A incorporação de critérios ESG no seguro rural brasileiro começa a ganhar força e deve provocar mudanças relevantes na dinâmica da produção agropecuária. Com a entrada em vigor da Resolução CNSP nº 485/2025, seguradoras passam a exigir a comprovação de conformidade socioambiental das propriedades antes da emissão de apólices, o que amplia o rigor na análise de risco e impacta diretamente a cadeia produtiva.
A medida, que une regulação, sustentabilidade e gestão de risco, tem reflexos que vão além do seguro e alcançam setores estratégicos do agro, incluindo a produção de grãos destinados à ração e a integração com cadeias de proteína animal.
Exigências ampliam controle sobre produtores
Na prática, a nova regra eleva o nível de exigência documental e ambiental para o acesso ao seguro rural, exigindo regularidade da propriedade e rastreabilidade das operações.
“Na prática, a Resolução CNSP nº 485/2025 tende a aumentar o nível de exigência documental e socioambiental para a contratação do seguro rural”, afirma Julia Guerra, diretora Comercial da Picsel. Segundo ela, para produtores ligados à cadeia de proteína animal, o impacto é direto.
“Para quem produz soja e milho destinados à ração, ou atua na integração com aves, suínos e bovinos, isso significa que a regularidade da área e da operação passa a ter peso ainda maior na análise da seguradora”, explica.
Entre os critérios exigidos estão a situação ativa do Cadastro Ambiental Rural (CAR), ausência de embargos ambientais e inexistência de vínculos com práticas ilegais, além da exigência de georreferenciamento das áreas.
“Isso faz com que o seguro deixe de ser apenas uma proteção financeira e passe a funcionar também como um filtro adicional de conformidade socioambiental”, destaca.
Pequenos produtores podem enfrentar mais barreiras
Apesar dos avanços em governança e transparência, a nova exigência pode gerar desafios, principalmente para produtores com menor estrutura.
“Sim, esse risco existe, principalmente para produtores com menor estrutura administrativa, problemas de regularização fundiária ou passivos socioambientais”, afirma Julia Guerra.
De acordo com ela, o principal ponto não é apenas a agenda ESG, mas a capacidade de comprovar conformidade de forma organizada.
“O ponto central não é apenas a agenda ESG em si, mas a capacidade de comprovar conformidade de forma organizada e rastreável”, ressalta.
Mesmo com mecanismos de mitigação previstos na norma, o acesso ao seguro pode se tornar mais complexo para parte dos produtores.
“Na prática, pequenos e médios podem enfrentar mais dificuldade, mais demora ou maior custo para acessar o seguro”, diz.

Impacto pode atingir a cadeia de proteína animal
A eventual restrição ao acesso ao seguro também pode gerar efeitos indiretos na produção de proteína animal, especialmente na oferta de insumos.
“Para a cadeia de proteína animal, isso pode gerar efeito indireto relevante: produtores menos segurados ficam mais expostos a choques climáticos e financeiros”, afirma.
Segundo a executiva, esse cenário pode afetar a estabilidade do fornecimento de grãos utilizados na alimentação animal.
“Isso pode afetar a estabilidade da oferta de grãos para ração e aumentar a vulnerabilidade de elos importantes da produção de aves, suínos e bovinos”, explica.
ESG pode fortalecer competitividade internacional
Por outro lado, a adoção de critérios socioambientais no seguro rural também é vista como uma oportunidade estratégica para o posicionamento do Brasil no mercado global. “Sim, pode fortalecer, e de forma bastante estratégica”, afirma Julia Guerra.
De acordo com ela, a tendência internacional é de maior exigência em relação à rastreabilidade e à origem da produção.
“O mercado internacional está cada vez mais atento à rastreabilidade, à origem da produção e à comprovação de conformidade socioambiental”, destaca. Nesse contexto, o avanço regulatório pode contribuir para aumentar a confiança de compradores e investidores.
“Se bem implementada, a norma pode ajudar a posicionar a cadeia brasileira de proteína animal como mais confiável, mais transparente e mais preparada para competir em mercados que valorizam governança e sustentabilidade”, afirma.
Desafio será equilibrar exigência e inclusão
Apesar do potencial positivo, a especialista ressalta que o sucesso da medida dependerá da forma como será implementada no campo.
“O desafio é garantir que essa transição amplie a credibilidade do setor sem excluir produtores que precisam de apoio para se adequar”, conclui.
Com entrada em vigor prevista para maio de 2026, a nova regulamentação reforça a tendência de integração entre sustentabilidade, gestão de risco e competitividade no agronegócio brasileiro.
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