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Setembro marca virada na política monetária global, com bancos centrais reagindo ao choque de energia

Fed, BCE e Banco do Japão endurecem a política monetária, enquanto Brasil mantém ciclo de cortes.

FOTO; REPRODUÇÃO
FOTO; REPRODUÇÃO

Setembro de 2026 marcou uma mudança importante no cenário monetário global. Depois de um período em que os principais bancos centrais caminhavam, em maior ou menor velocidade, para uma convergência de políticas, o mês foi marcado pela divergência. Estados Unidos, Europa e Japão elevaram juros, enquanto o Brasil manteve o ciclo de flexibilização monetária. No Reino Unido, a taxa permaneceu estável, mas com aumento da pressão por uma nova alta.

Na avaliação de Roberto Simioni, economista-chefe da Blue3 Investimentos, o principal elemento por trás das decisões foi o choque provocado pela alta dos preços de energia. O Brent encerrou setembro próximo de US$ 100 por barril, depois de atingir cerca de US$ 106 no meio do mês, em meio às restrições nos fluxos pelo Estreito de Ormuz e à interrupção parcial da produção no Oriente Médio.

Para Simioni, o cenário coloca os bancos centrais diante de um dilema clássico: a política monetária não consegue produzir petróleo, mas pode evitar que um choque de preços relativos se transforme em uma inflação disseminada. “A lição dos anos 1970 é que a credibilidade é mais barata de preservar do que de reconstruir”, resume o economista.

Além da energia, o risco fiscal voltou a ganhar importância nos mercados. O orçamento francês para 2027 e a proximidade do Orçamento de Outono britânico recolocam os títulos soberanos no centro das atenções. Em um ambiente de déficits elevados e juros mais altos, os próprios mercados de dívida passam a exercer parte do papel de aperto das condições financeiras.

Estados Unidos: Fed prioriza a inflação, apesar da perda de força do emprego

Em 16 de setembro, o Federal Reserve elevou a meta para os Fed Funds em 25 pontos-base, para a faixa de 3,75% a 4%, no primeiro aumento desde 2023. A projeção mediana dos integrantes do comitê aponta para mais uma alta em 2026, com a taxa encerrando o ano em aproximadamente 4,1%.

A inflação, entretanto, apresenta um quadro misto. O índice de preços ao consumidor avançou 0,4% em agosto e acumulou alta de 3,4% em 12 meses. A energia subiu 16,3% na comparação anual, enquanto a gasolina ficou 27,4% mais cara. O núcleo do índice avançou 0,3% no mês e acumulou alta de 2,4% em 12 meses.

Para Simioni, a composição dos dados é fundamental. O choque aparece principalmente nos componentes mais voláteis, mas o risco para o Federal Reserve está na possibilidade de que a persistência da energia contamine os preços subjacentes.

Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho começou a mostrar sinais mais claros de desaceleração. A economia americana criou apenas 29 mil vagas em setembro, enquanto a taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,2%. As revisões dos dois meses anteriores retiraram 60 mil postos das estimativas anteriores.

O rendimento médio por hora cresceu apenas 0,1% no mês, sinalizando que, até o momento, não há uma pressão salarial significativa. “É justamente a combinação entre um choque de preços externo e um mercado de trabalho que perde tração que torna a formulação de política monetária mais difícil”, avalia Simioni.

O relatório de inflação de 14 de outubro, portanto, ganha importância adicional para determinar os próximos passos do Fed.

Brasil: Copom corta juros, mas inflação limita espaço para novas reduções

No Brasil, o movimento foi na direção oposta. O Comitê de Política Monetária reduziu a Selic em 25 pontos-base, para 13,75% ao ano, em 16 de setembro. Foi o quinto corte consecutivo desde março, quando a taxa estava em 15%.

A decisão ocorre, porém, em um ambiente de inflação ainda desconfortável. Nas projeções do cenário de referência do Copom, o IPCA deve encerrar 2026 em 5,2%, acima do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta. Para 2027, a projeção é de 3,9%.

O IPCA-15 de setembro subiu 0,70%, após queda de 0,40% em agosto, acumulando alta de 4,47% em 12 meses.

