Camila Santos, de Bento Gonçalves (RS)
A geopolítica e a agenda internacional tem ganhado cada vez mais espaço no debate sobre o futuro da produção de alimentos. No Seminário Nacional de Desenvolvimento da Suinocultura (SNDS), promovido pela Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), o tema foi aprofundado em uma palestra de Marcos Jank, professor do Insper, consultor em políticas globais do agro e uma das maiores referências mundiais em comércio internacional, sustentabilidade e segurança alimentar.
Com larga experiência em diferentes países, Jank destacou que o atual cenário global é marcado por instabilidade, tensões comerciais e novos alinhamentos políticos, o que traz desafios diretos ao agro brasileiro. “Estamos vivendo a volta da geopolítica, a influência da política sobre a geografia. O mundo deixou de caminhar para a globalização plena e passou a enfrentar conflitos, disputas tarifárias e barreiras comerciais que impactam diretamente a suinocultura e outras cadeias produtivas”, afirma.

Da globalização à fragmentação
Segundo Jank, o setor precisa compreender que as regras do comércio internacional estão em transformação. Ele relembrou que, após a Segunda Guerra Mundial, foram criadas instituições multilaterais como a ONU, o FMI e a Organização Mundial do Comércio, que estabeleceram parâmetros para o livre comércio. “Parecia que o mundo era plano, conectado pela globalização, pela tecnologia e pelas cadeias de valor. Mas essa fase durou pouco. Hoje vivemos a fragmentação global”, explica.
Entre os fatores que contribuíram para essa mudança, Jank citou a crise financeira de 2008, a guerra na Ucrânia, a pandemia de Covid-19 e a recente escalada de conflitos no Oriente Médio. Esses eventos fragilizaram a governança internacional e abriram espaço para o avanço de políticas nacionalistas e protecionistas.
EUA, China e Brasil: um tripé estratégico
Com passagens por centros de estudo nos Estados Unidos e quase cinco anos vivendo na Ásia, Jank enfatizou a importância de compreender a relação entre esses três países. “Minha ideia é cobrir o tripé Estados Unidos, Brasil e China. São esses os polos que moldam hoje os rumos do comércio agroalimentar global”, destaca.
Ele lembrou que, durante a guerra comercial entre EUA e China, o Brasil ganhou espaço nas exportações de grãos e proteínas. “Naquele momento, passamos os Estados Unidos como principal fornecedor de alimentos para a China, e isso nos mantém como protagonistas até hoje. O país asiático é nosso maior destino e responde por mais de um terço das exportações brasileiras do agro”, observa.
Apesar da oportunidade, Jank alerta para os riscos de dependência excessiva. “O Brasil se tornou muito mais concorrente dos EUA do que parceiro. Se novas tarifas ou acordos privilegiados forem estabelecidos entre americanos e chineses, podemos perder espaço. Por isso, é fundamental diversificar mercados e manter competitividade”, diz.
Geopolítica e seus impactos diretos na suinocultura
Ao tratar especificamente da cadeia suinícola, Jank destacou que o setor tem se beneficiado do crescimento da demanda global por proteína, especialmente na Ásia. “A carne suína é a segunda mais produzida no mundo e tem enorme potencial de crescimento no Brasil. A produtividade do nosso agro disparou nas últimas décadas, e a suinocultura está inserida nesse movimento”, avalia.
No entanto, ele alertou que tarifas e barreiras podem comprometer esse avanço. “A volta do mercantilismo, das negociações bilaterais e das tarifas impostas conforme conveniências geopolíticas, gera enorme incerteza. Se mexermos nas tarifas, estragamos cadeias de valor e de suprimento que demoraram décadas para se consolidar”, afirma.
O futuro em um mundo multipolar
Na avaliação de Jank, o mundo caminha para uma ordem multipolar, na qual diferentes blocos regionais terão maior protagonismo. Ele ressaltou que, nesse contexto, o Brasil precisa reforçar sua diplomacia, sua imagem como fornecedor sustentável de alimentos e sua capacidade de inovação. “O que está em jogo é entender que não vivemos mais em um ambiente previsível. Precisamos nos organizar para atuar nesse mundo de desordem internacional”, afirma.
Apesar do tom de alerta, Jank concluiu sua palestra com uma visão positiva para a suinocultura. “Depois dessa ducha de água fria que é a geopolítica, quero lembrar que as perspectivas para a carne suína são muito boas. O setor tem potencial para crescer, consolidar mercados e ampliar sua participação nas exportações brasileiras”, destaca.
Ao reunir lideranças, produtores e especialistas para discutir geopolítica, o SNDS reforçou sua posição como espaço estratégico para antecipar tendências e preparar o setor para os próximos desafios globais
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