, Simioni ressalta que o processo ainda não está encerrado. Segundo ele, decisões tomadas com base na Seção 301 já foram contestadas anteriormente nos tribunais dos Estados Unidos e também podem ser questionadas na Organização Mundial do Comércio.

Além disso, empresas norte-americanas que dependem de matérias-primas e produtos brasileiros podem pressionar o governo dos EUA ou recorrer à Justiça caso as tarifas elevem seus custos de produção.

Enquanto a definição oficial não ocorre, o mercado financeiro tende a reagir rapidamente às incertezas, enquanto os efeitos sobre a economia real e sobre as cadeias exportadoras, incluindo a proteína animal, deverão aparecer de forma gradual, conforme as medidas sejam efetivamente implementadas.

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