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Suplementação a pasto: bases conceituais

Por João Pedro Ferreira, Giovana Siqueira Giacomelli, Helena Xavier Fagundes e Júlio Barcellos
Por Caroline Mendes
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A pecuária de corte brasileira ocupa posição de destaque mundial e tem como base os sistemas pastoris, que garantem a identidade da carne produzida no país e conferem competitividade de mercado. No entanto, a forte dependência do pasto torna a cadeia produtiva vulnerável às variações sazonais, que afetam diretamente a quantidade e a qualidade da forragem disponível.

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Nesse cenário, a suplementação a pasto atua não só na correção de deficiências, mas como estratégia de intensificação que mantém ganho de peso, reprodução e qualidade de carcaça em períodos críticos. Para isso, deve-se ajustar tipo, nível e frequência do suplemento conforme categoria, fase e qualidade do pasto, identificando o nutriente limitante e equilibrando energia e proteína. Na bovinocultura, os suplementos classificam-se em volumosos, proteicos e energéticos, cada um indicado para situações distintas (Figura 1).

Figura 1. Tipos de suplementos utilizados na bovinocultura de corte: quando usar, exemplos e cuidados no manejo. Fonte: Equipe Nespro

Para todos os cenários produtivos, recomenda-se avaliar a dieta de forma quantitativa, garantindo oferta de matéria seca em torno de 3,5% do peso vivo. Em seguida, realiza-se uma avaliação qualitativa para verificar se há escassez de algum nutriente. Só então é feita, ou não, a suplementação concentrada (Figura 2).

Figura 2. Fluxo de decisão para suplementação em sistemas a pasto: avaliação da massa de forragem e dos nutrientes limitantes. Fonte: Equipe Nespro

Quando a forragem apresenta teor proteico insuficiente (<7%), os níveis de proteína degradável no rúmen (PDR) e de nitrogênio disponível se tornam limitantes, comprometendo a atividade microbiana e a digestão dos nutrientes. Para corrigir esse desbalanço, recorrem-se a suplementos proteicos ou a fontes de nitrogênio não proteico (NNP), como a ureia. O equilíbrio é essencial: o excesso em dietas com baixo teor de fibra digestível pode resultar em acúmulo de amônia, perdas energéticas e até quadros de intoxicação. No manejo com ureia, recomenda-se, adaptação gradual (cerca de 7 a 14 dias), consumo controlado e fornecimento sempre junto a fibra e energia. Em situações de pastos com deficiência energética, recorre-se à utilização de suplementos concentrados energéticos, que fornecem carboidratos solúveis que serão prontamente fermentados no rúmen. A suplementação também pode incluir fontes proteicas de alta qualidade protegidas da degradação ruminal, conhecidas como proteínas “by-pass”. Estas são absorvidas no intestino e exercem a função de elevar a oferta de aminoácidos metabolizáveis, favorecendo síntese proteica. São indicadas para animais de alta exigência, como novilhas em crescimento e bovinos em terminação.

Na prática, a suplementação é moldada conforme o objetivo produtivo. Em sistemas de cria e recria, o fornecimento de suplementação proteica estimula o consumo de pasto ao intensificar a digestibilidade da fibra. Nesses casos, é fundamental evitar o efeito substitutivo, no qual o consumo elevado de suplemento reduz a ingestão de volumoso e compromete a relação custo-benefício. Já na Terminação Intensiva a Pasto (TIP), a lógica se inverte: níveis elevados de suplementação induzem deliberadamente o efeito substitutivo, deslocando parte da ingestão da forragem para os concentrados, o que garante ganhos acelerados. Em sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP), a suplementação assegura a continuidade do ganho de peso, mantendo o ciclo produtivo estável.

A suplementação volumosa é indicada quando a pastagem não atende à demanda, garantindo fibra e energia. Os mais utilizados são, o feno (exige armazenamento adequado para evitar perdas) e a silagem (preserva melhor o valor nutritivo quando bem compactada e vedada).

O dimensionamento dos cochos é essencial para garantir acesso uniforme aos suplementos e evitar disputas, em lotes mistos, o cálculo deve sempre considerar a categoria de maior porte (Quadro 1).

Quadro 1. Comprimento do cocho de acordo com o tipo de suplemento

Tipo de alimentoÁrea linear de cocho (cm/cabeça)
Suplementação mineral – sal branco2 cm/cabeça
Suplementação mineral – misturas múltiplas5 cm/cabeça
Resíduos de grãos e seus farelos (diariamente)50 cm/cabeça
Resíduos de grãos e seus farelos (autoconsumo)10 cm/cabeça
Volumoso (feno, silagem)60 cm/cabeça
Dieta concentrada (alto grão)60 cm/cabeça

A suplementação, quando conduzida de forma estratégica, proporciona ganhos consistentes em desempenho e retorno econômico. Mais do que gerar resultados imediatos, a suplementação contribui para a resiliência das propriedades e a robustez dos sistemas de produção, sustentabilidade e a competitividade da bovinocultura de corte, favorecendo sua adaptação frente às oscilações climáticas e às demandas de mercado.

João Pedro Ferreira, Bolsista de Iniciação Científica – Acad. Zoot., NESPro/UFRGS.

Giovana Siqueira Giacomelli, Zoot. Mestranda no PPG Zootecnia, NESPro/UFRGS

Helena Xavier Fagundes, Med.Vet., Mestranda no PPG Zootecnia – NESPro/UFRGS

Júlio Barcellos, Med.Vet., Professor, Coordenador NESPro/UFRGS

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