A atividade econômica, por outro lado, apresenta sinais de desaceleração. O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre em relação ao primeiro, depois de uma expansão de 1,1% no trimestre anterior. Na comparação anual, o crescimento foi de 2%.

Para Simioni, o cenário coloca o Banco Central brasileiro em uma situação particularmente delicada. O país ainda possui juros reais elevados e atividade em desaceleração, mas a inflação projetada acima do teto da meta limita a velocidade de novos cortes.

O câmbio também é um fator de atenção. Com o dólar em torno de R$ 5,22, uma divergência maior entre a política monetária brasileira e a americana poderia aumentar a pressão sobre o real.

O espaço para novas reduções da Selic, segundo o economista, dependerá principalmente da evolução da inflação de serviços, do comportamento do petróleo e do diferencial de juros em relação ao exterior.

Europa: petróleo eleva inflação e aumenta pressão sobre o BCE

Na zona do euro, o Banco Central Europeu elevou as três principais taxas de juros em 25 pontos-base em setembro, levando a taxa de depósito para 2,50%. Foi o segundo aumento do ano.

A inflação reforçou a preocupação do BCE. A estimativa preliminar para setembro mostrou alta de 3,8% em 12 meses, ante 3,2% em agosto, no maior nível desde setembro de 2023. A energia acelerou de 14,3% para 18,8% na comparação anual e respondeu por aproximadamente metade da inflação cheia. O núcleo, entretanto, permaneceu relativamente estável, em 2,5%.

Essa combinação de forte choque energético com núcleo ainda contido deve manter o BCE cauteloso, mas, na avaliação de Simioni, aumenta a possibilidade de uma nova alta de 25 pontos-base em dezembro.

O cenário europeu ainda é agravado pelo risco fiscal francês. O orçamento apresentado em 1º de outubro prevê medidas de consolidação, mas não seria suficiente para estabilizar uma dívida projetada acima de 120% do PIB em 2027.

O diferencial entre os títulos franceses e alemães de dez anos aumentou de aproximadamente 128 pontos-base no fim de setembro para cerca de 140 pontos-base nos primeiros dias de outubro.

Para Simioni, esse movimento mostra que o risco fiscal voltou a funcionar como um mecanismo adicional de aperto das condições financeiras. Rendimentos mais elevados dos títulos soberanos encarecem o financiamento do governo e também do setor privado, reduzindo a necessidade de que o banco central produza todo o aperto por meio da taxa básica.

Reino Unido: inflação e risco fiscal desafiam o Banco da Inglaterra

O Banco da Inglaterra manteve a taxa básica em 3,75% em setembro, na sexta reunião consecutiva sem alteração. A decisão, entretanto, veio acompanhada de sinais de preocupação.

A inflação ao consumidor subiu para 3,1% em agosto, enquanto o banco central projeta que ela chegue a aproximadamente 3,75% no quarto trimestre e supere 4% no início de 2027. O aumento dos preços de energia e combustíveis está no centro da deterioração das perspectivas.

Ao mesmo tempo, a atividade permanece relativamente fraca. O PIB cresceu 0,4% no segundo trimestre e repetiu esse ritmo em julho. O mercado de títulos também reflete a combinação entre inflação, juros e risco fiscal. O rendimento do título britânico de dez anos chegou a 5,38% em 2 de outubro, enquanto o diferencial em relação ao título alemão de mesmo prazo está próximo de 190 pontos-base.

O Orçamento de Outono, previsto para 28 de outubro, será, portanto, um teste importante para a credibilidade fiscal do governo britânico.

Na avaliação de Simioni, o Reino Unido precisa conciliar a redução gradual do déficit com a preservação de margem fiscal, sem repetir a deterioração de confiança observada no episódio de 2022.

Japão acelera normalização monetária

O Banco do Japão também surpreendeu pelo ritmo de normalização. Em setembro, elevou a taxa básica em 25 pontos-base, para 1,25%, o maior nível desde 1995. Foi o segundo aumento do ano, depois da alta de junho.

