A combinação entre tensões geopolíticas, juros elevados nos Estados Unidos, inflação persistente e eventos climáticos adversos deve continuar influenciando o ambiente econômico brasileiro nos próximos anos, com reflexos diretos sobre a cadeia de produção de proteína animal.
Nas últimas semanas, segundo explica Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, o mercado voltou a concentrar atenções na política monetária norte-americana. “A expectativa inicial para 2026 era de um ciclo mais consistente de redução dos juros, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. No entanto, o cenário mudou após a intensificação dos conflitos no Oriente Médio, que provocaram forte valorização do petróleo Brent”, aponta.
Ela detalha que somente em março, a commodity acumulou alta superior a 22%, reacendendo preocupações inflacionárias em diversas economias. Como o petróleo continua sendo a principal referência energética global, seus movimentos afetam diretamente custos logísticos, transporte, combustíveis e insumos utilizados pela agropecuária.
Estados Unidos influenciam fluxo global de investimentos
A recente mudança na liderança do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano, também trouxe novas incertezas ao mercado. O novo presidente da instituição, Kevin Warsh, manteve os juros inalterados, mas adotou um discurso firme em relação ao combate à inflação e retirou sinalizações antecipadas sobre os próximos passos da política monetária. “A postura mais cautelosa reforçou a percepção de que os juros norte-americanos poderão permanecer elevados por mais tempo. Com isso, cresce a atratividade dos investimentos em renda fixa nos Estados Unidos, especialmente diante do fortalecimento das empresas de tecnologia e inteligência artificial”, aponta Bruna. “Para países emergentes como o Brasil, esse movimento tende a aumentar a competição por capital internacional, pressionando o câmbio e reduzindo o espaço para cortes mais agressivos na taxa Selic”, diz.
Boletim Focus revisa expectativas
O reflexo já aparece nas projeções do mercado. O Boletim Focus passou a incorporar uma trajetória mais conservadora para os juros brasileiros, com expectativa de encerramento de 2026 em torno de 14% ao ano. “Mesmo no horizonte de longo prazo, as projeções apontam para uma Selic próxima de 10% em 2029, indicando um ambiente de crédito mais caro por um período prolongado”, aponta a economista. Para a cadeia de proteína animal, segundo ela, isso significa maior custo de financiamento para investimentos em expansão, modernização de instalações, aquisição de equipamentos e capital de giro.
Clima adiciona novo fator de pressão
Além das questões monetárias e geopolíticas, o setor acompanha com atenção os efeitos climáticos associados ao fenômeno El Niño. “Os impactos variam conforme a região do país. Enquanto o Sul registra volumes elevados de chuva, outras áreas enfrentam períodos de seca, temperaturas acima da média e irregularidade no regime hídrico”, diz Bruna Centeno. Essas condições, de acordo com ela, afetam diretamente a produção agrícola, especialmente culturas utilizadas na alimentação animal, como milho e soja. Reduções de produtividade ou dificuldades de plantio tendem a elevar os custos dos grãos, principal componente das dietas de aves, suínos e bovinos confinados. “Os efeitos já começam a aparecer nos índices de inflação dos alimentos, impulsionados pelas incertezas relacionadas à oferta agrícola”, destaca.

Custos de produção seguem no radar
Segundo analistas de mercado, a combinação entre inflação energética e possíveis pressões sobre os preços dos alimentos cria um ambiente de atenção para toda a cadeia agroindustrial.
No caso da produção de proteína animal, os principais impactos podem ocorrer em três frentes:
- aumento dos custos de transporte e logística;
- elevação dos preços dos insumos para alimentação animal;
- manutenção de juros elevados, encarecendo o acesso ao crédito.
Ao mesmo tempo, a demanda global por alimentos continua sustentada, especialmente em mercados importadores, o que pode ajudar a equilibrar parte dos desafios enfrentados pelos produtores.
Cenário exige gestão financeira mais eficiente
Diante desse contexto, especialistas destacam a importância da gestão financeira e da proteção de margens dentro das propriedades e agroindústrias.
A expectativa é de que o ambiente econômico permaneça marcado por maior seletividade nos investimentos e necessidade de planejamento de longo prazo, especialmente para setores intensivos em capital, como a produção de proteína animal.
Apesar das pressões inflacionárias e dos custos mais elevados, o setor continua apoiado por fundamentos sólidos de demanda e pela competitividade da produção brasileira no mercado internacional.
LEIA TAMBÉM:
Biochem celebra 40 anos apostando em ciência, tecnologia e na proximidade com o produtor
Mapa informa oferta de 8,4 milhões de doses contra clostridioses no mercado nacional
Produção de carne suína na Rússia cresce 4,7%, mas setor prevê avanço menor até o fim do ano