A inflação japonesa, entretanto, ainda parece mais moderada do que a observada em outras economias desenvolvidas. O índice de preços ao consumidor subiu 1,9% em agosto, enquanto o núcleo ficou em 1,7%.

Parte dessa diferença é explicada pelos subsídios a combustíveis e pelos controles sobre tarifas de eletricidade e gás implementados pelo governo.

Mas os dados de Tóquio divulgados no início de outubro indicaram uma aceleração. O índice cheio e o núcleo chegaram a 2,7% em 12 meses, enquanto o indicador que exclui alimentos e energia alcançou 3%.

O comportamento do iene permanece como outro ponto de preocupação. A moeda chegou a se aproximar de 164 ienes por dólar no fim de julho, encarecendo as importações justamente em um momento de petróleo elevado.

Para Simioni, o desafio japonês é equilibrar a normalização monetária com uma recuperação econômica ainda modesta, sem permitir que a fraqueza do iene amplifique o choque inflacionário.

China: indústria melhora, mas demanda doméstica continua fraca

Na China, os indicadores de setembro mostraram alguma estabilização do setor industrial, mas ainda sem evidências de uma recuperação consistente da demanda interna.

O PMI oficial da indústria subiu de 49,8 para 50,1, voltando à zona de expansão. O índice não industrial avançou de 49 para 50,2.

Os dados de agosto, contudo, mostram uma economia com desempenhos bastante diferentes entre os setores. A produção industrial cresceu 5,2% em 12 meses, impulsionada por exportações e produtos de alta tecnologia. Em contraste, as vendas no varejo cresceram apenas 0,4%, enquanto o investimento em ativos fixos acumulou queda de 7,2% nos oito primeiros meses do ano. O investimento imobiliário recuou 19,9%, e a taxa de desemprego urbano chegou a 5,3%.

A inflação ao consumidor avançou para 0,8%, com o núcleo em 1%, enquanto os preços ao produtor subiram 3,8%.

Para Simioni, seria prematuro interpretar essa alta como o fim de um processo deflacionário provocado por uma recuperação saudável da demanda.

O movimento estaria mais relacionado ao aumento dos custos de energia. Nesse cenário, a economia chinesa enfrenta um choque de custos importado justamente quando a demanda doméstica continua deprimida, limitando a capacidade de empresas e consumidores de repassar preços.

Energia será o principal teste para os bancos centrais

A agenda de outubro e novembro deve definir se o choque energético permanecerá como um fenômeno temporário ou começará a produzir efeitos mais persistentes sobre a inflação.

Nos Estados Unidos, o relatório de inflação de setembro, em 14 de outubro, será decisivo para avaliar a possibilidade de uma nova alta dos juros. Na Europa, a reunião do BCE em 29 de outubro ocorrerá em meio à pressão dos preços de energia e às preocupações com a situação fiscal francesa.

No Reino Unido, o Orçamento de Outono, em 28 de outubro, será observado de perto pelo mercado de títulos. No Japão, o Banco do Japão se reunirá nos dias 29 e 30 de outubro, com o comportamento do iene e da inflação no centro das discussões. Na China, os dados de atividade de setembro serão divulgados em 19 de outubro. No Brasil, o Copom se reúne em 3 e 4 de novembro. Para Roberto Simioni, o elemento que conecta essas decisões é o petróleo.

O economista avalia que um eventual acordo que permita a normalização dos fluxos pelo Estreito de Ormuz reduziria o prêmio de risco do petróleo e poderia permitir que os bancos centrais que hoje elevam juros adotassem uma postura de espera.

Se o conflito persistir, porém, aumenta o risco de efeitos de segunda rodada sobre inflação, salários e expectativas. Nesse cenário, a assimetria já observada nas comunicações do Federal Reserve e do Banco da Inglaterra apontaria para um viés de aperto adicional.

Para o investidor, a principal conclusão de setembro é que a diferença entre um choque inflacionário transitório e uma inflação persistente será determinada pelos dados — e não pelos discursos dos bancos centrais. Ao mesmo tempo, o risco fiscal voltou a ganhar peso e passou a ser um componente relevante das condições financeiras globais.

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